Hipocrisia e ódio. Ou quando o preconceito assume duas faces

Autor: 

 

 

 

Por Zeca Peixoto*

 

A chegada dos médicos estrangeiros que aderiram ao programa Mais Médicos suscita uma questão que não pode passar despercebida. Porque grave. Desde que foi anunciada a iniciativa do governo federal, de imediato ocorreu uma correia de transmissão entre as corporações médicas - sindicatos, federação nacional e conselhos federal e regionais - e os órgãos de imprensa da mídia corporativa.

Os primeiros, demarcando território; os jornalões e TVs, construindo a agenda. Médicos foram às ruas com nariz de palhaço "denunciar" as condições de infraestrutura de saúde do país. Gritavam, entre outras coisas, que a questão não era o número de médicos e sim gestão na área.

Claro que há problemas de infraestrutura. Ninguém nega. Mas há falta de profissionais para atender às populações dos rincões. Não é preciso tecnologia de ponta para tratar verme e diarréias e ensinar procedimentos básicos de saúde. Fato. Priorizaram inscrições para médicos brasileiros à adesão ao programa. As vagas não foram preenchidas. Posteriormente, se inscreveram médicos da Argentina, Portugal e Cuba. Está aí o X da questão. Para com argentinos e portugueses, cobranças acerca do revalida - validação do diploma - e questões salariais foram minimizadas. Quanto aos cubanos, a estes quesitos foi adicionada a pauta da remuneração. Os profissionais seriam "escravos" porque o convênio com o governo de Cuba prevê que as bolsas pagas pelos serviços sejam efetuadas ao estado, que repassa uma parte aos médicos. E como se trata de um país socialista...

Emerge então o preconceito de ordem ideológica. E com coloração racista, como registrado na desrespeitosa recepção de algumas médicas do Ceará aos seus colegas de Cuba. Do dia pra noite, políticos do naipe de Heraldo Rocha, por exemplo, passaram a se "preocupar" com as condições de trabalho alheia.

Logo tu, Heraldo? Alguém já viu alguma vez na vida esta persona se postar a favor de alguma tese de ordem trabalhista? O médico Heraldo Rocha,  presidente municipal do DEM (Democratas) em Salvador, sempre foi um aliado e aguerrido defensor dos mais ferozes interesses da Medicina mercantilizada. Seu partido procura obstruir e se põe contrário a todas iniciativas e projetos de lei que busquem penas mais rigorosas contra a prática do trabalho escravo. Heraldo Rocha é, no mínimo, um hipócrita. No mesmíssimo diapasão, a jornalista (será?) potiguar de prenome Micheline desrespeita empregadas domésticas e médicas cubanas esteriotipando-as com clichês fascistas e racistas numa rede social.

Heraldo, Micheline e as coxinhas de jaleco do Ceará são engrenagens do mesmo motor. Todos repercussores do agendamento midiático que interessa aos lobbys corporativistas da Medicina de açougue. 

Heraldo com um discurso bufante que não consegue convencer nem a si próprio; e Micheline que só enxerga um médico na pôse de Heraldo e das suas colegas cearenses.


*Zeca Peixoto é jornalista, mestre em História Social e blogueiro.

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