A misaristeria

Fonte original: Agência Adital - Notícias da América Latina e Caribe

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=80559&grv=N

Um sentimento estranho tem crescido ultimamente entre pessoas dos setores médios da população. Trata-se do ódio a tudo que se relaciona às reivindicações de direitos (materiais e subjetivos), às propostas alternativas de organização socioeconômica, às lutas contra preconceitos de diversas ordens e às análises críticas que se contrapõem às opiniões hegemônicas (principalmente as veiculadas pela mídia coorporativa). Tal sentimento tem alcançado também uma parte das pessoas das camadas populares, por reflexo da formação de opinião difusa – que opera por meios que vão desde as conversas de botequim às postagens em redes sociais – e por ressonância nos meios de comunicação de massa.

Como a luta por direitos e contra os preconceitos, a proposição de alternativas socioeconômicas fora da lógica capitalista e a análise crítica são atividades relacionadas tradicionalmente a setores que se situam politicamente "à esquerda” no universo da luta política e ideológica, tomei a liberdade de criar um neologismo para designar esse sentimento: "misaristeria” (do grego misos = ódio + aristera = esquerda).

Os misarísteros ativos são pessoas geralmente raivosas, refratárias ao diálogo racional e emocionalmente reativas. Seu discurso é carregado de adjetivos negativos para se referir ao campo contra o qual luta, mas muito pobre em argumentos que possam tornar suas opiniões racionalmente convincentes. Não raro deslizam de um tema a outro sem se preocupar com qualquer relação inferencial entre os argumentos; fazem vínculos incongruentes entre uma proposição emitida por um de seus adversários e outra não dita e com a qual não há relação necessária de sentido; refutam um interlocutor por coisas que foram proferidas ou praticadas por outros que não necessariamente compartilham da mesma opinião.

Isso ocorre por não discernirem as diferenças reais existentes no mundo concreto da luta política e as distintas concepções presentes na complexidade da vida social. Sua chave de leitura do mundo é maniqueísta e quem não está do lado que eles julgam "do bem” (o lado deles) forma um bloco unitário de pensamento e ação que representa, em bloco, o "mal” a ser combatido.

Os misarísteros militantes são pessoas muito ativas no plano discursivo e simbólico. Seu campo de batalha são as redes sociais, colunas em revistas e jornais e comentários de TV. São guerreiros de palavras e aparentam ter de si mesmos uma compreensão missionária, iluminista e salvífica. Investem-se da missão heroica de trazer a verdade aos ignorantes que estão vulneráveis à influência esquerdista, a fim de salvar o país dos perigos que representam os avanços de tudo aquilo que pensam ser ideias de esquerda, mesmo aquelas que não se identificam, necessariamente, com um campo político-ideológico e são reivindicações pura e simples de direitos humanos, vida digna e liberdade.

Além do campo discursivo, não costumam manifestar-se de maneira organizada, em atos de rua ou movimentos, a não ser em alguns casos raros. No plano da ação, clamam pela intervenção de alguma força maior que os auxiliem na concretização do que pregam no discurso. Essa força pode ser o poder de Deus, das Forças Armadas ou de grupos paramilitares; ou todos juntos.

O berço e o foco da misaristeria têm origem e fundamento ideológicos. São produtos de concepções fascistas e autoritárias, muitas vezes mesclada com um fanatismo religioso reacionário. Mas o alastramento desse sentimento possui outras razões além da convicção ideológica ou religiosa. A misaristeria em forma de fascismo, nazismo ou fanatismo religioso é mais fácil de identificar e é geralmente repelida quando aparece sob esta roupagem. Sua atual difusão, no entanto, e a maneira como tem atingido outros setores da população se dá sob o disfarce da "maior informação”, da indignação com a corrupção, criminalidade, com a situação de atraso do país, etc.

As causas da fácil difusão da misaristeria não são difíceis de entender. Espinosa, em sua Ética, define o ódio como "a tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior”. Para ele, o bem se define como "todo o gênero de alegria e tudo o que, além disso, a ela conduz, e principalmente tudo o que satisfaz ao desejo” e o mal é "todo o gênero de tristeza e principalmente o que frustra o desejo”. Quando se identifica uma causa exterior para a alegria e a realização dos desejos, essa causa será objeto de nosso amor. Quando, ao contrário, se identifica uma causa para a tristeza e a frustração dos desejos, ou seja, para o que Espinosa define como o mal, esta será objeto de nosso ódio.

A sensação de tristeza e de frustração dos desejos é um elemento presente em nossa sociedade, pois vivemos em um mundo organizado de forma a impedir a nossa realização plena como pessoa humana. Como esse sentimento é comum a grande parte da população, embora os motivos sejam diferentes, tem-se, pela tristeza e frustração dos desejos, a sensação generalizada de que o mal se alastrou pelo país. O ódio surge quando se identifica a causa externa dessa disposição interior. Aparecendo, portanto, uma causa para o mal, o ódio se voltará automaticamente para ela.

Décadas de propaganda ideológica anticomunista durante a Guerra Fria, seguida de mais décadas de informações distorcidas sobre os movimentos sociais e de oligopólio das grandes empresas de comunicação na emissão de notícias e opiniões sobre política, economia e sociedade, prepararam o terreno para que a causa de todos os males fosse identificada com tudo que reza fora da cartilha liberal e com todas as proposições de relações que modifiquem as concepções tradicionais de sociedade, família e propriedade.

A lógica é a mesma do desenho O Rei Leão, da Walt Disney: há uma ordem socionatural que define hierarquias e papéis que não pode ser alterada e que se perpetua a cada vez que as próximas gerações a sustentam (o filme começa com o nascimento do herdeiro dessa ordem); no mundo, há aqueles que são naturalmente refratários a submeterem-se a essa ordem, por indolência e incapacidade natural (as hienas); por pura inveja, maldade e desejo de poder, pessoas de má índole e de origem distinta da dos excluídos da ordem (representadas no filme pelo leão Scar) usam os que não se enquadram no sistema para subvertê-lo e tomar o poder; o resultado é a destruição da sociedade e o reinado do mal, só derrotado quando a ordem é retomada pelo filho do rei (Simba); a perpetuação da ordem socionatural (ou social naturalizada) é representada no nascimento de mais um herdeiro do trono ao final do filme, quando a ordem se reestabelece.

Assim, a causa do mal (a causa externa da tristeza interior que leva ao ódio) não está em um ordenamento social e nos que se beneficiam dele, mas em tudo aquilo que se desvia dessa ordem. A causa externa da tristeza passa a não ser, por exemplo, a miséria e a fome, mas qualquer programa compensatório que procure minimizá-las; não a estrutura agrária injusta, mas os movimentos sociais rurais e os sem-terra; não a exclusão urbana e o déficit habitacional, mas os que se organizam e agem para solucioná-lo; não o golpe militar, mas os que lutavam por reformas; não a ditadura, mas os grupos que a combateram; não o racismo, mas os negros que lutam por igualdade; não o machismo, mas as mulheres que exigem direitos e tratamento digno; não o abismo econômico e a exclusão social que levam à marginalidade e favorecem o crime, mas os moradores de rua, os criminosos pobres e os que defendem seus direitos; não a política imperial e intervencionista dos EUA, mas os líderes nacionais que ousaram desafiá-la; não o capitalismo em declínio, cujas crises têm aumentado a pobreza e a exclusão, mas os que defendem a possibilidade de um sistema alternativo à sua decadência; e assim por diante. É dessa maneira que a insatisfação e a tristeza se tornam ódio na forma de misaristeria. E o ódio se tem transformado em ação sob diversas formas.

Desse modo, preservam-se da revolta da população os líderes políticos das nações hegemônicas, os bilionários que assaltam as finanças e o Estado, os empresários que exploram e sonegam, os latifundiários que impedem a distribuição mais justa da terra (dentre os quais se encontram aqueles que se utilizam de trabalho escravo), os que enriqueceram ainda mais com a farra das privatizações, os corruptos de todos os partidos e os corruptores do meio empresarial, os grandes responsáveis pelo tráfico de drogas que não estão nas favelas e periferias, etc. Esses se tornam invulneráveis ao ódio da população quando se alastra a misaristeria, pois a causa externa passa a ser identificada com "a esquerda” e com todos aqueles cujos direitos ela defende (presos, bandidos pobres, miseráveis, sem-teto, sem-terra, negros, mulheres, índios, etc.), porque são eles que colocam a ordem em risco.

O grande problema de hoje é que a misaristeria se tem propagado não sob a forma de fascismo e fanatismo político e religioso explícito, mas sob o disfarce de uma "politização” cidadã neutra, de resultado de um "maior acesso à informação”, de um "despertar para a política”, etc. É a bala com entorpecente, o invólucro colorido que disfarça o veneno. Sob essa forma mais branda, ideias fascistas e autoritárias e elementos do fanatismo político e religioso são propagados pelos meios de comunicação, muitas vezes defendidos por pessoas jovens que se destacaram no estudo escolar, sem nenhuma experiência de vida social e política e autoiludidas com a confusão que muitos fazem entre habilidade literária – mesmo que questionável no caso de colunistas e comentaristas da mídia – com inteligência e sabedoria.

O reforço atual que a mídia corporativa tem dado à misaristeria em parte é por convicção, mas tem como principal razão a disputa eleitoral para a Presidência da República. Como o PT, historicamente, foi identificado com a esquerda (embora não tenha feito um governo que concretizasse as principais bandeiras da esquerda) e como os misarísteros não fazem distinção de quem é quem (para eles todos de esquerda são "petistas”), o alastramento da misaristeria seria uma arma contra o partido nas próximas eleições. (Seria interessante mencionar aqui como o PT deu combustível a isso e se tornou, de certa maneira, cúmplice desse fenômeno, mas o artigo se alongaria demais).

No entanto, a criação de um sentimento perigoso na população tem consequências além da eleitoral e deve ser pensada em seus resultados mais abrangentes. A misaristeria é a antessala do fascismo, do nazismo e de várias formas de ditadura e regimes autoritários. A irresponsabilidade dos grandes meios de comunicação, restritos à lógica da disputa eleitoral que assimila toda sua ética, pode criar uma população tão crédula em líderes salvadores, moralistas e ditatoriais como ocorreu na Alemanha na década de 1930. É um sério risco a ser combatido.

[Maurício Abdalla é professor do Departamento de Filosofia da UFES.]

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