OPOSIÇÃO SIM, GOLPE NÃO!

    Em 2005, quando o Governo Lula ainda contava com certa complacência da mídia, quando o PSOL estava apenas se formando com dissidentes do PT e quando muitas correntes que hoje estão no PSOL ainda engrossavam as fileiras petistas, escrevi um artigo para uma revista católica (publicado no início de 2006) dizendo: “é difícil ver alguma diferença substancial entre o atual governo e os governos anteriores que justifique a esperança nele depositada (...). Não estou me referindo à tradicional esperança que o povo sempre teve em todo novo governo, mas à esperança fundamentada, de caráter quase místico, dos militantes (...) e da sociedade civil organizada”.[1]

Minha ênfase estava na esperança inflacionada de uma revolução quase socialista a partir da ascensão de Lula ao poder, coisa de que eu já duvidada desde 1997 (ano em que deixei a militância partidária), quando percebi que a opção praticamente exclusiva pela disputa eleitoral estava conduzindo o partido à adaptação às regras do jogo eleitoral e governamental e afastando-o dos movimentos sociais e de suas propostas estruturais. Optou por entrar no jogo sem mudar as regras, ou seja, adaptando-se ao pragmatismo político que caracteriza o processo eleitoral e a governança tradicional. Por isso, pus-me na oposição naturalmente, como quem diz “não é exatamente isso que eu quero”, pois os projetos dos movimentos sociais estavam além dos limites das opções partidárias ou das exigências da governabilidade.

O governo do PT entrou com muita vontade de atacar problemas sociais e melhorar a vida dos mais pobres. Em parte conseguiu, pois a aprovação expressiva por parte das classes mais baixas, mesmo com a oposição dos meios de comunicação, e a aclamação nas urnas não podem ser desconsideradas na análise. Alguns investimentos foram, de fato, fundamentais, e não se pode condenar o governo em bloco, pois houve avanços em diversas áreas. Os indicadores sociais nacionais e da ONU e as notícias da imprensa internacional são inequívocos. O Brasil avançou na área social. Em termos geopolíticos e geoeconômicos, a importância do atual governo para os países periféricos, principalmente na nova conjuntura da América Latina, é estratégica. Por isso o Brasil é visto como um fenômeno pela imprensa internacional e um aliado importante de governos de esquerda como os de Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia, etc.

Isso parece contradizer o que escrevi em 2005. Mas não se trata de contradição e, sim, da alternância do balançar do pêndulo. Quando todos aclamavam o governo, com uma tímida oposição de esquerda e uma oposição de direita ainda sem rumo, achei por bem acentuar o lado ruim. Hoje, quando parece que todos os que têm voz estão na oposição, é fundamental marcar diferenças com os governos anteriores nos aspectos positivos. Isso não me fez mudar de posição.

O problema dos governos do PT foi ter virado as costas para seu próprio programa e para a histórica luta que o levou ao poder. Esqueceu os movimentos sociais e suas reivindicações radicais para abraçar um programa liberal-social e desenvolvimentista. Também se preocupou demais em manter-se no poder e com a governabilidade fácil, mesmo que para isso tivesse que dar a mão ao diabo. Não chegou a dá-la ao próprio, mas deu-a para uns que bem pareciam ser seus emissários.

Ao abraçar um programa que visava o crescimento econômico, aliou-se à elite empresarial e, para evitar crises e fuga de capitais, prestou reverência ao capital especulativo e atendeu muitas de suas exigências de maneira subserviente. Para manter-se no poder, quis fazer cara de bom moço para a mídia, toda controlada por famílias extremamente conservadoras e representante de uma elite que lhe faria oposição de qualquer maneira, mesmo por uma simples palavra errada dita pelo presidente, como se isso fosse questão de segurança nacional. Rendeu-se a suas críticas, tentou agradá-la, recuou em sua agenda sempre que uma revista, jornal ou canal de televisão diziam que não a tolerariam. Nunca teve coragem de enfrentar a mídia corporativa, pois queria sair bem na foto e não despencar nas pesquisas nas eleições.

Acabou fazendo um governo para as elites com benefícios aos mais pobres e investimentos pontuais que beneficiavam setores esquecidos nos governos anteriores. Para ficar no poder, pagou o preço aos que sempre o detiveram, como quem estivesse pagando pedágio para ocupar um espaço que não é seu. O PT quis fazer parte de um clube que nunca o aceitou e que, mesmo que pagasse a maior mensalidade, lhe daria, no máximo e com repugnância, o direito de ficar algum tempo, para depois ceder lugar aos verdadeiros e fiéis sócios, o PSDB e o DEM.

Antes mesmo de vencer o prazo que o clube lhe havia concedido para ocupar um lugar privilegiado, o PT viu seus sonhos abalados com as denúncias do mensalão. As elites, mesmo beneficiadas com o governo, acharam uma bandeira para acelerar a expulsão dos “novos ricos com hábitos de pobres” que andavam manchando a imagem elitista de seu clube high society. Ao mesmo tempo, a oposição de esquerda cresceu. Não podemos negar que muitos petistas que já sabiam dos rumos que o partido estava tomando há muitos anos só resolveram abandonar o barco quando aquilo que viam e achavam normal passou a sair nos jornais e na TV. As fileiras do PSOL, que nasceu de uma insatisfação real e programática e cresceu com militantes que realmente pensavam diferente (embora unidos mais pela negativa do que pela proposição), foram engrossadas por ex-petistas tardios que preferiram abandonar o barco apenas quando a água atingiu o convés, mesmo tendo conhecimento do furo no casco há muito tempo.

O Governo do PT ficou na seguinte situação. Uma aprovação massiva dos desorganizados e dos mais pobres que não têm voz na mídia e nem instituições sociais fortes capazes de gerar movimento e apoio político além do eleitoral. Na esquerda e nos movimentos sociais radicais, uma desaprovação generalizada e, minoritariamente, uma aprovação envergonhada que não se manifesta. À direita, uma oposição suja, raivosa, sem nenhum escrúpulo para usar toda sorte de métodos para voltar ao poder, mostrando suas garras golpistas com o apoio das empresas de comunicação. Pelas elites não organizadas, é visto com um nojo despolitizado, pois para elas o governante é apenas um chefe de estado de colônia, que tem que ser bonito, subserviente à metrópole e pródigo em gastos que lhes interessam – já que elas não dependem de nenhum serviço social que o Estado possa oferecer.

Restou ao governo petista o apoio fisiológico do PMDB, sempre disposto a pular do barco tão logo dê sinais de abalo e com um apetite voraz e inesgotável de cargos e verbas. O PMDB é o partido da fome eterna e da ingratidão. É seu amigo por ter recebido de você o almoço, mas se torna o maior dos inimigos se não lhe der a janta. Esquece o almoço fácil. Além dele, o governo também pode servir-se dos partidos mercenários que formam a base governista de qualquer governo, desde que paguem. Mediante recompensa, seriam apoiadores de George W. Bush ou Bin Laden. Estarão sempre a serviço de quem pagar mais e podem voltar-se até contra quem o contratou se o inimigo prometer mais.

Esse drama em que vive o governo petista foi escrito em grande parte pelas suas próprias opções. Mas a maioria do povo ainda o tem aprovado. Nem os movimentos sociais radicais, nem os partidos de esquerda e nem os partidos de direita aliados às empresas de comunicação conseguiram criar uma alternativa eleitoralmente viável para o governo do PT. Fazem oposição, mas não conseguiram alterar o cenário.

Mas é aí que entra a marca diferencial entre uma oposição programática e vinculada a projetos de movimentos sociais e uma oposição golpista que só respeita as regras da democracia quando é beneficiada. Os movimentos sociais e partidos de esquerda fazem suas lutas nas ruas, no campo, nas mobilizações, tentando denunciar as medidas governamentais que os prejudicam, buscando implementar propostas e pressionar os governos eleitos a atender suas reivindicações. E, nas eleições, lançam candidatos mesmo sem esperança de serem eleitos. Quando gritam “fora” ao presidente, é no sentido do desabafo, de um “fora” político e não institucional. Mesmo com todos os problemas do governo FHC, com as privatizações fraudulentas e as medidas de “austeridade” que congelava salários e reduzia investimentos sociais, não se ouviam pedidos de impeachment sérios. O caso de Collor foi uma exceção possibilitada pelos fatos e pelas denuncias comprovadas de envolvimento direto com corrupção que degeneravam a própria institucionalidade.

As elites raivosas, os partidos de direita e as corporações da mídia agem diferente. Não aceitam as regras, já protagonizaram golpes de estado e sempre dão mostras de que estão prontas a aceitar outros, sustentaram e defenderam ditaduras aqui e em outros países. Distorcem a realidade, fraudam informações, liberam boatos, usam argumentos falaciosos e não têm escrúpulos em defender até ideias e movimentos contraditórios às suas concepções quando isso pode render-lhes dividendos políticos.

Eis que os novos eventos ocorridos no país colocaram as duas oposições lado a lado nas ruas. Os que sempre tiveram as ruas como palco de suas ações viram-se ombreados com os que sempre temeram e reprimiram as ações de rua. As manifestações de jovens insatisfeitos com a vida em todos os seus aspectos, canalizadas no aumento da passagem e posteriormente ampliadas para uma pauta mais ampla, ainda que confusa, foram engrossadas por aqueles que estavam esperando um fato político para decolar rumo às eleições de 2014. Ao ver o tamanho do evento que ajudaram a produzir com o apoio repentino e inusitado da mídia, sentiram-se até encorajados a não ter que esperar o próximo ano.

A insatisfação generalizada com governos de todos os três níveis da Federação e com os três poderes da República, tem-se canalizado exclusivamente para o Governo Federal e sua chefe, Dilma Rousseff, por meio da manipulação da informação e da carona que a direita está pegando na mobilização da sociedade. Estão criando claramente um clima de golpe, talvez encorajados pelo sucesso desse tipo de ação em Honduras e no Paraguai.

À oposição de esquerda e aos movimentos sociais cabe uma tarefa histórica e difícil. Histórica porque é o momento de mostrarem exatamente que tipo de oposição fazem e quais são suas diferenças com as críticas da direita, pois, no afã de contestar as mudanças de rumo do PT e do governo e de marcar posição contrária, a esquerda ficou, muitas vezes, bastante próxima da pauta do PSDB e do DEM. É hora de levantar bem alto as bandeiras de mudanças estruturais que não foram encampadas pelo governo petista e de demonstrar que sua posição não está vinculada a um projeto eleitoral de curto prazo. Mais ainda, neste momento de confusão e atenção, os setores críticos e organizados da sociedade precisam também deixar claro que não embarcam em propostas golpistas, que defendem as instituições (mesmo que sejam contra quem as gere temporariamente), que respeitam as regras do jogo, ainda que as queiram mudar. Por isso, seria prudente dizer, se assim o quiserem, que são contra o governo, mas o querem até o final. A história mostrou o que representa, para as organizações e a sociedade civil, a ruptura com a institucionalidade.

A tarefa é também difícil porque cria dois campos de batalha. Um contra o atual governo e outra contra inimigos do atual governo. Perder-se nesse fogo cruzado é bem fácil. Por isso a necessidade do bom senso e da prudência. A dificuldade é também de ordem psicológica, pois muitos da esquerda ainda estão com uma espécie de síndrome de ex-marido (ou ex-mulher) traído: não consegue mais ver nada de bom na ex-consorte e é incapaz de ser racional em qualquer avaliação sobre ela. Defender a permanência do governo ao qual faz oposição é proposta que pode dar nó em muitas cabeças. É mais tentador dizer que o problema é do governo e do PT, e seguir com as lutas. Porém, o “dane-se” político, neste momento específico, dana a todos nós. Principalmente quando os inimigos de nossos inimigos são também nossos inimigos mais fortes. É difícil superar certos rancores, mas a política exige a capacidade de domar a subjetividade em nome dos processos coletivos e objetivados.

Assim, é preciso dizer, por todos os meios disponíveis e com a firmeza de quem sabe que a luta política não é uma mera disputa de posição inconsequente, mas a delineação do destino de toda a sociedade: oposição, sim, golpe, não!

 

 

[1] ABDALLA, Maurício. O reino de Deus e o poder político. Vida Pastoral, n. 246, Jan-Fev, 2006. Disponível em http://vidapastoral.com.br/o-reino-de-deus-e-o-poder-politico.html.

 

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