A Economia da Família

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A Economia da Família
(Texto atualizado em 26 de maio de 2013)

Ladislau Dowbor
http://dowbor.org/2013/05/economia-da-familia.html/

Nós nos reproduzimos através de gerações sucessivas. E a unidade básica de organização desta reprodução é a família. Ou pelo menos foi: hoje, o processo está se tornando incomparavelmente mais complexo e diversificado.

A família como unidade econômica
Vista pelo ângulo da economia, a reprodução de gerações numa família se constrói através de laços de solidariedade. Os pais cuidam das crianças, e dos seus próprios pais já idosos, e serão por sua vez cuidados pelos filhos. A solidariedade é marcada pela panela, pelo fato de um grupo sobreviver em torno do mesmo fogão de cozinha. Não é à toa que “lar” tem a mesma raiz que “lareira”, como é o caso também, por exemplo, de “foyer” e “feu” em francês, bem como hogar em espanhol. Como a criança não tem autonomia para sobreviver, e o idoso pouca, a sobrevivência das sucessivas gerações dependia vitalmente no passado, e ainda depende em grande parte nas sociedades modernas, da solidariedade familiar.
Em termos econômicos, a fase ativa da nossa vida, tipicamente dos 16 aos 64 anos, pode ser vista como produzindo um excedente: produzimos nesta idade mais do que o consumido, e com isto podemos sustentar filhos e idosos, eventuais deficientes, ou doentes, ou pessoas da família, mesmo em idade ativa, que não tenham como sustentar-se. Em outros termos, a economia da família permite, ou permitia, uma redistribuição interna entre os que produzem um excedente, e os que necessitam deste excedente para sobreviver.
O que está acontecendo, é que a família está deixando de assegurar esta ponte entre produtores e não-produtores. A família ampla, onde se misturavam avôs, tios, primos, irmãos, praticamente desapareceu, ainda que sobreviva em regiões rurais. O capitalismo moderno, centrado no consumismo, inventou a família economicamente rentável, composta de mãe, pai e um casal de filhos, o apartamento, a geladeira com covinhas para 12 ovos, o sofá e a televisão. É a família nuclear.
A tendência mais recente é a desarticulação da própria família nuclear. Nos Estados Unidos, apenas 26% dos domicílios têm pai, mãe e filhos. Na Suécia, seriam 23%. Hoje contam-se nos dedos os amigos que não estão divorciados. Mesmo quando estão juntos, pai e mãe trabalham, os filhos estão na escola (quando está tudo em ordem), e a vida familiar resume-se frequentemente a uma pequena roda cansada olhando para as bobagens da televisão no fim da noite.
O próprio casamento tem um futuro incerto. Um balanço da situação na Europa ocidental e em países de expressão inglesa constata que há quarenta anos havia em torno de 5% de nascimentos sem casamento. Hoje, esta proporção ultrapassa 30%. Esta tendência pode ser muito desigual: no Japão, apenas 1%. Entre os hispânicos nos Estados Unidos, são 42%, e entre negros americanos, 69%, enquanto a média geral americana é 33%.
A mudança profunda e acelerada na estrutura familiar está tendo sem dúvida impacto sobre um grande número de dinâmicas sociais, a cultura, os valores, as formas de convívio. Interessa-nos aqui particularmente a dinâmica da reprodução social.
O ser humano nem sempre obedeceu à filosofia geral do homo homini lupus, homem lobo do homem. Para além da família, havia as comunidades, os clãs, tribos, quilombos, sociedades mais ou menos secretas e as mais diversas formas de solidariedade social. Ou seja, podia-se procurar o vizinho. Hoje, nesta era da sociedade anônima, uma pessoa está literalmente só na multidão urbana. A urbanização, e sobre tudo a metropolização, contribuíram para isto, mas também contribuíram a televisão, a formação dos subúrbios e das cidades-dormitório, e uma série de fatores tão bem estudados por Robert Putnam em Bowling Alone.  Voltaremos a isto. O que nos interessa neste momento, é o fato que junto com a família é a própria articulação da comunidade e da solidariedade social que se fragilizam.
Com a revolução tecnológica, o conhecimento torna-se um elemento central dos processos produtivos. Uma geração atrás a infância terminava com o quarto ano, e o filho aos 12 anos já ajudava o pai na roça, a menina carregava água e cuidava dos irmãozinhos. Hoje, para a maioria das pessoas, a fase dependente no início da vida tende a estender-se cada vez mais, e vemos com frequência jovens que vivem uma pós-adolescência tardia, buscando mais um ano de estudo, à procura de um emprego no horizonte. Estar no “lar” aos 25 não tem hoje nada de original.
Do lado do idoso, havia uma certa lógica nas sociedades de antigamente. Vivia-se até os 50 anos, quando muito, e o tempo de criar os filhos era a conta justa. Hoje, uma pessoa pode perfeitamente viver até os 80 ou mais anos, e a terceira idade assume uma dimensão que cobre entre um quarto e um terço da nossa vida. Trata-se, aqui também, de uma fase de dependência muito precária, pois os sistemas de aposentadoria, tanto em termos de cobertura como de nível de remuneração, são amplamente deficientes, enquanto a família comercialmente correta simplesmente evita o convívio.
Ou seja, o tempo de dependência da nossa vida aumentou dramaticamente, enquanto a família, que assegurava a redistribuição do excedente entre as gerações – e entre as fases remuneradas e não-remuneradas das nossas vidas – está se tornando cada vez menos presente. Este processo torna absolutamente indispensável a presença de mecanismos sociais de redistribuição de renda, suprindo o papel que as famílias estão deixando de desempenhar. Trata-se, do ponto de vista das políticas públicas, de uma redistribuição de renda já não só dos ricos para os pobres, mas entre gerações, através da expansão das políticas sociais.

O papel social do setor público
Passamos a depender, portanto, de mecanismos formais de redistribuição do excedente social entre produtores e não produtores. Neste contexto, as críticas tão frequentes à extensão de políticas sociais e ao Estado de bem-estar – que aliás nunca foi muito amplo entre nós – resultam de uma incompreensão da simultânea ampliação da dependência e desestruturação das famílias. Pior ainda, a privatização das políticas sociais, que as torna voltadas para elites, torna a situação absolutamente dramática para amplas faixas da população onde se junta dependência e pobreza. A continuidade da ponte entre gerações se rompe.
Tentar reduzir o Estado, sobretudo nas suas dimensões sociais, constitui por tanto um absurdo, e uma compreensão completamente equivocada do rumo das transformações sociais. Os países desenvolvidos, que possuem de forma geral amplas políticas sociais, se dotaram de máquinas estatais que gerem, em média, 50% do produto interno bruto. Em comparação, nos nossos países em desenvolvimento o Estado gere em média 25% do PIB, isto que o próprio PIB é proporcionalmente menor. O Brasil, com 34%, está no início da evolução para uma relação Estado/privado mais equilibrada.
É importante lembrar que as políticas públicas, apesar de todo gosto que temos em criticá-las, constituem de longe o instrumento mais eficiente de promoção de políticas sociais, e em todo caso as únicas que permitem o equilíbrio social. Basta constatar a excelência nesta área atingida por países como o Canadá ou a Suécia, ou ainda comparar o Canadá com os Estados Unidos, onde com o dobro do gasto não se chega nem longe da qualidade dos serviços de saúde canadenses. Isto sem falar de Cuba, onde a excelência na área da saúde é atingida com recursos exíguos. A razão é bastante simples e meridianamente clara, por exemplo, na saúde: uma empresa privada quer ter mais clientes, o que no caso da saúde significa mais doentes. Com isto se perde a visão essencial da prevenção, e predomina a indústria da doença.
Na educação, o processo é semelhante, com as universidades privadas aumentando simplesmente o número de alunos por professor: aluno é dinheiro, professor é custo. As principais universidades americanas são privadas, mas sem fins lucrativos. No caso brasileiro, com a forte concentração de renda, o setor privado, quando entra no social, busca naturalmente servir quem pode pagar, e gera o luxo para elites, drenando recursos e privando os serviços sociais do seu papel de gerador de equilíbrio na sociedade.
No conjunto, portanto, enquanto as fases não remuneradas das nossas vidas se expandem, a família perde o seu papel redistribuidor, as comunidades perdem o seu caráter de solidariedade, o Estado ainda engatinha no seu papel de provedor, e o setor privado abocanha os recursos e os direciona para elites, agravando a situação do conjunto. Geram-se assim imensas tensões na reprodução social, tensões acompanhadas de desespero e impotência, porque sentidas como dramas individuais, de crianças e jovens sem rumos, de idosos reduzidos a uma mendicância ou abandono  humilhantes, de um clima geral de vale-tudo social. Criança não vota, aposentado não paralisa processo produtivo, mãe que cria sozinha os seus filhos (29% dos domicílios no Brasil têm a mãe como principal responsável) nem tem tempo de pensar nestas coisas.
 
A poupança familiar
O sentimento de segurança econômica na família é muito importante. O que sentimos hoje é ao mesmo tempo progresso e insegurança. A tendência é lamentável, pois nunca houve um excedente econômico – fruto do aumento da produtividade – tão amplo. No nível da família, o excedente se apresenta sob forma de poupança. Esta representa um tipo de seguro de vida individual, ou familiar.
No mundo da agricultura familiar, a acumulação sob forma de bens ainda é forte: são as galinhas, os porcos, as vacas, a parte da safra reservada para consumo e semente, os embutidos, as conservas: de certa forma, a unidade de agricultura familiar forma a sua própria conta bancária, sob forma de produção acumulada. No mundo urbanizado, ainda há gente que poupa através da aquisição de um segundo ou terceiro imóvel, que será alugado, e representa uma garantia de renda para o futuro. Mas no conjunto, passamos todos – os que temos certa poupança – a depender de intermediários financeiros. E quando não a temos, a depender dos crediários. Como as poupanças hoje são representadas por sinais magnéticos, com a correspondente volatilidade, perdemos o controle sobre o que é feito com o nosso excedente.
O caso brasileiro é aqui impressionante. O dinheiro que deixamos no banco, o banco aplica em títulos do governo, que o remunera com a taxa chamada Selic, hoje felizmente a 7,5% ao ano, incomparavelmente mais baixo que os 26% do final do governo FHC. Ganham os bancos, com o nosso dinheiro, uma massa de dinheiro que provém dos nossos impostos. Em 2012, ganharam com isto 213 bilhões de reais. Para ter uma referência, isto representa quase 5% do PIB, e cerca de 12 vezes o que se distribui sob forma de Bolsa Família, que tira 50 milhões de pessoas da pobreza. A massa de dinheiro transferida para os bancos vai para muito poucas famílias, na realidade um grupo restrito de rentistas, termo que designa alguém que ganha com dinheiro, não com produção. É dinheiro que poderia ser transformado em melhor educação, mais saúde, expansão das infraestruturas, e obviamente bem-estar das famílias, razão inicial pela qual pagamos impostos.
A taxa Selic é quanto o governo paga aos bancos. A taxa de juros ao tomador final, clientes comuns que somos todos, situa-se em nível ainda mais preocupante. Uma forma básica de intermediação financeira que dificulta a vida das famílias é o crediário. Quando se “facilita” a compra a prazo, se o juro é elevado, por exemplo de 100% como é o praticado para pessoa física, as pessoas irão comprar com uma prestação “que cabe no bolso”, porque são pobres ou não entendem de juros, mas no conjunto a metade apenas do dinheiro que gastam irá para pagar o produto, por exemplo de uma geladeira, e a outra metade servirá para pagar juros. O consumidor poderá comprar apenas a metade do que é a sua capacidade de compra real, e o produtor receberá muito pouco pela geladeira que produziu. O intermediário ganhará a metade de todo o valor, sem ter produzido nada. Gera-se assim um tipo de pedágio financeiro que encarece os produtos. 
O caso dos cartões de crédito deixa isto bem claro. Nota de Lucianne Carneiro em O Globo Economia compara o juro médio sobre cartão de crédito no Brasil, de 238% ao ano, com os 16,89%  nos  EUA  e 18,7% no Reino Unido. Não há como explicar uma diferença destas com “mecanismos de mercado”. É agiotagem mesmo. O resultado é uma sangria absurda da capacidade de compra.  Ao fazer todos os que entram neste tipo de crédito pagar muito mais pelos produtos, gera-se um impacto forte sobre os preços finais. E nos dizem tranquilamente que juros altos nos protegem da inflação. O resultado final são dificuldades para o consumidor e para o produtor, e lucros exorbitantes para os intermediários. A ANEFAC apresenta os dados completos, inclusive os 238,30% mencionados acima:
 
A intermediação financeira é necessária, mas quando se usa o oligopólio para fixar juros estratosféricos, o intermediário vira atravessador. Em vez de fomentar, cobra pedágio. Em vez de gerar efeitos multiplicadores, trava a economia, ao punir o produtor e o consumidor. Os grupos internacionais têm vantagens, e buscarão dinheiro no exterior através das suas matrizes, com custos muito menores, inclusive para comprar empresas nacionais. Para o parque produtivo nacional, é desastroso. Abaixo, os juros praticados para pessoas jurídicas, da ordem de 50% ao ano, quando se situam na faixa de 5% ao ano por exemplo nos Estados Unidos ou na Europa.
 
O resultado prático é a fragilidade da economia. A justificativa oficial é que se trata de conter a inflação: na realidade, a partir de um certo nível, a alta taxa de juros, em vez de conter a demanda, apenas aumenta os custos dos produtores, que repassam estes custos para os preços, gerando mais inflação. Quem paga esta inflação, naturalmente, são as famílias que aguardam o reajuste salarial ou da aposentadoria.
O que acontece com o desenvolvimento local? Antigamente – hoje antigamente significa algumas décadas atrás – um gerente de agência conversava com todos os empresários locais, buscando identificar oportunidades de investimento na região, tornando-se um fomentador de desenvolvimento. Hoje, o gerente é remunerado por pontos, em função de quanto consegue extrair. Ontem, era um semeador à procura de terreno fértil. Hoje, é um aspirador que deixa o vazio. O resultado prático, é que inúmeras pequenas iniciativas essenciais para dinamizar o tecido econômico do país deixam de existir. Isto varre do mapa milhões de pequenas iniciativas de acumulação familiar urbana, tipicamente centradas no pequeno negócio, nas chamadas microempresas ou empresas individuais.
Assim, a capacidade de consumo das famílias, essencial para dinamizar as atividades econômicas do país, é esterilizada, pois grande parte da nossa capacidade de compra é transformada em remuneração da intermediação financeira. A família brasileira gasta cerca de 30% da sua renda com dívidas, sendo que este valor é de 35% para famílias mais pobres, e 19% para famílias mais ricas. A apropriação dos recursos por intermediários trava os investimentos, as atividades produtivas, a dinâmica do desenvolvimento local, e o elemento dinamizador tão importante que é o mercado interno.
Assim, enquanto as políticas públicas no Brasil expandem o processo redistributivo e o acesso às políticas sociais, os mecanismos financeiros drenam estes recursos pelo lado da intermediação do consumo e do encarecimento dos investimentos. Entende-se assim melhor as estatísticas que mostram ao mesmo tempo a saída de milhões de famílias da miséria, enquanto a desigualdade permanece pouco alterada.
O impacto da desigualdade sobre as famílias tem duas dimensões. Primeiro, é preciso constatar que o dinheiro só não traz felicidade para quem já tem dinheiro. Inúmeras estatísticas permitem hoje afirmar que mais dinheiro nas mãos de uma família pobre, que passa a poder comprar o remédio e alimentar melhor os filhos, aumenta muito o bem-estar. Por outro lado, estas mesmas pesquisas mostram que a partir de uma renda média, que assegura o básico e um pouco de conforto, o aumento de renda não aumenta o sentimento de bem-estar. Isto é muito importante, pois mostra que quanto mais o dinheiro flui para a parte mais pobre da sociedade, mas se torna útil em termos sociais.
Segundo, o impacto econômico também é interessante. As famílias que já têm muito dinheiro, digamos a classe média alta para cima, não aumentam o seu bem-estar ao adquirir mais dinheiro. Grande parte da correria por mais dinheiro está aqui motivada pela insegurança e pelos efeitos de demonstração. E nas esferas superiores, dos muito ricos, a coisa é mais interessante ainda: a grande massa de recursos financeiros torna-se fonte de poder político, o que desequilibra os processos democráticos, e torna-se também vetor de especulação financeira, o que deforma os processos econômicos.
Antigamente se justificava a concentração de renda dizendo que o pobre consome, enquanto o rico investe. Mas hoje o consumo do pobre ajuda a dinamizar a economia e a gerar melhor qualidade de vida, enquanto a fortuna do rico se transforma em aplicações financeiras (erroneamente chamadas de investimento) e não em investimento produtivo, isto sem falar dos 520 bilhões de dólares desviados para paraísos fiscais.  
 Insistimos aqui nesta dimensão econômico-financeira do processo, pois é importante que as pessoas entendam que a formação de uma ampla classe de intermediários financeiros, atravessadores cartelizados das atividades econômicas reais, tem tudo a ver com o nosso cotidiano, com a angústia de qualquer família com o seu futuro, com o futuro dos seus filhos, com o drama de uma pessoa que se enforcou no cartão ou no cheque especial e que não sabe que a ilegalidade está na própria forma de intermediação. Cartel é crime, está na nossa Constituição, artigos 170 e seguintes. É significativa a obsessão com a qual famílias relativamente pobres se endividam para assegurar à nova geração um diploma universitário, forma indireta de garantir o futuro, na ausência de outras garantias confiáveis. Perder o controle da sua poupança representa, para a família, perder o controle sobre o seu próprio futuro.
Tem imensa importância a reorientação econômica iniciada com o governo Lula, e continuada com o governo Dilma. São 40 milhões de pessoas que saíram da miséria, 19 milhões de empregos formais, expansão de direitos sociais, ampliação das infraestruturas sociais como habitação e saneamento e assim por diante. Dadas a desestruturação da família e a forma de urbanização, as políticas públicas tornam-se vitais para assegurar a ponte entre as gerações e o resgate dos equilíbrios sociais. O Brasil está avançando no rumo certo, mas temos um grande caminho pela frente, ainda estamos entre as 10 nações com maior desigualdade no planeta. Em termos políticos, a mudança não está sendo fácil. Nas palavras do economista francês Delevoye, “é mais fácil privar o pobre do essencial do que privar o rico do supérfluo”. 

Família e trabalho
Nas sociedades tradicionais, havia uma certa continuidade na organização da produção, de uma geração para outra. Na era rural de agricultura familiar, a inserção produtiva ocorria naturalmente, pelo fato de haver coincidência do domicílio e do espaço produtivo. O filho ia gradualmente aprendendo com o pai as fainas agrícolas, organizavam-se diversas formas de divisão de trabalho na família. Em outros termos, e mantendo a nossa visão de que a família constitui um processo de reprodução social, o trabalho representava uma continuidade entre gerações. Esta dimensão não desapareceu. É importante lembrar que o mundo rural representa ainda a metade da população mundial, e que um terço da população mundial ainda cozinha com lenha. Às vezes ficamos tão concentrados na ponta da sociedade, nos executivos apressados e nos toyotismos modernos, que passamos a achar que só existe isto, e esquecemos que o mundo articula de maneira complexa eras e ritmos diferenciados. No Brasil, com 17 milhões de trabalhadores, o mundo rural ainda representa um grande setor empregador.
Mas o mundo do nosso convívio é hoje essencialmente urbano. E nas cidades, são relativamente raros os casos de coincidência entre o espaço residencial e o espaço de trabalho, e cada vez mais a casa é para onde se volta cansado à noite, e de onde saem sonolentos pais e filhos para a labuta diária. Há subúrbios que constituem hoje cidades-dormitório, mas de forma geral as nossas casas viraram casas-dormitório.
Com a esterilização da poupança das famílias, estas ficam com muito pouca iniciativa sobre o seu trabalho. A pessoa não “organiza” as suas atividades, “busca” emprego no espaço anônimo da cidade. Com o aprofundamento da divisão do trabalho na sociedade, há empresas especializadas para cada coisa, e o acesso ao que nos é necessário na vida cotidiana passa a depender de renda. Não nos damos conta, às vezes, de que na vida familiar o bolo se fazia em casa, frequentemente o pão, quando hoje cada vez menos sequer se cozinha em casa. O que perdemos, em grande parte, é o sentimento de que a nossa vida depende de nós, do nosso esforço e gosto de iniciativa. Sentimo-nos empurrados por forças cujos mecanismos nos escapam.
Não é a volta a um passado bucólico que estamos aqui sugerindo. É essencial entender que o espaço da família era um espaço onde se fazia coisas juntos, como era o caso das comunidades. O desaparecimento desta dimensão da organização social gera uma sociedade de indivíduos que rosnam uns para os outros na luta pelo dinheiro, e esquecem que a qualidade de vida é uma construção social. Vencer na vida, da forma como nos apresentam diariamente na televisão, é um processo de guerra contra os outros, e resulta em morarmos num condomínio caro e cercado de guaritas. É o sucesso.
Construir uma sociedade civilizada passa por dinâmicas sociais mais complexas, que até as empresas mais retrógradas estão começando a aprender, na linha da responsabilidade social e ambiental.
De certa forma, este raciocínio nos leva ao fato que o trabalho não é apenas uma tarefa técnica que consiste em produzir o mais rápido possível, o mais possível, buscando o máximo de dinheiro possível. O trabalho deve constituir um elemento essencial da organização do convívio social. A ruptura profunda gerada, entre o universo do trabalho, o universo  comunitário e da família, tende naturalmente a desestruturar esta última. E o trabalho, privado da sua dimensão afetiva de relacionamento, na correria do just-in-time, na malvadeza cientificamente assumida do lean-and-mean (literalmente enxuto e malvado), na patologia de algumas ideologias religiosas que nos ensinam que o sofrimento é virtuoso, gera gradualmente um deserto onde vemos pouco sentido no que fazemos no emprego, a não ser no dinheiro do fim do mês, na compra de mais uma televisão, na troca do sofá.
A sociabilidade no trabalho é insuficiente porque funcional, interessada, presa à hierarquia de quem manda e de quem obedece, eivada de rivalidades, ciúmes, cotoveladas discretas, sorrisos amarelos. A sabedoria popular brasileira, neste caso, é rica: “cuidado com o calo que você pisa, pode pertencer a um saco que amanhã você terá de puxar”.
Não se trata aqui de um olhar sombrio. Pelo contrário, as tecnologias, os avanços científicos, nos permitem hoje resgatar uma outra cultura do trabalho. As barreiras que criamos são rigorosamente artificiais. Porque uma criança vê o seu pai e a sua mãe desaparecerem diariamente para um espaço misterioso chamado “trabalho”, sem nunca ter oportunidade de visitar as suas empresas, de ver o que fazem? É natural a portaria com todas as suas seguranças? É natural o constrangimento com que uma mãe recebe no emprego um telefonema do filho, do marido? Afinal o trabalho deve ser para nós, ou nós para o trabalho?

Repensar os rumos
Muitíssima gente está mudando os seus enfoques no mundo. O executivo que se apresenta com o que temos chamado de “kit-babaca”, com attaché-case, caneta Mont Blanc e cinto Vuitton, e outros apetrechos correspondentes, está sendo gradualmente substituído por gente que se veste à vontade, e busca viver, inclusive no trabalho. Muitas empresas têm hoje salas de sesta, para que o trabalhador possa tomar uma soneca quando precise. A redução do leque hierárquico está na ordem do dia. A qualidade de vida no emprego é amplamente discutida. O filme Beleza Americana, ainda que um pouco forçado, faz parte desta tomada de consciência da forma absurda como estamos sendo organizados para sermos eficientes para a produção, e inúteis para a vida, com a família levada de roldão no processo.
A pressão pela redução da jornada de trabalho, essencial para melhorar a nossa produtividade, e para resgatar o elo temporal entre a vida familiar, a vida profissional e atividades sociais complementares, está gradualmente voltando a constituir uma reivindicação social de peso, como foi a luta pela jornada de 8 horas há décadas atrás. Que vida familiar podemos esperar de quem vive na periferia, levanta às cinco da manhã, volta às oito da noite, e adormece no sofá frente a um programa suficientemente idiota para adormecê-lo? Ter o sábado e o domingo livres é um mínimo para reconstituir os nossos potenciais, reatar os laços.
Em Imperatriz do Maranhão, o meu pai idoso – já nos noventa – era cuidado por uma simpática velhinha de oitenta, que além de cuidar do meu pai aproveitava a horta que os netos montaram para ela, para cultivar cebolinha, salsa, ervas diversas, que ia todo dia vender numa cestinha, pela vizinhança. Cultivava assim não apenas ervas, mas um círculo de amigos. Gerava a sua própria renda, mas cada um na família ajudava. Meu próprio pai deixou o universo empresarial aos 64 anos, instalou-se numa comunidade pobre nas margens do Tocantins, e passou a sua terceira idade, até os 90, prestando serviços paramédicos na região. Nunca o vi mais feliz nesta fase, sentindo que fazia coisa útil, com relações intensas com as pessoas, nesta região onde médico de verdade simplesmente não aparecia. Nem eletricidade tinha.
Imagem do passado? Não necessariamente, pois hoje com as novas tecnologias há amplos espaços de colaboração familiar ou de vizinhança, resgatando novas formas de articulação do trabalho, novas solidariedades. Na realidade, temos pela frente o imenso desafio de adaptar as nossas políticas a uma massa de idosos que, depois de cumprida a sua fase dita de “idade ativa”, ainda têm 20 ou 30 anos de criatividade, interesses, relacionamentos, contribuições e necessidades diferenciadas. Os estudos que surgem sobre a situação da terceira-idade nos grandes centros urbanos apresentam situações simplesmente trágicas. Terceira-idade não é uma sala de espera. O meu pai, junto com a sua vizinha ainda mais velha, criaram os seus espaços, mas a verdade é que no conjunto sequer pensamos na reorganização social que esta extensão da vida exige, particularmente nos grandes centros urbanos. O desafio vai muito além da discussão sobre déficit da previdência.
Na cidade de Lausanne, na Suíça, a prefeita decidiu mudar o tratamento dado ao idoso que vive só: em vez de colocá-lo numa clínica, com enfermeira, papinha e televisão, fez com a ajuda de estudantes universitários uma pesquisa que lhe permitiu identificar vizinhos de cada idoso, dispostos a ajudá-lo. Com um pequeno salário e um pouco de treinamento, organizou na cidade uma rede de solidariedade que lhe permitiu economizar recursos públicos, e melhorar o capital social, o simples gosto de vida das pessoas. Não há dúvida que uma enfermeira especializada, numa clínica bem equipada, saberia ministrar a papinha de maneira mais eficiente (e com custos muito maiores, o que contribui para aumentar o PIB). Mas é disto que se trata? Na Polônia, vimos prédios onde o andar térreo é reservado para pequenos apartamentos onde os idosos podem ficar perto da família que mora nos andares de cima, e ao mesmo tempo guardar certa privacidade. Organizar o convívio social é assim tão complicado?
De certa maneira, trata-se de desarticular um mecanismo perverso, onde o acesso às coisas elementares da vida exige cada vez mais dinheiro, as famílias devem se organizar para maximizar a renda, os filhos já entram na primeira infância na filosofia da competição, pois estão se preparando para a vida, carregando as suas imensas sacolas de material escolar. Perde-se o convívio familiar, a sociabilidade comunitária, gera-se um bando de zumbis eficientes que não param mais para perguntar o mais evidente: estamos todos correndo para onde?
Trata-se, evidentemente, de inverter a equação. Não devemos organizar as nossas vidas para o trabalho, mas organizar o trabalho para que as nossas vidas sejam agradáveis. A economia é um meio, não é um fim.
Utopia? Há uma década, ainda se media os países apenas de acordo com o PIB, na linha das estatísticas do Banco Mundial. Os indicadores de desenvolvimento humano (IDH), a partir de 1990, passaram a comparar também a qualidade de vida, ao acrescentar às comparações dados de saúde e de educação. Com a metodologia Calvert-Henderson, no ano 2000, passou-se a avaliar a eficiência dos Estados Unidos a partir da qualidade de vida dos seus cidadãos, em torno de 12 grupos de indicadores: educação, emprego, energia, meio-ambiente, saúde, direitos humanos, renda, infraestrutura, segurança nacional, segurança pública, lazer e habitação. Hoje temos uma explosão de indicadores, como o FIB (Felicidade Interna Bruta) do Butão, o Happy Planet Index da Inglaterra, economistas de primeira linha como Amartya Sen, Joseph Stiglitz e Jean-Paul Fitoussi estão sistematizando as propostas renovadoras.
Isto nos leva ao conceito de produtividade sistêmica. Um plano de saúde, ao maximizar o ritmo de rotação de pacientes por médico, está gerando um taylorismo social que sem dúvida se demostra muito eficiente em termos da unidade empresarial, visão microeconômica. Esta eficiência é medida em termos de rentabilidade da seguradora ou do banco que controla o conjunto. E o resultado prático, em termos sociais, é uma saúde deficiente, pois o que asseguraria a produtividade sistêmica da saúde seria muito mais a visão preventiva do que o luxo das instalações hospitalares. Em outros termos, quando hoje falamos em responsabilidade social e ambiental das empresas, levamos cada administrador a levantar um pouco os olhos, para além dos muros da empresa, e a pensar simplesmente: isto é útil para a sociedade?
O Instituto Souza Cruz publicou em janeiro 2003 “Marco Social: Educação para Valores”. O Instituto Souza Cruz é mantido pela Souza Cruz, que por sua vez pertence à British American Tobacco, que investe anualmente centenas de milhões dólares em publicidade para convencer jovens a fumar: a população alvo predileta é a de 14 anos, quando o vínculo com a nicotina se torna praticamente assegurado para o resto da vida. A publicação, bastante luxuosa, começa com uma citação de Anísio Teixeira (!) sobre os valores, e a diretora do Instituto, no capítulo “Educação para Valores”, afirma que Flávio de Andrade, presidente da Souza Cruz, “nutria uma grande preocupação com o acesso de crianças e adolescentes menores de 18 anos a cigarro, álcool e drogas ilícitas”.
Quem não ficaria comovido? Além disso, um economista contatado pela empresa nos saberá explicar que a Souza Cruz gera empregos, dinamiza a plantação de fumo, provoca a expansão de clínicas de tratamento de câncer, estimula a venda de produtos para branquear os dentes, patrocina belíssimas corridas de fórmula 1. Houve até um relatório, na república Tcheca, que demostrou que o cigarro, ao acelerar a morte dos idosos, reduzia o déficit da previdência social, e portanto melhorava as contas nacionais. O que não se faz pela economia! Quando o relatório vasou, a empresa pediu desculpas formais, mas não mudou a prática. Estão aumentando o PIB, mas é isto o objetivo?
A visão que queremos aqui esboçar, é que a transformação da família pertence a um conjunto de mudanças mais amplas, e que não se trata apenas de lamentar a sua dissolução: trata-se de repensar o processo de rearticulação do nosso tecido social.
No belíssimo filme Janelas da Alma, Wim Wenders, que já nos deu tantas obras primas de cinema, faz uma afirmação profunda: “Humanity is craving for meaning”, a humanidade anseia pelo sentido das coisas. De certa maneira, o sentido das coisas se resgata numa articulação mais ampla dos diversos universos, do indivíduo, da família, da comunidade, do trabalho, das esferas econômicas, politicas e culturais. Os sentimentos de perda de iniciativa e controle sobre as nossas vidas, de individualismo feroz, de vale-tudo por dinheiro, são tanto mais absurdos quanto o enriquecimento da sociedade permitiria justamente dispormos de mais tempo para a família, de mais convívio social, em clima menos violento.
O nosso sistema sabe aumentar a produção, ou pelo menos sabia, antes do domínio dos gigantes financeiros e da globalização selvagem. Mas a organização social capaz de tornar este aumento de produção socialmente útil depende de dinâmicas capazes não de eliminar, mas de regular de maneira inteligente as dinâmicas de mercado. A vida não se resume a uma corrida desesperada para equilibrar a conta no banco com as contas do shopping. A construção da qualidade de vida – inclusive a sobrevivência da família – constitui um processo de articulação social que não resultará automaticamente dos mecanismos de mercado ou do eventual enriquecimento individual. Um indivíduo pode resolver o seu problema competindo e enriquecendo. Mas a sociedade só os resolve colaborando, gerando mecanismos onde há espaço para todos.

Referenciais individuais e sociais
Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do jovem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição pública, uma organização da sociedade civil. A separação radical entre as fases de estudo e do trabalho, produz uma geração de jovens desorientados, à procura da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do trabalho vistas acima, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem enriquecer-se permanentemente.
Sentir-se inútil numa fase da vida em que o jovem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil parece constituir um favor, alguém “deu” um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que no conjunto, o who you know (quem você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que o what you know (o quê você conhece, as suas competências). O mundo para o jovem passa a ser visto como um universo opaco e fechado, gerando desânimo e passividade, e frequentemente revolta e violência.
Esta tendência tem de ser colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jovens são criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho, o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e o mal, muito pouco sentido de vida.
Um outro universo que contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, ali a criança e o jovem testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade, o peso das rivalidades, construíam os seus espaços de sociabilidade. Hoje, nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar.
Os pais perdidos entram em intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo socialmente desestruturante.
A escola pequena, de bairro, frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da cidade, o coleguinha terá os mesmos videogames, o mesmo “vale tudo por dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do referencial familiar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham?
Os pais ficam indignados: eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica banalizada, eles não vêm sentido nas coisas...O que é que nos fizemos para dar sentida às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entender o nosso sacrifício como útil?
A compreensão de que se matar de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas que poderiam ser agradáveis, ou belas, – filtra gradualmente para dentro das nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e por tanto dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos.
É significativo que em muitos lugares jovens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores – outra classe á procura do sentido do que ensina – estão arregaçando as mangas e começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade na sua cidade: a tecnologia é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania.
Em Valparaíso, vimos uma experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música, eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio meio ambiente, estudam ciências sociais melhorando o ambiente social do bairro. Aqui também, a cidade é deles, e fazer uma coisa útil e prazerosa não é o resultado de um emprego que lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence.
O que isto aponta, na realidade, é a necessidade de evoluirmos de uma visão em que a organização social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, as políticas de desenvolvimento local e em particular do bairro, o resgate das funções sociais do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito mais amplo da noção de que um outro mundo é possível, pertencem todos a um deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em geral.
Como indivíduos, podemos melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes e as soluções são mais amplas.

Sofá, TV e salgadinho
Curiosamente, quando fazemos o que todos fazem, e não nos sentimos felizes, conseguimos nos convencer que os culpados somos nós. Parece que não somos normais. Mas é importante entender que o sentimento de frustração é geral. Manifesta-se neste sentimento difuso de perda de controle sobre a nossa realidade, sobre o que queremos fazer, sobre o mundo que nos cerca. O trabalho não é sofrimento: batalhar o futuro, fazer coisas que dão certo, ainda que com mil dificuldades, brincar com os amigos, tudo isto é essencial para o nosso senso de equilíbrio.
O que isto sugere de maneira ampla, é que as dinâmicas econômicas atuais geram simultaneamente mais produtos para elites, e menos sentimento de realização individual. O que nos venderam como visão de mundo, é que a felicidade consiste em ter em torno de nós apenas o esposo ou esposa, e os filhinhos, todos em idade simpática, um apartamento de dois quartos, sala, sofá e televisão. As opções de vida são relativas à cor do sofá, ao modelo da geladeira.
É importante ver a dupla face deste problema. Primeiro, todos devem ter o direito a ter os dois quartos, a saúde, a comida na mesa. Inclusive, assegurar o necessário a todos é uma condição preliminar para que possamos viver a vida em paz. Já dizia Marat na revolução francesa: “nada será legitimamente teu, enquanto a outrem faltar o necessário”. Este objetivo consiste sem dúvida num ideal social maior pelo qual temos de batalhar. Estamos felizmente evoluindo, com os inúmeros programas de renda mínima já funcionando em muitos países, para o enfrentamento sistemático e organizado das situações críticas, e o Brasil tem avançado de maneira positiva.
Mas este “necessário” não é suficiente. Quando temos os dois quartos e o sofá, a primeira coisa que queremos fazer é sair, é fazer alguma coisa. E este fazer alguma coisa envolve outras pessoas, convívio, festas, brincadeiras, esporte, coisas que nos façam sentir vivos. A sociedade atomizada em microunidades, que descartou os idosos para o asilo, os deficientes mentais para o manicômio, os revoltados para a cadeia, os pobres para a periferia, é uma sociedade desintegrada que parou de assumir a construção dos seus próprios espaços sociais, apenas administra privilégios.
Entender o desafio da pobreza, - coisa que devemos fazer sistematicamente – pode ser mais fácil do que entender a desarticulação social e o mal estar que se generaliza. Este sistema leva, de um lado, a uma privação de grande parte da população mundial dos bens essenciais para uma sobrevivência com um mínimo de dignidade, e por outro lado, gera um perfil de produção e formas de organização socioeconômica que não trazem respostas aos que saíram desta privação. Quando vemos as cidades-dormitórios, os bairros sem uma praça ou áreas de sociabilidade, lazer e convívio, os rios ou riachos transformados em esgotos, os condomínios fechados com as suas cercas eletrificadas, arames farpados e guardas privados, temos de ir além do problema da injustiça da concentração de renda e de riqueza, de se privar os pobres do essencial: a própria lógica é absurda.
Hoje as grandes empreiteiras de São Paulo, por exemplo, formam um pacto corrupto com políticos, e levam à construção de uma cidade inteiramente organizada em função do automóvel, chegando, entre túneis e elevados, a formar vários andares de vias, enquanto lutam contra qualquer uso público do espaço urbano, considerado “desperdício”. Um rio limpo não gera contratos, enquanto um rio poluído gera imensos contratos de despoluição, de desassoreamento, de canalização. A lógica das habitações é criar o máximo de construções para pequenas famílias, desarticulando o convívio entre gerações. De certa maneira, a capacidade técnica e gerencial das empresas evoluiu, mas a redução dos objetivos ao lucro imediato torna estes avanços socialmente pouco úteis. Isto porque a empresa não pensa no convívio social e nas infraestruturas correspondentes, mas na capacidade de compra individual do cliente.
Vender o “ninho“ amoroso dá lucro. No entanto, parece que o comportamento amoroso se retrai. É viável uma mulher sentir um grande ardor sexual por seu simpático barrigudo de chinelo e camiseta, sentados anos seguidos no mesmo sofá, vendo as mesmas bobagens da TV? Trancar um casal num casulo é uma ideia romântica para vender como publicidade, e permite vender muitos apartamentos, mas é mortal para o convívio matrimonial.
Estamos aqui no limite do quanto um economista pode responsavelmente penetrar em áreas alheias, ainda que faça parte da tradição do economista poder dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. O que aqui tentamos delinear, é o fato das dinâmicas econômicas poderem ter um imenso impacto sobre a vida pessoal, a felicidade do casal, o nosso interesse amoroso.
Não é a família que está doente: é o processo de reprodução social e econômico que se tornou absurdo, levando à erosão da família.
O programa americano de TV “Sixty Minutes” levou ao ar uma reportagem sobre o fast-food, a indústria do hambúrguer. Estas empresas pesquisaram e concluíram que a excitação das papilas gustativas na criança está centrada no açúcar, na gordura e no sal. Assim, temos o refrigerante que acompanha o hambúrguer e as batatas fritas. Até aí, tudo bem. Mas as grandes redes como Burger King, Mcdonalds e outros estão fazendo gigantescas campanhas de televisão para fazer as crianças preferir este tipo de comida, e constituem hoje as maiores redes de distribuição de brinquedos e outros brindes para estimular este consumo. Hoje, a grande ofensiva é para se instalar o fast-food nas escolas, banindo as nutricionistas. Tentar oferecer frutas, legumes e outras comidas tradicionais ao lado deste tipo de estabelecimento, não é fácil.
O resultado prático é que hoje, entre hambúrguer e salgadinho, a obesidade atinge 30% dos jovens norte-americanos. Não é difícil imaginar o que é a vida de uma menina que, com 13 anos é obesa. Ou o que esta vida será. O programa entrevistou o dono de uma grande empresa de publicidade de fast-food, que visa público infantil, e inclusive utiliza crianças na geração da publicidade: perguntado se não achava covardia empurrar este tipo de comida para crianças que precisam de alimentação variada para crescer normalmente, o dono da empresa, um psicólogo, corrigiu: “nos não empurramos produtos, nos informamos as crianças para que possam fazer uma escolha responsável”.
No conjunto, isto significa que somos empurrados sim a nos comportar de acordo com as necessidades das empresas, com os interesses econômicos, em vez das atividades econômicas responderem ás nossas necessidades.
Não é à toa que os gastos mundiais com publicidade atingem somas astronômicas, hoje da ordem de um trilhão de dólares. As empresas gastam este dinheiro, porque a publicidade funciona. Não porque somos bobos, mas porque somos influenciáveis, provavelmente uma das características mais ricas do ser humano, porque vinculada à sensibilidade.
É patético as pessoas caminharem solitárias sobre uma esteira, que tiveram que comprar, e que depois de uma semana fica parada num canto, porque já não há mais espaço para jogar bola na vizinhança. Qual o sentido de pedalar numa bicicleta montada na garagem quando poderíamos utilizar bicicletas de verdade, para passear, através de ciclovias e organização do trânsito? Fabricamos tanta coisa inútil, geramos tanto desperdício, com um ritmo de trabalho que nos esfola e nos priva da simples alegria de viver.

Há lugar para vida inteligente
 Havia um tempo em que os brados pela mudança vinham das esquerdas. Hoje, um prêmio Nobel de economia como Stiglitz, que foi economista chefe do Banco Mundial, diz que o sistema como está não pode continuar. Hazel Henderson, uma das economistas mais importantes, diz que a competição não serve mais como regulador geral da economia, e desenvolve a visão do win-win, literalmente ganha-ganha, mostrando que  se pode desenvolver um sistema onde todos ganham. David Korten, que denuncia o absurdo gerado pelos interesses das empresas transnacionais, não vem de movimentos de contestação, vem dos programas americanos de ajuda ao desenvolvimento, e elaborou uma das críticas mais bem estruturadas da forma de organização econômica que hoje prevalece. J. K. Galbraith aponta para uma “sociedade justa”. Peter Drucker, o antigo guru da administração empresarial, hoje dirige uma organização não-governamental e busca os rumos da “sociedade pós-capitalista”. E faz uma constatação óbvia mas poderosa: “Não haverá empresas saudáveis numa sociedade doente”.
A lista é muito grande. As pessoas que conhecem as dinâmicas do sistema, porque ajudaram a montá-lo, hoje tendem a tomar um pouco de recuo, buscam o sentido das coisas. O sentido é relativamente claro: a economia deve servir-nos, para que tenhamos uma vida com qualidade, e não constituir um mecanismo complexo acessível apenas aos espertalhões, que termina por nos jogar em conflitos entre ricos e pobres, por gerar dramas ambientais, criando angústia e insegurança.
Esta mudança passa por uma alteração de formas de organização social. Em particular, temos de organizar nas nossas cidades por meio de sistemas descentralizados e participativos de decisão, pois sem isto continuaremos vítimas dos intermediários financeiros, incorporadoras, imobiliárias, empreiteiras e outros especuladores urbanos. Não se trata aqui apenas do fato que é um processo corrupto: é um processo corrupto que organiza a sociedade de forma pouco inteligente.
Não basta reorganizar o nosso espaço urbano, para que seja user-friendly como dizem hoje os informáticos. Temos de reorganizar o tempo, principal recurso não renovável de que dispomos para viver de maneira agradável e inteligente. Reduzir a jornada para 6 horas já seria um bom passo, abrindo possibilidades para o convívio, o lazer, a cultura, a família, e com isto dinamizando um consumo mais rico e mais inteligente nas áreas de cultura, lazer, esporte e turismo.
Temos também de aprender a nos organizar. A máquina do Estado e o mundo empresarial são insuficientes, simplesmente porque ambos devem servir à sociedade, e uma sociedade não organizada não tem como impor as suas prioridades. As ONGs, as organizações de base comunitária, as associações dos mais diversos tipos precisam desempenhar um papel chave, e tornar-se parte do cotidiano de cada um de nós.
Temos de democratizar a informação. A descentralização das formas de comunicação, com rádios comunitárias, emissoras locais de TV, constitui um elemento essencial de criação de um vínculo local, de promoção cultura, de integração dos diversos grupos e atores, de divulgação de iniciativas. A principal novela é a nossa própria vida, e vale a pena.
Temos de criar mecanismos que nos permitam resgatar o controle das nossas poupanças. Há inúmeros exemplos de bom funcionamento de formas inovadoras, que vão desde as formas socialmente responsáveis de aplicações financeiras desenvolvidas nos Estados Unidos, até os placements éthiques (aplicações éticas) na França, o crédito solidário no Brasil, o microcrédito de Bangladesh, ou as caixas de poupança locais na Alemanha que hoje gerem mais de 60% de todas as poupanças da população, aplicando os recursos na própria comunidade que os gera. Os bancos trabalham com o nosso dinheiro, e devemos aprender a fazer valer o nosso direito em assegurar que as nossas poupanças sejam utilizadas em iniciativas socialmente úteis, e não em especulação.
E temos, obviamente, de fechar o imenso fosso social que o processo capitalista está gerando, entre ricos e pobres. Não haverá paz social, não haverá tranquilidade nas ruas, não haverá convívio enriquecedor nas comunidades enquanto dezenas de milhões de pessoas continuarem numa miséria dramática e revoltante.
E a família? A família tem justamente de ajudar na reconstrução deste entorno econômico, social, urbanístico, trabalhista, cultural que a viabilize. Não bastam discursos ideológicos de que a família é o esteio da sociedade. É preciso viabilizá-la, e com isto viabilizar a própria sociedade desnorteada que criamos.

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