Guerra e Paz

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No final do Século XIX o capitalismo mundial passou por um grande rearranjo, que provocou crises e profundas mudanças, pois “a guerra é produto da paz”. Foi neste período que ocorreu a fusão das indústrias (advindas da Revolução Industrial), com os bancos (que se fortaleceram ao longo do Século XIX), formando o que ficou conhecido como Capital Financeiro. Capital este que ultrapassa os limites geopolíticos estabelecidos, os estados nacionais, e que migra de acordo com seus interesses e/ou lucros. Essa fusão cria as grandes corporações multinacionais, grandes monopólios supranacionais – com poder político e econômico superior a grande maioria dos estados nacionais -, e com caraterísticas imperialistas. Esses grandes conglomerados necessitam de novos mercados, e precisam, portanto interferir nos monopólios nacionais, nas oligarquias nacionais, causando novas correlações de forças entre diferentes atores e interesses envolvidos. O que provoca grandes conflitos internos e tem como consequência a barbárie, criando rupturas e oportunidades. Além da consequência estrema: as guerras mundiais. 

 

No entanto, é necessário esclarecer que a “força” (em escala) com que essas rupturas ocorrem depende do grau civilizatório e organização dos respectivos estados nacionais, ou seja, como é a estrutura econômica, política, social destes países em determinada época. No Brasil, foco desta análise, um projeto de desenvolvimento nacional, feito por Dom Pedro II e apoiado por pessoas como Joaquim Nabuco, propõe o fim da escravidão, construção de logística interna através de ferrovias, financiadas por banco público e desenvolvida internamente, através de universidades, que gerariam inovações e alimentaria o mercado interno, via a reforma agrária que daria poder aquisitivo e mercado consumidor [interno]. Este projeto foi interrompido em 1889, com a proclamação da republica. Emergindo a republica café com leite. 

 

A republica café com leite é sustentada politicamente principalmente pelas aristocracias rurais, descontentes com a Lei Aurea. (Fim da escravidão). Esta plataforma política paralisou o Brasil literalmente até a Revolução de 1930. As principais políticas publicas da republica café com leite, vem através do acordo da dívida externa de 1898,conhecida como Funding loan, que se caracteriza por: aumento de impostos; paralisação de obras públicas; e abandono da ideia de incentivo à indústria nacional. Em suma, postergar a dívida, enfraquecendo os bancos nacionais e fortalecendo os bancos internacionais. (Qualquer semelhança com 2016, e a PEC dos Tetos de Gastos é mera coincidência, afinal, a “história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Nas palavras de um senador da republica, “fomos sequestrados, temos que pagar o resgate”). 

 

Neste período – entre a proclamação da republica em 1889 ate a revolução de 1930 – toda a tecnologia veio de fora, como exemplo as linhas de trens, adquirida da Inglaterra, que além de ser tecnologia obsoleta para a época, até mesmo o tamanho da bitola mudava entre Brasil e Argentina, garantindo a impossibilidade de uma integração da América Latina e Central. Podemos resumir este período como, 41 anos de paralisia ao desenvolvimento brasileiro. O rearranjo impôs ao Brasil um projeto de extrema dependência, e baseado apenas na exportação de matéria prima barata. Sem nenhuma estratégia a médio e longo prazo, como exemplo construção de escola, universidades, ciência, tecnologia e inovação. Nem mesmo uma tímida industrialização foi alvo de esforço político. Este período também é caracterizado pela “falsa alternância e/ou disputa”, com o conhecido “Coronelismo, enxada e voto”. É um período de coação e de compras de votos, onde o Brasil é governado por uma plutocracia, os coronéis do café e do leite, de Minas Gerais e de São Paulo. Garantido paz aos interesses imperialistas internacionais e as oligarquias nacionais, e guerra ao projeto de desenvolvimento nacional. 

Eis que a crise estrutural do sistema capitalista mundial de 2008 – as bolhas imobiliárias, dólar regulado a petróleo, etc. -, consequência do “neoliberalismo” que se consolida na década de 1980, e que se arrasta até os dias de hoje, 2016. Pois vejam que temos novamente um processo semelhante ao do final do Século XIX e meados do Século XX. E novamente um governo que vinha promovendo [um tímido] projeto de desenvolvimento nacional é vitima de um golpe de estado. 

 

Os fatos que evidenciam a mesma gênese dos que proclamaram a republica e dos que promoveram o processo de impeachment, se evidenciam além do slogan escolhido: “ordem e progresso”. (Que remete a o Positivismo de Comte). Evidencia-se no congelamento do investimento com educação e saúde (Funding loan?); na extinção do ministério de ciência, tecnologia e inovação; na doação de áreas estratégicas para o Brasil ao capital internacional; na retirada de direitos trabalhistas e terceirização de atividades fim; na repressão a manifestações; na consolidação de um verdadeiro estado de exceção. O ataque aos direitos dos trabalhadores brasileiros é reforçado com garantias e benefícios as “elites” e oligarquias, com perdão de dívidas (de grandes latifundiários, empresários da comunicação, entre outros); repatriação de capital oriundo de evasão de divisas; aumentos generosos a alguns setores específicos de interesse a manutenção do status quo; entre outras. Medidas e políticas estas que tendem a manter/consolidar, ou mesmo aprofundar, as desigualdades e a miséria em que sobrevive a grande maioria da sociedade brasileira. Ou seja, “o Brasil vai bem, mas seu povo vai mal”. (Qualquer semelhança a republica café com leite é apenas mera semelhança. Paz aos banqueiros, especuladores, latifundiários endividados, etc., guerra ao povo trabalhador e o seu futuro). 

 

Mas em um mundo globalizado, tanto os períodos de acessão como de retração econômica é em escalas mundial. Assim como as tendências, como exemplo o ultraneoliberalismo e o ultranacionalismo. O interessante é observar as mesmas características do período do café com leite, como exemplo, o rearranjo do capitalismo e a busca por novos mercados. No período atual, década de 2010, ocorre uma investida internacional ao setor de serviços, historicamente dominado por oligopólios nacionais, e caracterizados pelo alto valor e baixa qualidade de serviços. 

 

O que representa a formação de novas multinacionais em busca de novos mercados, representados como exemplo, pelo Uber (rede mundial de transporte individual urbano), Ibis (rede de hotéis), entre outros. Assim como as políticas de congelamento em saúde, educação e previdência tem a nítida intenção de precarizar serviços e provocar assim a privatização dos mesmos em médio prazo. Se tivéssemos um governo forte e um estado com “alma de estado”, as pressões internacionais, por exemplo aos oligopólios dos taxis, seriam canalizadas para melhorias efetivas nos servidões prestados e na distribuição de riquezas entre maior número de famílias. Seria o momento apropriado para enfrentar os monopólios nacionais, e promover uma redistribuição das linhas, reorganizando através de cooperativas de taxistas, promovendo justiça social. E poderíamos inclusive criar um aplicativo, simples e barato e nacional, como apresenta “a grande inovação da multinacional imperialista”. Pois o taxista atual e o motorista do Uber, ambos, tem uma característica em comum: a [super] exploração do trabalhador. Portanto, o rearranjo nesta crise, assim como a do final do Século XIX, se apresenta como barbárie, mas também pode vir tornar oportunidade. Com criatividade e imaginação, nada é impossível. 

 

 

Mas a conjuntura atual não é favorável, o certo é que as oligarquias rurais mantiveram o controle do poder e da economia do Brasil ao longo destes séculos, consolidando o país como um império agroalimentar, baseado na exportação de commodities, que hoje representa 25 % do PIB nacional. Nas épocas de acessão econômica em escala mundial não foi aproveitada para construção de um projeto de Nação. Ou por omissão, ou por falta de visão, ou por timidez/comodidade. Por estes “pecados” nos mantém como um povo “(pre)destinado” alimentar o mundo, desde que importe toda a tecnologia utilizada para plantio, manejo, colheita, armazenamento e transporte. Em toda essa cadeia produtiva importamos tecnologia. Um exemplo simples, se houve uma estratégia de desenvolvimento nacional, poderia reservar um pouco do capital dos commodities, para impulsionar uma indústria nacional de trens, afinal a logística é um dos fatores preponderantes no custo de produção e a solução é a ferrovia. 

 

No entanto, nosso destino foi escrito nas estrelas: “alimentar o mundo”; enquanto os nossos mal tem o que comer, e são diariamente atacados pela violência no campo ou na cidade, pela falta de uma escola e de uma saúde de qualidade. E talvez, quem sabe, um dia se aposentar. Com muito positivismo de Comte, “ordem” a qualquer preço, “progresso” a custa do trabalhador, “amor” aos banqueiros e especuladores e ao imperialismo. Paz ao capital especulativo, guerra ao trabalhador. Fato que estamos novamente reféns de uma política muito semelhante a do Século passado, que foi batizada de republica café com leite, que durou longos 41 anos, e que agora poderíamos denominar de soja com carne, que durará?

 

Em um mundo em que nunca sabemos “Por Quem os Sinos Dobram”: Guerra e Paz! 

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