Na Casa da Democracia

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Desde a infância Aberlado aprendeu as coisas duras da vida. Por que vida é linha reta. Palavra é pedra; não é água. E bigode corta mais que fio de navalha. Aberlado aprendeu com seus calos a respeitar Lei e Palavra. Foi assim que Aberlado respeitando a Lei de Deus se casou na igreja; e respeitando a Lei do Homem registrou em cartório. Aberlado casou com Margarida Aparecida, e teve seis crias, cinco delas sobreviveram, sendo quatro mulheres e dois homens. Maria, Ana (natimorta), João, Claudio, Daina e Flavia, em ordem cronológica decrescente, respectivamente.

Abelardo é professor de direito, na faculdade de Humanos Direitos na Grend Metropilé University. Professor de direito constitucional, com mestrado em Democracia no Estado Democrático de Direito, doutorado em Direito na Democracia no Estado Democrático e pós-doutorado em Direito na Democracia do Direito no Estado. Estudioso, recebeu de medalhas, Abelardo sempre prática, além de grande conhecedor das leis de seu tempo, a democracia. Gosta de repetir, antes de uma dose e outra de whisky escocês, “democracia começa é em casa”.

Na sua casa. João é que seria o primogênito, mas Abelardo detestava as leis romanas, e conferiu o direito a Maria. O que causa alguns entreveros. Afinal, Abelardo decidiu que dos cinco filhos/filhas, cada um teria uma profissão de respeito na sociedade. Um médico, um advogado, um engenheiro, um político, e o último ficará para titio/titia, pra cuidar dos pais no período da melhor idade. (Abelardo morre de medo de ser internado em asilo, ou passar o resto dos dias sozinho). Escolhida as profissões, Abelardo fez uma eleição democrática para que cada filha/filho tenha o direito de escolher, via meritocracia, qual a sua profissão.

Abelardo fez um cursinho preparatório com introdução geral a cada profissão, para realizar uma prova objetiva, de múltipla escolha, que classifica os melhores a escolher a sua profissão. Mas questionado, quanto à imparcialidade desta prova, devido os talentos de escrita e concentração de Daina, Aberlado (sempre justo e democrático), conferiu o peso de 35 % a esta [prova], e criou uma segunda e terceira etapa. Na segunda etapa, cada qual defendeu de forma oral em apresentações criativas, uma profissão que não escolheu, e foi avaliado(a) por um júri paritário e independente, com o peso de 40 %. Na terceira etapa, os candidatos se avaliaram, de forma secreta, com peso de 25 %.

E assim, foi definido o “destino” de cada cria de Aberlado democraticamente. Na Casa da Democracia, Abelardo foi exemplo a ser seguido. Tudo, desde as decisões mais simples, como exemplo, qual a marca de café, açúcar, arroz, ao cardápio de domingo, a local de viagem de férias, tudo, sem nenhuma exceção é decidido democraticamente. Com processo que cabem ampla defesa, e replica, treplica e o escambau. Existem votações para coisas ridículas, como o local da televisão e do sofá na sala.

Os filhos/filhas cresceram, e com suas respectivas profissões, continuaram a manter as praticas democrática. Tudo definido horizontalmente. Abelardo recebe o dinheiro de todos, recolhe e assim acumula o capital fruto do trabalho coletivo dos filhos/filhas da Casa da Democracia. E com as informações privilegiadas que tem, escolhe quais escolhas serão votadas. Isso mesmo amigos, democracia para Abelardo é direito a votar. Simples assim. E Abelardo não abre mão da democracia que ele aprendeu e defende como lei inexorável, divina e dos homens.

Flavia, a mais jovem, questionou certa vez o Pai, pois queria ter acesso às informações, é que queria ter o direito de escolher em quais escolhas iria votar. Abelardo ficou furioso. Convocou o Supremo Tribunal da Casa. Apresentou uma representação contra Flavia. Os irmãos concordaram com Abelardo. Abelardo controla os meios de comunicação, e assegurou que sua defesa seria depois da de Flavia. Construindo assim sua narrativa nas falhas dos argumentos de Flavia. Convenceu o júri e suas alegações foram unanimidade.

E Flavia descobriu que a justiça naquela Casa também não é democrática. Quem escolheu o Abelardo Juiz? Quem escolheu Abelardo delegado? Existe democracia sem democratizar o capital? Existe democracia sem democratizar os passivos ambientais? Existe democracia sem democratizar o acesso e uso aos recursos naturais? Existe democracia sem democratizar a informação e os meios de comunicação? Existe democracia sem igualdade de oportunidades [a escola e universidade de qualidade]? Existe democracia sem o livre direito de ir e vir? Existe? Democracia exige ruptura. Radicalidade. Criticidade. É preciso democratizar a economia, o social, o ambiental e o cultural – disse Flavia em um discurso fervoroso e inflamado.

 

Flavia foi expulsa de Casa. O exilio é seu refugio, onde mantém e cultiva suas Heresias!

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