Por que tanto medo dos protestos contra a copa?

Há um processo agressivo de desqualificação dos protestos em curso, e não falo aqui de jornalistas reacionários (ao menos eu não os via assim até pouco tempo atrás). Dois colunistas fizeram com que me acendesse esse sinal de alerta: Marcelo Rubens Paiva, do Estado, e Nirlando Beirão, do R7. O primeiro diz temer "pela integridade física e mental desses moleques mascarados", dispostos, segundo ele, a atacar torcedores adversários em nome de frustrar um ídolo tupiniquim, a tal copa do mundo, "instituição mundial que amamos a cada quatro anos". O segundo anunciou o fracasso do protesto de sábado por ter aparecido somente "os habituais gatos pingados" (entre mil e três mil pessoas), enquanto um bloco de carnaval sozinho atraía vinte mil pessoas, para não falar nos demais quarenta que se espalhavam pela cidade; e conclui, depois de vários qualificativos que rebaixam o debate: "o que aconteceu em junho de 2013 foi importante. Mas não tem nada a ver com os surtos da atual moléstia infantil do protestismo".  

Não sei se alguém nos protestos acredita que vai barrar a copa. Eu mesmo não sou muito simpático ao lema #naovaitercopa. Porém reconheço que como "grito de guerra", como "slogan de campanha", é um mote interessante, tanto que incomoda colunistas como os dois supra citados, e aponta que a briga não é exatamente por migalhas. Se incomodar, não concordar, achar um lema surreal, contudo, não autoriza os colunistas a agirem de má-fé e distorcerem propostas e fatos. Apesar que jornalista brasileiro tem memória extremamente curta, capaz de esquecer o que disse em menos de vinte e quatro horas (Jabor é nosso caso emblemático), e pode ser que o que escreveram foi resultado dessa amnésia que acomete significativa parcela dessa categoria. Não serei Poliana em acreditar nisso, insisto em achar má-fé.  

Ambos taxam os manifestantes de infantis, de moleques. É o que a Grande Imprensa dizia do Movimento Passe Livre, a meia dúzia de gatos pingados de arruaceiros e vândalos que ia nas suas primeiras manifestações, a ridícula briga por vinte centavos. Até se darem conta que a população não é tão bovina quanto criam.  

Paiva dá a entender que a revolta contra a copa vai se voltar contra os torcedores que aqui vierem. Diz que a revolta deveria se voltar contra o governo que assumiu responsabilidades e não cumpriu, e não contra a instituição copa, que não tem culpa de nada. O escritor só esqueceu que houve uma série de exigências da Fifa - tanto que os jogos serão em pasteurizadas arenas, ao invés de aproveitar estádios já prontos, históricos da copa de cinqüenta, como o velho Maracanã, o Pacaembu, a Vila Capanema, etc -, e que se os estádios estão quase prontos é porque dinheiro público que poderia ir para obras importantes foi canalizado para a instituição mundial que ele ama e me põe indevidamente junto (até gosto de futebol, de ir ao estádio, mas acho copa um porre, e sei que não estou sozinho).  

Já Beirão abusa da ignorância de seus leitores, e faz o jogo do Fla-Flu apedeuta que toma as discussões na rede. Ele atribui o fracasso da manifestação ao número de participantes. Vale lembrar que o primeiro ato do MPL devia ter no máximo duzentas pessoas, e que a quinta terror tinha pouco mais que o do dia vinte e dois (entre dois e cinco mil, a depender da fonte). Fracasso foi o protesto da semana seguinte à quinta terror, com milhares de pessoas nas ruas, vestindo as cores nacionais, deslumbrados com o prédio da Fiesp, atendidos por ambulantes, tirando fotos com policiais militares, hostilizando o MPL e a esquerda, enquanto protestavam contra impostos (e financiar o passe livre como?), contra o Lula (?), contra o casamento gay. O fracasso foi tamanho que o MPL se retirou temporariamente de cena, reaparecendo mais tarde nas periferias. Voltando ao protesto atual. Juntar mil pessoas, no mínimo, para apanhar da polícia militar numa tarde chuvosa e cheia de opções muito convidativas, parece estar longe de ser fracasso. Ainda mais a se julgar pela repercussão. Se o fracasso está em não alcançar seu objetivo, raros foram os protestos de sucesso, e melhor é mesmo ficar em casa, assistindo o jogo da rodada.  

E aqui o maior perigo da postura tomada por Nirlando Beirão, Marcelo Rubens Paiva, e tantos outros: um dos maiores legados (se não o maior) dos protestos de junho de dois mil e treze foi trazer a discussão política para o espaço público, para o quotidiano, autorizar a rua como espaço político democrático, e abrir espaço na Grande Imprensa para protestos que acontecem quase diariamente desde muito tempo e eram solenemente ignorados (quem escuta noticiário no rádio, por exemplo, nota a diferença). A desqualificação dos protestos contra a copa, assim como a forma que foram reprimidos pela polícia militar, é uma tentativa de retornar ao estado anterior, em que protesto era sinônimo de vagabundagem, e a população era tida por letárgica.  

Bei

rão sugere (e Paiva não fica muito atrás, nas entrelinhas do que diz) que "a copa é só a copa. Melhor relaxar e aproveitar". Com todo dinheiro e política envolvidos no evento, a copa não é só copa, e os protestos contra ela têm uma dimensão política que amedronta os donos do poder - tanto que seus cães de guarda já latem na Grande Imprensa.

 

  São Paulo, 24 de fevereiro de 2014

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