Quem Com Capitalismo Fere, Com Capitalismo Será Ferido

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Os que organizam as “Marchas dos Indignados” deveriam rever um pouco o passado para tentar entender o presente e tentar pensar a construção do futuro. Temo que seus protestos não levem a lugar nenhum porque buscam evitar o inevitável, mesmo que consigam diminuir o poder dos financistas.

 

Com o perdão do exagero, a última vez que a Europa produziu excedente econômico fruto exclusivamente de seu trabalho foi ao final do feudalismo. Naquele momento, as melhorias das técnicas agrícolas levaram a uma produção maior que o consumo e a um renascimento urbano e comercial.

 

Depois disso, a história do capitalismo pode ser resumida em duas palavras. Expansão e Exploração.

 

Imediatamente após o renascimento comercial, as cruzadas expandiram as rotas comerciais das cidades italianas dando a elas o controle do Mediterrâneo.

 

Querendo também um pouco da ação, espanhóis e portugueses tentam chegar às Índias e descobrem as Américas. Golpe de sorte porque, se não existisse este continente no meio do caminho, as relações de trocas dos países europeus com o Oriente poderiam ser negativas e impedir qualquer acumulação de capital.

 

Com o início da exploração da América, começa a acumulação de capital na Europa com o trabalho alheio. A Europa  passa a produzir nas colônias e vender produtos que outrora comprava.

 

Esta acumulação enche os bolsos dos burgueses e dos governos europeus, financiando a revolução industrial. O capitalismo cria novas necessidades de consumo internamente na Europa e aumenta o bem-estar de seus habitantes. Tudo financiado originalmente com as terras, o suor e o sangue dos indígenas americanos e dos negros africanos.

 

A Europa liberal passa a promover a independência dos países americanos para expandir o número de consumidores para seus produtos, nunca esquecendo de manter a influência política na América livre e o suprimento de matérias primas e produtos agrícoloas em condições favoráveis de troca.

 

Nos séculos XIX e XX, a expansão (e sua irmã siamesa exploração) vão para as colônias africanas e asiáticas repartidas entre si pelas potências européias, com predomínio daquela cujo sol nunca se punha nas terras de sua majestade.

 

A disputa pela exploração das terras alheias gera duas guerras mundiais provocadas pelos europeus que se acharam “injustiçados” na partilha e, carecendo de mercados para onde expandir seu capitalismo, tentam fazê-lo na própria Europa.

 

As guerras entre os europeus abrem espaço para que a águia de cabeça branca amadureça e o grande urso acorde. Mas enquanto a águia nada mais é que um europeu que foi estudar fora de casa, o urso se coloca como adversário.

 

A ameaça do urso ao capitalismo parecia real. Também tentava expandir-se para novas fronteiras mas não tinha a inteligência da águia capitalista. Esta soube usar o discurso de igualdade do urso para acalmar os habitantes das terras onde seu vôo alcançava e, por outro lado, também soube o usar o lado ameaçador do urso para assustar os que tinham a perder no capitalismo e conquistar novos domínios.

 

Mas a exploração da mão-de-obra européia e norte-americanda diminuiu com a ameaça do comunismo soviético. Europeus e norte-americanos estavam cansados de serem explorados em fábricas para se sustentar e o capitalismo central teve que se expandir mais uma vez.

 

Fábricas são transferidas do capitalismo central para o periférico e o primeiro passa a se preocupar mais em pensar, planejar e gerenciar do que em fazer. Surge o capitalismo das grandes corporações multinacionais, onde os serviços concentram-se no núcleo e a produção na periferia. Desnecessário dizer a quem as relações de troca continuam a favorecer. A manutenção da influência política é fundamental para a obtenção das melhores vantagens competitivas às novas unidades industriais externas.

 

Na Ásia, próximo à ameaça soviética, a manutenção do controle político é mais cara. Uma guerra violentíssima foi necessária. Grandes concessões aos governos conservadores da Coréia do Sul e, principalmente, do Japão foram feitos para manter estes países sobre o controle do capitalismo central. A principal delas, permitir a expansão do capitalismo tecnológico para estes países, proporcionando um nível de vida bastante alto em relação às demais periferias. Em compensação, ao sentir-se ameaçado pelo capitalismo japonês, o capitalismo central fez com os governos títeres destes países se conformassem em frear sua própria expansão.

 

Foi também necessário fazer um acordo com um filhote de dragão. Mas este, vamos ver um pouco depois.

 

Eis que, para surpresa de alguns, o urso morre e o capitalismo tem oportunidade de expandir mais um pouco seus domínios. Esta expansão acaba sendo pouco significativa por que uma outra mais relevante estava em progresso.

 

Depois de entender que o custo de expansão pelos métodos tradicionais (colonialismo e imperialismo) tornou-se politica e economicamente muito alto, o capitalismo central descobre que pode se expandir virtualmente. Não é preciso mais gerar riqueza através da produção de bens e serviços, basta apenas “alavancar” o capital. Bens começam a ser avaliados por valores irreais, a liquidez internacional se multiplica, balanços são fraudados, ousadas lógicas de derivativos passam a reger os mercados de capitais e o mercado financeiro globalizado se expande de forma inédita.

 

Um dia, porém, a bolha iria explodir. Descobriu-se que a riqueza dos países centrais não era tão grande assim. Bom, mas este é o ciclo do capitalismo certo? Ciclos de abundância seguida de ciclos recessivos que, segundo os seus estudiosos, servem para organizar a economia até que um novo aumento de produtividade reinicie o círculo virtuoso de produção e consumo. Correto?

 

Não sei. O nível de consumo no capitalismo central assumiu um patamar muito superior à poupança real, sendo financiado pela expansão da liquidez sem lastro. Diferente das outras crises onde havia um momento de acomodação para dar espaço à retomada da expansão, neste caso a queda deste consumo deverá ser muito pronunciada o que já gera um enorme desgaste político aos governos centrais.

 

Em segundo lugar, e talvez mais importante é que o capitalismo central não tem mais tanta facilidade em encontrar novos espaços em função da expansão do capitalismo chinês, o agora adulto dragão.

 

No início da década de 70, os EUA e a China selaram um acordo tático contra o inimigo comum, a União Soviética. A China, paulatinamente, foi aceitando a existência do capital privado multinacional, política enxergada pelo capitalismo central como uma nova fronteira para expansão. Hoje se vê, entretanto, que o Partido Comunista Chinês já conhecia muito mais o capitalismo que a direita latino-americana, os partidos conservadores japoneses ou os generais ditadores sul-coreanos e mesmo os estrategistas norte-americanos.

 

A China condicionou, e continua condicionando, a entrada de empresas estrangeiras à associação com o capital local. Isso não impede a exploração da mão-de-obra chinesa, mas faz com que parte da acumulação capitalista seja mantida intramuralha pelo grande capitalista chinês, seu governo. Esta reserva garante recursos para permitir uma política agressiva de investimentos internos e externos.

 

No comércio internacional, a China também desafia o capitalismo central ao influir nas relações de troca. Com seu dumping social, rebaixa o valor dos manufaturados de baixo valor agregado e, ao mesmo tempo, procura uma maior participação como fornecedora de bens de capital e manufaturados de alto valor agregado. Na outra ponta, concorre com o capitalismo central pela aquisição de commodities, aumentando a demanda deste tipo de produtos e, como fazia o capitalismo central, buscando o controle da produção nos países periféricos. Estes, por sua, vez, contam com uma fonte alternativa de financiamento e com um novo polo de apoio político e econômico.

 

Esta inversão das relações de troca entre capitalismo central e periférico proporcionou uma expectativa de futuro aos países pobres. Esquecidos pelos donos da bola desde a crise da dívida nos anos 80 e do início da armadilha chinesa, alguns governos destes países promoveram políticas de redução de desigualdade, blindando-se contra as outrora comuns ingerências políticas externas e passaram a exercer influência regional. O capitalismo central não tem mais as mesmas facilidades de exploração que possuía antes nesses países.

 

Em suma, a atuação global da China e suas consequências limitam a necessária expansão do capitalismo central, hoje imerso em uma crise de características inéditas e que põe em jogo a supremacia cultural européia.

 

No início do texto, sugeri que as “Marchas dos Indignados” não vão a levar a lugar algum, embora ache saudável a diminuição do poder do financismo. Disse isso porque o desenlace dessa crise passa, obrigatoriamente, por uma queda significativa do padrão de vida nos países desenvolvidos. Também sugeri a revisão da história para que entendessem que seu nível de vida foi atingido através da expansão do consumo e da exploração do trabalho em outras regiões do globo, conjuntura que não deve se repetir mais. Juntando estas duas pontas, espero que tomem consciência que a pena a pagar a partir de agora não é gratuita, mas deriva da sua própria falta de reflexão quando o momento econômico lhes era favorável.

 

Mas quem diria, será que os socialistas terão finalmente seu sonho de superação do capitalismo e imperialismo norte-americano realizado? E que esta superação será feita pelo sistema econômico da República Popular da China? Mas será que eles vão despertar do sonho antes de compreenderem que este novo sistema continuará sendo o capitalismo?

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