Faxina de Dilma – Estratégia ou Senso de Oportunidade?

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A presidenta Dilma não aceitou recentemente o termo “faxina” para as demissões ocorridas em seu governo, alegando não ser combate à corrupção programa de governo mas “ossos do ofício”. Mas será mesmo que não havia uma intenção, consensuada com seu antecessor e patrocinador, de ser mais rigorosa com a corrupção? Não acredito que o governo Dilma esteja executando um roteiro genialmente planejado por Lula, mas acho que ele já esperava por muitas das ações que estão sendo feitas contra o governo e elaborou a estratégia para a sucessão baseada nestas previsões e no que tinha em vista como projeto político para os próximos mandatos.

Penso que a maior conquista de Lula na presidência (sem entrar no mérito se foi sorte ou competência, porque, provavelmente, foi um pouco de cada), foi fazer a sociedade brasileira acreditar que a política e o estado podem ser instrumentos de transformação da realidade. Entretanto, acho que ele mesmo tem consciência de não ter transformado as estruturas do estado para otimizar o uso dos recursos públicos. Provavelmente sabe que grande parte do que pode fazer foi proporcionado pela alta do preço das commodities combinado com sua política (intencional) de fortalecer o mercado interno. Mas era preciso ter feito mais, não tendo feito por falta de condições políticas na base.

 

E aí entra a estratégia para sucessão, em que a escolha da Dilma foi somente um dos pontos.

Penso que Lula, em seus dois mandatos, aprendeu, entre outras coisas, que:

1 – o presidente não pode ter contra si o Congresso porque, em uma crise política fica vulnerável a um impeachment;

2 – as alianças no Congresso não podem se basear em maiorias pequenas por se ficar refém da base;

3 – o PT é o partido mais fiscalizado;

4 – não se consegue combater corrupção e modernizar o estado com compromissos com os políticos que sobrevivem a muitos anos na sombra deste estado;

5 – denúncias de corrupção tendem a não ter efeito político sério caso a economia esteja indo bem.

 

Baseado nestas premissas, ele escolheu Dilma pensando, creio eu, nas seguintes características da presidenta:

 1 – carreira pública inatacável do ponto de vista ético, ficando pouco vulnerável aos ataques que viriam. Outro político certamente teria em seu passado compromissos políticos ou ações administrativas que seriam muito explorados em uma campanha eleitoral;

2 – perfil gerencial de alto nível e disciplina espartana para modernizar a burocracia federal trazendo ferramentais mais atuais de planejamento e controle à administração;

3 – pouca complacência com desvios éticos que, para seria mais difícil para outros políticos, seja pelos mesmos motivos do item 1, seja pela natural acomodação dos políticos de carreira ao poder.

O outro ponto da estratégia de Lula foi montar uma base parlamentar gigantesca. Fez acordos com o PMDB, manteve as alianças históricas e manteve também a aliança com os partidos pequenos. Em virtude disso, no atual governo, os partidos (incluindo o PT) dependem mais do governo que o inverso.

As fragilidades de Dilma (falta de experiência como chefe de executivo e líder política) seriam compensadas pela disciplina, pelo tamanho da base e pelo apoio do padrinho quando necessário.

 

Os fatos políticos que pautaram a mídia no início do governo e a reação do governo parecem estar de acordo com as esperadas denúncias de corrupção e esta hipótese sobre a estratégia de Lula, conforme descrita acima.

Vejamos os fatos, um a um:

Queda de Palocci 

Origem: imprensa com dados das receitas do município de São Paulo (Serra???)

Possível motivação: desgastar o governo perante a opinião pública

Ação de Governo: Exigir esclarecimentos do ministro e sua eventual demissão

Conseqüência: Junto aos leitores da grande imprensa e JN, munição para criticar o governo. Junto aos demais eleitores, provavelmente positiva, passando a impressão de que seu governo não será conivente com a corrupção. Do lado do governo, a substituição de um ministro político por outro de perfil mais gerencial e mais entrosada com a presidenta.

Demissão de Jobim 

Origem: Declarações do ministro

Possível motivação: A única que consigo pensar é a idéia de Jobim que sua demissão levaria o PMDB a se afastar do governo e, ou aproximar-se de Serra, ou embarcar numa candidatura do próprio Jobim

Ação de Governo: Exigir esclarecimentos do ministro e sua eventual demissão

Conseqüência: Nenhuma, por enquanto, o PMDB não se moveu, e sobre a candidatura de Jobim só vamos saber no futuro. Do lado do governo, foi indicado um ministro mais alinhado ideologicamente com a presidenta.

Crise na agricultura 

Origem: imprensa

Possível motivação: desgastar o governo perante a opinião pública e perante o PMDB

Ação de Governo: o próprio ministro tomou a decisão de sair em acordo com o próprio PMDB e a presidenta

Conseqüência: Junto aos leitores da grande imprensa e JN, munição para criticar o governo. Junto aos demais eleitores, provavelmente positiva, passando a impressão de que seu governo não será conivente com a corrupção. Do lado do governo, a substituição de um ministro político por outro mais entrosado com a presidenta. Também que governo e PMDB resolvessem uma crise juntos

Crise nos transportes

Origem: imprensa com informações de cobranças de Dilma sobre o PR e valor da propina cobrada pelo PR.

Possível motivação: da Veja, desgastar o governo perante a opinião pública. Se foi vazado pelo PR, chantagear o governo (talvez traído pela Veja que passou do limite esperado pelo partido) ou, se vazado pelo governo, intenção de acabar com a farra no ministério;

Ação de Governo: “faxina” no ministério

Conseqüência: Junto aos leitores da grande imprensa e JN, munição para criticar o governo. Junto aos demais eleitores, provavelmente positiva, passando a impressão de que seu governo não será conivente com a corrupção. Do lado do governo, a substituição de um ministro “conivente” com a corrupção por um ministro filiado ao PR, mas com sólida carreira técnica. PR diz que sai da base e torna-se independente, não se diz de oposição. Parece já estar voltando...

Crise no turismo

Origem: Operação da PF (Serra???)

Possível motivação: desgastar o governo perante a opinião pública, minar a candidatura de M. Suplicy à prefeitura de São Paulo

Ação de Governo: Publicamente, somente condenar os exageros, privadamente não se sabe

Conseqüência: Junto aos leitores da grande imprensa e JN, munição para criticar o governo. Junto aos demais eleitores, provavelmente positiva, passando a impressão de que seu governo não será conivente com a corrupção. Desgaste de M. Suplicy na sucessão paulistana.

Do meu ponto de vista, nenhum destes pontos gerou um problema político grave para o governo. Talvez Marta Suplicy se prejudique, mas temos que lembrar que o governo (leia-se Dilma & Lula) prefere Fernando Haddad. Pelo contrário, pode até ter passado para a sociedade a intenção do governo em realmente combater, mesmo que reativamente, a corrupção. A relação com o PMDB pode se fortalecer pela superação das crises e os pequenos partidos podem se convencer de que não terão lugar no governo se não atuarem dentro de patamares éticos aceitáveis. Outra vantagem destas crises foi que o governo provavelmente está melhor do ponto de vista ético, técnico e orgânico, uma vez que os novos indicados são, em sua maioria, mais alinhados com a presidenta.

Os acenos ao PSDB, através de relações pessoais com FHC e administrativas com Anastásia e Alckmin, podem até não ser fruto de nenhuma genialidade política, mas, com certeza, são gestos acertados para eliminar um pouco das tensões entre os dois partidos mais influentes. Não acredito que o apoio de FHC às ações de Dilma contra a corrupção seja fruto destes acenos, mas sim que ele, e também Marina Silva, devam ter detectado em suas respectivas bases uma simpatia por este comportamento da presidenta.

 Em síntese, acho que o governo estava preparado para as “crises”. Acho que persistem riscos, mas afora encontrar-se um escândalo muito mais graves e próximos da presidenta que estes, o governo vai seguir seu rumo.

 

 

 

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