O Neoliberalismo no Samba

Comentário meu: Olha a Riotur querendo acabar de vez com as Escolas do Grupo de Acesso no Rio de janeiro. Lamentável a gestão do nosso Prefeito Eduardo Paes.

 

Esta semana tivemos o sorteio do desfile de 2012 das escolas pertencentes à Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Aescrj). Hoje esta entidade responde pelas agremiações dos grupos C, D e E do carnaval carioca - respectivamente o quarto, o quinto e o sexto grupos do carnaval carioca.

Entretanto, a ordem assignada nem é a questão mais importante nesta situação - embora tenhamos futuramente um post com todos os grupos. Mas sim uma medida que eu chamaria de implantação do "neoliberalismo" no samba carioca: as mudanças na regra do rebaixamento destinadas a estabelecer um fechamento compulsório de agremiações até 2014. Isso mesmo, caro leitor: nada menos que dezoito agremiações serão forçadas a fechar suas portas de forma compulsória nos próximos três anos - ou virar bloco, o que na prática acaba dando no mesmo.

Explicando ao leitor que não vive o dia a dia: decidiu-se, sob determinação anterior da Riotur (o órgão que deveria fiscalizar e regulamentar o carnaval, mas que na prática somente se envolve onde não deveria) que somente poderiam haver sessenta escolas de samba no Rio de Janeiro, em todos os grupos. Para o leitor ter uma idéia, até o ano passado eram 75 e hoje são 72.

A plenária da última segunda feira decidiu que nos Grupos de Acesso D e E (quinto e sexto, respectivamente) serão rebaixadas seis escolas por ano até 2014, com ascenso de uma agremiação somente em cada um destes desfiles. As escolas "rebaixadas" do último grupo tem duas opções: filiar-se à Federação dos Blocos de Enredo (onde a campeã ganha o direito de virar escola de samba e desfilar no Acesso E) ou simplesmente fechar.

Vale lembrar que blocos de enredo e escolas de samba são duas manifestações totalmente diferentes, com formações diferentes e estruturas diferentes. Blocos não são "mini-escolas de samba". E não é exagero imaginar que todas as escolas do atual Acesso E estão fadadas à extinção, ainda que sobrevivam ao corte no primeiro ano.

O argumento é que com menos agremiações o dinheiro referente à subvenção do Estado pode ser dividido por menos escolas e assim "melhorar o espetáculo". Vale lembrar que a exposição destes grupos, que desfilam na Intendente Magalhães, é mínima, então não há possibilidade de patrocínios, parcerias de vulto ou coisas semelhantes. A realidade é completamente diferente do Grupo Especial e mesmo dos Acessos A e B: escola endinheirada nestes grupos da Intendente é escola de "patrono" - normalmente com fonte de recursos de origem ilegal.

Evidente que nestas escolas há dirigentes que simplesmente pegam a subvenção e somem com o dinheiro, sem apresentar algo digno na avenida. Mas estes são minoria. As escolas destes grupos são bravas representantes de comunidades, que lutam com dificuldades devido à pouca verba e que expressam uma população que, várias vezes, somente tem o samba como forma de se reunir e se integrar.

Vale lembrar, também, que hoje temos agremiações que representam parcela importante da história etnográfica das escolas de samba, como a Unidos de Lucas, a União de Vaz Lobo e a Unidos do Jacarezinho, por exemplo. Além de escolas tradicionais como o Arrastão de Cascadura, o Acadêmicos do Engenho da Rainha e a Lins Imperial - ou ainda a Acadêmicos do Dendê, onde ganhei três vezes a disputa de samba enredo. Todas estas correm risco de serem "varridas do mapa", sem terem sua memória e sua história preservadas em nome de um pretenso "melhor espetáculo".

Na prática, o que se pretende é repetir nestes grupos a visão mercantilista hoje vista no Grupo Especial: o que importa é o espetáculo visual, com alegorias e fantasias como prioridade e tendo como foco o turista. O importante é o luxo e a riqueza, e somente os "mais aptos" sobreviverão. A decadência do gênero "samba enredo" tem muito a ver com isso também - embora não seja a única causa. Repete-se no samba o que vimos na economia na década de 90 e assistimos na sociedade hoje: o prelado dos mais fortes, a competitividade extrema, os recursos financeiros como um fim em si próprio.

Ao invés de se preservarem as tradições culturais e disponibilizarem melhores condições estruturais para as escolas decide-se que vinte e duas delas (em 2011 quatro já foram cortadas) simplesmente terão de fechar. E quem discordar que se queixe ao Bispo.

O leitor deveria conhecer um barracão de uma destas escolas. Normalmente são espaços improvisados e insalubres, onde o risco de um acidente sério e de danos à saúde é onipresente. Aliás, isto não é problema apenas destas escolas menores: mesmo as escolas do Acesso A, a segunda divisão do samba, sofrem com este aspecto - ainda mais agora onde nem o péssimo espaço que era ocupado (acima) foi retomado na justiça pela Cia. Docas. Fala-se em uma "Cidade do Samba do Acesso", em Benfica, mas ainda está no caminho das promessas.

As agremiações cariocas deveriam ser vistas, primordialmente, como o que são: uma manifestação cultural legítima da cidade. Profissionalizar a gestão é bom, mas sem a visão "neoliberal" de que o mais forte predomine, sem concentração de recursos em poucas escolas, sem visões anomalamente "empresariais" da questão. Nosso carnaval tem muitos problemas de estrutura, e não vai ser um "facão" despropositado e imposto que irá resolver estas questões - ao contrário, tende a piorar ao tornar ainda mais evidentes as mazelas.

No fundo, é reflexo do caráter cada vez mais autoritário que o carnaval carioca, em termos de escolas, vem adotando. Quem está nos grupos de cima só pensa em si e no que pode auferir de vantagens dentro desta visão mercantilista. O samba de enredo, a bateria, a expressão cultural são "passado" na visão de quem dirige a festa. Como dizia o falecido presidente da Viradouro José Carlos Monassa, "a raiz da escola é minha grana". É uma síntese perfeita do quadro.

Por isso que faço o apelo: salvem a cultura das escolas de samba! Salvem as escolas do Acesso!

Ainda há tempo.

Abaixo, o leitor pode ver a ordem de desfile destes grupos para 2012. Grave bem os nomes que apresento.

Grupo C (Domingo de Carnaval) 19 de fevereiro

1 - Independente de São João de Meriti
2 - Rosas de Ouro
3 - Lins Imperial
4 - Unidos da Ponte
5 - Império da Praça Seca
6 - Unidos de Vila Kennedy
7 - Arrastão de Cascadura
8 - Favo de Acari
9 - Unidos da Villa Rica
10- Em Cima da Hora
11 - Acadêmicos da Abolição
12 - Acadêmicos do Sossego
13 - Boi da Ilha do Governador
14 Unidos do Jacarezinho
15 - Unidos do Cabuçu

Grupo D (Segunda-feira) 20 de fevereiro

1 - Flor da Mina do Andaraí
2 - Unidos de Cosmos
3 - Vizinha Faladeira
4 - Acadêmicos do Engenho da Rainha
5 - Unidos do Anil
6 - Mocidade Unida de Jacarepaguá
7 - Unidos de Lucas
8 - Leão de Nova Iguaçu
9 - Acadêmicos de Vigário Geral
10 - Unidos de Manguinhos
11 - Gato de Bonsucesso
12 - Corações Unidos do Amarelinho
13 - Acadêmicos do Dendê

Grupo E (Terça-feira) 21 de fevereiro

1 - Canários das Laranjeiras
2 - Unidos do Cabral
3 - Boca de Siri
4 - Mocidade Independente de Inhaúma
5 - Paraíso da Alvorada
6 - União de Vaz Lobo
7- Matriz de São João de Meriti
8 - Chatuba de Mesquita
9 - Mocidade Unida do Santa Marta
10 - Delírio da Zona Oeste
11- Arame de Ricardo
12 - Imperial de Nova Iguaçu

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