Síria: A Rapinagem em Contagem Regressiva

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O que está por trás da ameaça de invasão imperialista?A mudança de política para uma política abertamente de força, sob a pressão da ultradireita e impulsionada pelo aprofundamento da crise, que teve como ponto de inflexão o truculento golpe militar no Egito

O aparato de propaganda imperialista empreendeu, nas últimas semanas, uma feroz campanha sobre o uso de armas químicas pelo Exército sírio contra a população civil indefesa. Foram posicionados navios norte-americanos, destrutores da classe Arleigh Burke, perto das costas sírias, mas fora do alcance da artilharia, a uns 1.600 quilômetros de distância. Bombardeiros B-1 podem ser mobilizados a partir da base de Al Udeid, localizada no Catar.

Os governos da Grã Bretanha da França também mobilizaram a aviação. A diplomacia imperialista costurou com os governos da Liga Árabe, da Turquia, do Canadá e da Austrália o apoio ao ataque.

O ataque é proposto com caraterísticas cirúrgicas, com “apenas” 50 alvos em princípio, limitados a dois dias de duração, usando mísseis Tomahawks, os mesmos que foram testados no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Só este fato mostra que o objetivo não seria derrubar o regime de al-Assad, nem mesmo de destruir os arsenais de armas químicas. Esses mísseis têm uma efetividade muito relativa contra alvos móveis ou bunkeres e menos ainda contra os depósitos de armas químicas, que, além de terem o potencial de provocar uma catástrofe ambiental, podem cair facilmente sob o controle dos guerrilheiros caso não houver mobilização de tropas no solo. O objetivo inicial declarado seria disparar dois ou três mísseis contra alguns centros de comando e bases de helicópteros de fabricação russa, o que estaria distante do genocídio das “guerras profilácticas” promovidas em Kosovo e na Líbia. Nem sequer as pistas aéreas, por onde o regime recebe apoio militar do governo do Irã, estariam no alvo dos ataques.

O objetivo do imperialismo, portanto, não seria derrubar o governo de al-Assad. Segundo a própria representante do Departamento de Estado, Marie Harf, declarou recentemente, o objetivo não seria uma “mudança do regime”.

 

A desestabilização na Síria

 

O ascenso da chamada “primavera árabe” levou às ruas milhares de pessoas, em março de 2011, contra as políticas do governo de al-Assad

O governo continua controlando a região sul do País, numa faixa que se estende desde a fronteira com a Jordânia até o Mar Mediterrâneo, incluindo cidades como Damasco e Homs. O norte do País é controlado pelos curdos, que têm entrado em conflito com os guerrilheiros islâmicos, e por estes mesmos.

O Exército sírio conseguiu avançar sobre as cidades localizadas na fronteiras com o Líbano há aproximadamente dois meses, contando com o apoio da milícia libanesa Hizbollah, numa movimentação militar que começou com a retomada da cidade de Al Qusair, localizada a 10 quilômetros do Líbano. A ofensiva avançou em direção à segunda maior cidade do País, Aleppo, retomou alguns bairros mas vários deles ainda continuam sob o controle de vários grupos guerrilheiros, diferentes e até em luta entre si. Em Damasco, a guerra civil também é intensa.

Os grupos ligados à Turquia, que atua fundamentalmente como um intermediário do imperialismo europeu, agrupados no ESL (Exército Sírio Livre), têm força ao norte do País.

No noroeste, ao norte do Líbano, a região controlada pelos alawitas, que estão na base do governo de al-Assad, se enfrenta à al-Nusra, al-Sham e ao grupo autodenominado Estado Islâmico do Iraque e Levante. A luta pelo controle de Latakia, o principal porto do País, tem se tornado encarniçada.

Al Nusra tem se fortalecido enormemente na Síria. Trata-se de um braço do grupo Al Qaeda no Iraque que concentrou as ações na província de Anbar, que faz fronteira com a Síria, a partir de 2007, quando o imperialismo conseguiu estabilizar a situação a partir de um acordo com o Irã, o que possibilitou a contenção do avanço das milícias xiitas, principalmente da poderosa Madhi. A fronteira entre a Síria e o Iraque é inexistente, e passa por uma região desértica.

 

A desestabilização no Egito, na Síria e o aprofundamento da crise no Oriente Médio

 

A desestabilização do Oriente Médio a partir da Síria ameaça incendiar a região. O número de refugiados já soma 1,9 milhões segundo a ACNUR (Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados), sendo que dois terços abandonaram o País neste ano. O Líbano, a Turquia, o Iraque e a Jordânia são os principais países receptores desse fluxo.

Órgãos ligados estreitamente à ultradireita norte-americano e aos sionistas israelenses têm se juntado em coro com a reacionária monarquia saudita para promover um ataque militar em larga escala, como solução à crise aberta no Oriente Médio. O jornal isralelense Yedioth Ahronoth tirou uma manchete recentemente intitulada “A caminho do ataque militar”, onde descrevia detalhadamente um plano. Há apenas dois meses, uma análise realizada pelo AMAN (a inteligência do Exército sionista) dizia literalmente que al-Assad não seria louco de ultrapassar a linha vermelha, estabelecida, pela Administração Obama, em relação ao uso de armas químicas.

O golpe militar truculento no Egito, a la Pinochet, representou um ponto de inflexão para a política de força, enterrando a chamada “contrarrevolução democrática”, impulsionada, no Oriente Médio, sob a Irmandade Muçulmana. A intervenção da reacionária monarquia saudita, a principal potência regional do Oriente Médio, ficou muito mais intensa após a nomeação do príncipe Bandar bin Sultan, como chefe dos serviços de inteligência. A Jordânia, muito enfraquecida pelo aprofundamento da crise capitalista, foi transformada numa espécie de base militar dos sauditas e do imperialismo norte-americano, como principal ponto de infiltração dos mercenários treinados pela CIA.

 

O que está por trás da ameaça de invasão imperialista à Síria?

 

Os verdadeiros interesses do imperialismo norte-americano estão muito longe de terem como base considerações morais, tais como a maldade do governo al-Assad. Sem ir muito longe, o ataque dos iranianos com gás em 1988, pelo exército iraquiano de Saddam Hussein, foi feito com o apoio dos norte-americanos. É muito improvável que o governo de al-Assad tenha promovido um ataque com gás, sabendo que abriria caminho a um ataque imperialista. Há uma missão das Nações Unidas no País que tem inclusive luz verde do governo para realizarem inspeções.

O exército sírio tem obtido vitórias importantes nas últimas semanas, com o apoio da milícia libanesa Hizbollah, desde Qusayr até Homs, Derah, Damasco e Aleppo. Mas os grupos guerrilheiros ligados a al-Qaeda, também têm se reagrupado e fortalecido enquanto os grupos ligados ao imperialismo enfrentam dificuldades para impôr a política.

O ataque do imperialismo à Síria somente pode jogar mais lenha na fogueira, mas as alternativas são escassas. O enfraquecido exército líbio conseguiu resistir aos ataques aéreos durante oito meses. O exército sírio, além de mais forte, conta com o apoio militar da Rússia, do Irã e do Hizbollah, além da proximidade com a China.

A escalada do belicismo imperialista representa uma saída de força para a crise que aumenta no Oriente Médio e em escala mundial. A “saída” passa por uma contenção belicista e o aumento da venda de armas, em condições da queda generalizada dos lucros, inclusive no setor de armamentos. Não por casualidade, perante o aprofundamento da crise capitalista nos principais compradores de armas, como a Arábia Saudita, o imperialismo tenta avançar em cima de “novos” mercado. Recentemente, o secretário da Defesa norte-americano, Chuck Hagel, anunciou a venda de armas para a Indonésia por US$ 500 milhões, a maior da história do País, incluindo oito helicópteros Apache (construídos pela Boeing), tecnologias de radar e treinamento militar. Esse armamento está destinado principalmente a combater os guerrilheiros que atuam na província de Papua Ocidental.

 

O que está por trás da visita do chefe da inteligência saudita a Moscou?

 

Perante o avanço da desestabilização na Síria, há uma mudança de política no Oriente Médio.

O governo turco apertou o cerco contra os militares golpistas, ligados às alas mais reacionárias, mas apertou a própria política com o objetivo de se manter no poder. O primeiro ministro turco, Erdogan, deverá visitar Moscou em setembro, onde a crise na Síria será o principal ponto a ser tratado.

A recente visita de bin Sultan, o novo chefe dos serviços de inteligência saudita, a Moscou mostra que, apesar das contradições com as potências regionais, há uma frente única com o objetivo de conter os grupos guerrilheiros ligados a al-Qaeda que avançam no norte da África, no Sahel (região localizada ao sul do Deserto de Sahara) e no Oriente Médio, e que agora ameaçam transbordar para o Cáucaso, as repúblicas da Ásia Central e o sul da Rússia (a Tchetchênia em primeiro lugar). A visita, que aconteceu no dia 30 de julho, foi mantida em segredo. As contradições com o imperialismo europeu também ficaram claras. Bin Sultan declarou “Nós falamos de maneira direta aos cataris e aos turcos. Rejeitamos o apoio irrestrito dado à Irmandade Muçulmana no Egito e nos demais países. O papel dos turcos hoje é muito similar ao do Paquistão na guerra do Afeganistão. Nós não favorecemos regimes religiosos extremistas, e queremos estabelecer regimes moderados na região. É muito importante prestar atenção e seguir a experiência do Egito”.

Em cima de acordos relacionados em cima do petróleo e do gás no Mar Mediterrâneo, que os russos exportam à Europa, os sauditas, os sionistas e o imperialismo norte-americano tentam conseguir um acordo para conter militarmente a desestabilização síria e inclusive avançar sobre o Irã, que está na base do apoio às milícias do Hizbollah e do Hamas.

http://www.pco.org.br/internacional/o-que-esta-por-tras-da-ameaca-de-invasao-imperialista/aijo,a.html

 

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