Sobre viver no Cárcere: nossas escolhas?

 

Sobre viver no Cárcere: nossas escolhas?

H.L.T.M.

Há dias que venho revirando minhas lembranças e sempre encontro no meu passado provas de que não fui feliz nas “minhas escolhas”. O que colho hoje são frutos que plantei no passado. Destino? Eu não acredito. Tudo não passa de uma questão de ser, ser o que a mídia quer, ser o que as garotas gostam e que os guris respeitam. Mas o que o meu pai e minha mãe me ensinaram, não conta? Se contasse não estaria em uma galeria do Presidio Central de Porto Alegre refletindo sobre as “minhas escolhas”.

Oportunidades eu tive, não as mesmas que os filhos de “doutor fulano”, mas tive. Cabia a mim aproveitá-las e fazê-las de degrau para subir na vida. Não fiz, deixei a revolta de ver certas pessoas que nunca suaram e tiveram tudo, me envenenar com o materialismo. De que se eu não tivesse o tênis, a roupa ou o celular da hora de nada adiantaria, ou seja, você é respeitado e admirado pelo que tem.

Se entrarem em um restaurante duas pessoas uma bem vestida com roupas da moda e sem dinheiro, outra de roupas simples e humildes, com dinheiro. Qual delas será melhor atendida? Muitos de nós somos julgados pela aparência, são poucas as pessoas que olham para o interior das pessoas e não a aparência.

Mesmo em um presídio onde todos nos encontramos nas mesmas condições, há discriminação entre nós, se você tem condições financeiras privilegiadas pelo crime ou pela sua família, será tratado de outra forma, terá privilégios que uma pessoa “comum” nunca terá.

Hoje, na Galeria Luz no Cárcere, há um ano e quatro meses sem nenhum contato com drogas e sendo tratado com respeito e dignidade, começo a acreditar que é possível cumprir pena sem desenvolver revolta e raiva. Estou desabafando porque sei que tudo pode ser diferente. Aqui estão os presos que se dispõe a ficar sem drogas, sem facções e sem aparelhos celulares, em troca de cumprir uma pena que te dá atendimento médico, auxílio psicossocial, jurídico e o mais interessante temos atividades que vão de auto-ajuda para nos manter firmes longe das drogas até atividades que nos dão conhecimento, como direitos e deveres de um apenado. Temos acesso à cultura através de livros e de voluntários que acreditam que é possível recuperar detentos desprezados por seus crimes e transformá-los em pessoas de bem novamente.

Muitas pessoas não concordam com esse tipo de tratamento que nos é dado, acham que por termos cometidos crimes devemos pagá-los da pior maneira possível. Acham que o dinheiro gasto com a gente é desperdício e poderia ser usado em outras áreas. Eu também acho que se fosse investido mais nas crianças e jovens da periferia ajudaria muito na diminuição da população carcerária.

Certo é que presos recolhidos ao sistema um dia ganharão a liberdade e logo estarão nas ruas, cometendo novos crimes, ou não. O que eu vejo dentro de tudo que eu passei desde que entrei pela primeira vez na cadeia é que só querer largar o crime não adianta. Só querer mudar de vida por si só não basta.

É preciso apoio e ajuda do Governo e da sociedade para que o tempo ocioso na cadeia não vire um curso intensivo de qualificação para o crime. É preciso mostrar que temos condições e talentos para competir no mercado de trabalho como qualquer outra pessoa. O tempo em que ficamos no presídio deve ser utilizado de uma forma, que nos recupere e nos qualifique, para que nós mesmos possamos acreditar em nós.

Não estou querendo que sejamos “tratados a pão de ló”, mas dignidade, respeito e motivação para a reinclusão social, fariam com que boa parte dos detentos que ganham a liberdade possa largar o crime. Acredito que a cultura, o esporte, oficinas profissionalizantes são o melhor caminho para a recuperação de presos.

Como integrante do Projeto Direito no Cárcere acredito no trabalho que é feito aqui e digo que, além de estar longe das drogas, estou enxergando um futuro grande ao sair daqui. Graças ao trabalho que é desenvolvido na Galeria Luz no Cárcere, tenho a oportunidade de ser uma aposta no Sistema Carcerário que Dá Certo. Escolher é uma decisão, as conseqüências constroem a história de cada um de nós.


Texto publicado na 39 edição do Jornal Estado de Direito.

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