Carta Aberta ao Senador Cristovam Buarque

Autor: 

Vossa Excelência,



Senador Cristovam Buarque



Quereria eu tratar por vossa magnificência. Bucólicos tempos aqueles. Salvo embalo que “o tempo só anda de ida” – reclamou Manoel de Barros. Minha mãe certa vez exclamou, “nossa, ele [eu] lembra de tudo!” Eu nunca gostei muito da escola, quer dizer, ir a escola sempre foi “ir na escola”. Pela dinâmica e fluxo de pessoas que ali estão. Mas o “ir à escola” para ter aula, em uma sala que parece grade, com algum mandão e autoritário, nunca me foi de agrado. Vem ai minha dificuldade com as regras da Gramática. Muito embora o tempo tenha me ensinado que existe gente “analfabeta” que conhece todas as regras gramaticais. Foi justamente na sexta série, que me vem à memória, a primeira aula marcante de minha curta existência, de vida. A professora colocou a turma para leitura, e eu fui à biblioteca e encontrei um livro seu. O livro contava a história [econômica] do Brasil. Fiquei encantado, e passei a admirar e acompanhar sua trajetória política. Quantas vezes você me emocionou? Quantas vezes eu passei a ver o mundo com nova ótica com seus argumentos? Confesso que em 2002 não tirei o titulo de eleitor, poderia votar, mas não me simpatizei com nenhum candidato a ponto de fazer este gasto energético. Em 2006, é, portanto a primeira vez que fui às urnas, e votei em você. Achava incrível o seu discurso em defesa da educação. (Um discurso “inocente, puro e besta”, sem conchavos tampouco de apego eleitoral as grandes massas, ou melhor, sem “marqueteiro” ou chances reais de vitória). Tenho que admitir sua contribuição para universalizar este sentimento, este valor: a necessidade de escola de qualidade a todas as nossas crianças, em cada rincão dessa imensa “ninguendade” tupiniquim. Fiquei bastante emocionado em um discurso no Senado Federal, quando você disse que deveríamos ouvir os poetas. Que os poetas tem o dom de sentir o mundo e interpretar as mudanças/transformações que vem ocorrendo. (Eu rabisco uns poemas, muito embora esteja distante de um “poeta” no sentido stricto da palavra e o peso dessa pena). Há pouco tempo aprendi que paixão vem de passional, e que quando se está apaixonado a gente age contra a “razão”. Cristovam, mesmo sendo admirador de você e sua trajetória política e pública e conhecedor de seus governos e projetos desenvolvidos, e este pensamento que muita vezes o “aproxima” de um “estadista” – no sentido puro e original da palavra. Você, Cristovam, não que seja perfeito, pois somos seres imperfeitos e apaixonados. Às vezes metade loucura. Mas você está se tornando miúdo, pequeno. A suas justificativas para contra o partido de sua origem são minimamente medíocres, beijando o ridículo. E que, sejamos sinceros, só cola nos milhares de analfabetos funcionais (diplomados, inclusive!) espalhados por este país de dimensão de continente. Você está se transformando em uma espécie de FHC piorado, daqueles “espertalhões” que conhecedor do baixo nível do público, pode descer e beijar o chão que continuarão aplaudindo. Eu não! Lendo um livro de entrevista com FHC, em dado momento ele se exalta, e diz. “Falam que sou neoliberal? Eu não, eu sou da educação popular”. (O que FHC fez pela educação popular? Deu alguma alma grátis em alguma favela?). Uma tentativa invalida e frustrada de colar em Paulo Freira. E vã. O nosso único público, o único que vale a pena viver, é ao lado de nosso povo e de nossa coerência/consciência. “Nossas vidas valem pelas causas que vivemos”. “Minhas causas valem mais do que minha vida”. (Pedro Casaldáliga). Um estadista é aquele que sonha com o Amanhã (que será; que pode ser – como disse Darcy no velório de Glauco), que mesmo sendo chacota sustenta até a última gota suas utopias. Ou, como FHC, você também irá pra lata de lixo da historia e o esquecimento. O senhor, Cristovam, perdeu se. A paixão é coisa que cega. Numa derradeira tentativa de ressuscitar o meu (anti)herói na política, fui ler atento o seu livro: “Uma Nova Esquerda”. (Esperança é coisa viva dentro da gente. Fervilhando!). Lá encontrei um homem que se perdeu em um passado distante e “remoto”. A esquerda que você julga conhecer deve ter ficado lá nos anos 1970. Tudo que você propõe lá esta efervescendo e pujante na vitalidade de nossa juventude de esquerda: sonhadora, criativa e alegre. Aquelas recomendações podem servir aos teus “esquerdistas” rabugentos e gagas, que ficaram enfileirados em seus escritórios, resmungando que o mundo não é centrado e controlado por eles, “esperando a morte chegar”. Ao mundo Novo, não. A nossa Juventude Nova de Esquerda é linda, e tem uma característica interessante, não aceita “lideres” centralizadores, autoritários e mandões. A gente “escapole” deles. Deixa a ver navios. Está é a Esquerda Nova que está em ruas, praças, escolas, nas periferias, no campo e na cidade. Eis outro grande risco, Senador, ao ficar preso na burocracia de legislativo a gente perde o contato com o povo e esquece. Se despede de nossa essência, do âmago que nos move. Do fio que nos conduz. Você se burocratizou em si, e hoje é incapaz de acompanhar a dinâmica líquida de um Brasil que o senhor não vivenciou/experimentou nas ruas e praças. Entretanto, como dizia o poeta Raul Seixas, “nunca é tarde de mais para começar tudo de novo”. Você ainda tem uma chance de descer, ressuscitar, refugiar e escapulir da lata de lixo da história. Ressuscitar quem? O Senador Cristovam somente existe e é ouvido, pois existem na base pessoas que o defendem, seja nos debates em corredores de escolas e universidades, seja nas rodas em mesa de bar, pelas ruas e praças e nas redes virtuais. Os senhor não é a última e única “estrela” boa do pacote. Somente ganham vida as tuas palavras, porque existem “zé ninguéns”, loucos e sonhadores como eu, carregando e defendendo aos nossas bandeiras. Nossas? Mas defender quem? A bibliografia de quem? Senador, ao votar a favor do impedimento da Presidenta, com as razões que vossa excelência expõe, “pelo melhor para o Brasil”, “contra corrupção”, não cola. O teu público é melhor um pouquinho que você imagina. Sejamos sinceros e honestos, assim como estou tentando ser com você agora. É recalque seu, ou melhor, paixão. Vou até mesmo ousar, pelo respeito e admiração, expressar um conselho: meu amigo Cristovam, volte ao passado e resolva se com ele; ou ele [o passado] vai lhe esmagar como um rolo compressor. O melhor para o Brasil e sua jovem democracia é o respeito ao voto popular, o respeito à decisão soberana do povo, o sufrágio universal do voto. (E sejamos sinceros, um fato engraçado, instigante e intrigante, a Presidenta não faz/fez esforço para voltar. Será quanto é fedida a lama ai em Brasília? O senhor não se meteu em se lambuzar nela? Nesta lama). Infelizmente não posso defender vossa pessoa de agora em diante. Estou triste. Existe um vazio fúnebre em meu peito, vazio que não será preenchido. Você me roubou, enganou. Acho que é tudo uma grande Mentira. Estadistas não existem e nunca existiram. (Existirão?). Homens são apenas reflexos em espelhos de recalques, escondidos atrás de sombras de discursos morais. “Etiquetas sem função alguma”. Eu pensei que você morreria para mim. Mas ao ler o Livro descobri que está é doente. Como diz Sartre, no Conto do filósofo e o general, “será que tem cura?”.



 

Iberê Martí, Poeta


Brasil, 15 de Agosto de 2016

Nenhum voto

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.