PT: a hora da verdade

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Escrevo este texto baseado em dois artigos recentes publicados na Carta Maior, o primeiro de Tarso Genro, publicado em 23/12 - "Alfred Döblin faz lembrar nosso glorioso PT e outros tantos anos novos", e o segundo publicado por Saul Leblon, em 31/12 - "A hora do PT: um ano novo digno desse nome". Aos dois artigos, acrescento a polêmica gerada pela recente rejeição da presidenta Dilma Russef ao projeto de regulação da mídia.


O crescimento do Instituto Millenium e outras ONGs de direita mostra que a oposição não está resumida somente à incompetência demonstrada pelos antigos representantes que atuam hoje na política. Existem cabeças pensantes por trás de um movimento, organizado em torno de ideias, com estrutura e recursos para disseminá-las conforme evidenciado no post de Alex Solnik - "Vanguarda popular: a direita sai do armário (com roupas de esquerda)".


Apesar de discordar dos princípios neoliberais expressos por eles, tenho que admitir que estejam se organizando da forma correta e democrática, e que com a ajuda sempre presente dos grupos de mídia tradicionais, tem uma boa chance de conseguir convencer uma boa parcela da população, principalmente com a maquiagem de “modernidade” utilizada. O crescimento da classe média no Brasil é um terreno fecundo para essa disseminação, pois tendem a agarrar-se fortemente ao novo status conseguido com grande esforço. Dai a abraçar ideias conservadoras em nome da manutenção desse status é só um pequeno passo.


O mundo hoje, e principalmente os partidos e organizações ditos à esquerda estão sem rumo: com a queda do bloco soviético foi anunciado o fim do socialismo, tirando sua grande força e reduzindo imensamente sua atuação. Porém com a crise atual do capitalismo, ficou evidente que os dois modelos estavam superados, e não atendem mais às necessidades sempre crescentes da humanidade. Surgiram então dois modelos distintos: o Brasileiro, partindo do capitalismo e acrescentando a pauta social e de intervenção moderada do estado no mercado, e o Chinês, que partiu do caminho oposto, introduzindo de forma controlada o mercado em uma economia completamente fechada e controlada pelo governo. Os dois tem em comum a visão da distribuição de renda como fator de geração de riqueza e catalisação do crescimento. Provavelmente os dois modelos, que podemos dizer em movimentos opostos: um da direita para a esquerda e outro da esquerda para a direita, vão encontra-se em algum ponto no meio do caminho, mas ainda não temos ideia de que ponto será esse.


O PT tem o grande mérito de ter iniciado este caminho, mas até agora o fez com muito pouco discernimento. O ex-presidente Lula mostrou-se muito mais inteligente que todos os intelectuais, tanto à esquerda quanto à direita, mas fez com que o Brasil trilhasse o caminho correto até aqui mais por instinto do que por ideologia. Se o instinto é o suficiente para iniciar um movimento desse tipo, não é para mantê-lo por muito tempo. Como uma bola de neve que desce a montanha, começar a descida é relativamente fácil, mas mantê-la no caminho correto depois que toma vulto, exige recursos consistentes e planejamento prévio, o que não é possível sem conhecer exatamente o caminho que se deseja trilhar e onde se pretende chegar.


Então voltando aos textos citados acima, fiz algumas sugestões de ações para a renovação do PT, visando o enfrentamento da direita no plano das ideias, que vão de encontro também ao texto do Saul:



  • Criar e estimular institutos similares ao Instituto Millenium, para divulgar ideias progressistas e mostrar as falácias do modelo liberal, favorecendo o enfrentamento no campo das ideias, e não no campo político. Essa ação é de suma importância principalmente no campo empresarial, mostrando que os únicos grandes beneficiários do modelo liberal são os grandes grupos financeiros, desfavorecendo todas as outras áreas de negócios. Neste sentido, a Fundação Perseu Abramo pode ser fundamental na criação de um arcabouço teórico que possa guiar as ações do governo e da sociedade. Porém isso precisa ser feito abandonando ideias ultrapassadas e abraçando um modelo realmente novo, que vá de encontro as necessidade atuais da sociedade.

  • Outra ferramenta fundamental nesse sentido são as “Caravanas da Cidadania”. Foi nelas que Lula formou suas convicções e entendeu as reais necessidade e aspirações do povo Brasileiro. Mais uma vez ele sai na frente e mostra que sua inteligência política é muito maior do que a da oposição, que fala em renovação de forma endógena, achando que sozinhos vão conseguir definir os rumos da sociedade.

  • Profissionalizar a gestão de seus candidatos. Concordo com o Saul em que o novo é o Haddad fazendo uma boa administração em São Paulo. Mas não dá para ficar aguardando o surgimento espontâneo de líderes carismáticos e com talento gerencial para administrar uma cidade, estado ou o país. Ficar sentado esperando aparecer outro Lula não vai funcionar, ou pelo menos vai demorar mais do que o tempo disponível. É claro que carisma e inteligência não se aprendem na escola, mas administração sim. Então é importante que um partido político tenha uma estrutura que permita que um candidato de origem simples, mas com boa penetração popular, seja formado e tenha uma assessoria profissional para exercer atividades inerentes ao cargo ao qual está se candidatando.

  • Além de profissionalizar a gestão, também é importante que sigam a ideologia defendida e divulgada pelo partido, para que funcionem como um só corpo, resgatando o partido como uma organização baseada em ideias comuns, e não em um aglomerado de pessoas com interesses pessoais. O retorno dos gestores eleitos pelo partido sobre a aplicação das teorias também é fundamental, e seria o motor que permitiria a depuração das ideias, já incorporando a experiência adquirida pela aplicação prática.

  • Pensar em uma forma de controle da concentração da mídia (nos moldes da Argentina) seria bom, mas acho que teriam um impacto político muito grande nesse momento. Não sei se a motivação da presidenta Dilma foi exatamente essa, ou se simplesmente cedeu à pressão da base aliada, mas concordo que nesse momento criaria um alvoroço desnecessário e prejudicial a todos. Temos que lembrar que a principal motivação da mídia tradicional é financeira (apesar de sabermos que a ideológica também existe), então ao invés de tentar aprovar uma lei difícil, para a qual o partido teria que fazer negociações e concessões complexas, é muito mais inteligente começar a estimular a melhor distribuição das verbas de propaganda, reduzindo as parcelas das empresas tradicionais e orientando as verbas para empresas pequenas, regionais e alternativas. Dessa forma, o poder das empresas tradicionais seria paulatinamente reduzido, sem a necessidade de aprovar novas leis, sem que eles possam declarar-se censurados, e estimulando o crescimento de novos veículos, aumentando assim a pluralidade de ideias. Mesmo com a força da mídia, o partido conseguiu chegar ao poder, e governar durante mais de dez anos. Então acho que aguardar um pouco mais para fazer a regulação da mídia é a melhor estratégia, com a certeza de que apesar da pressão, essa regulação vai acabar saindo, e será muito mais fácil com a diminuição no poder financeiro dos grupos tradicionais.

Apesar de sabermos que o julgamento do chamado “Mensalão” foi fortemente político, não podemos ignorar que o partido agiu como governo, da mesma forma que a oposição. Talvez essa atuação tenha sido em parte causada pela falta de filosofias e padrões que permitissem o discernimento do que era aceitável. Então a ação mais importante neste momento é a renovação teórica, e a construção de planos de médio e longo prazo para nortear a atuação do partido.


O tempo é de esquecer a briga entre esquerda e direita, e olhar por cima do muro para entender o que existe de bom no capitalismo e no socialismo, e adaptá-los as necessidades atuais. E esse é um dos pontos fortes do capitalismo: exige que as empresas sejam geridas com competência e flexibilidade para adaptar-se e evoluir de acordo com as necessidades do mercado. Uma sociedade é como um ser vivo, que cresce e se modifica a cada instante, e sentar-se sobre um ideário ultrapassado, não vai ajudar em nada, para nenhum dos lados. Parece que parte da oposição já percebeu isso, e começou a se movimentar. Falta o PT perceber, e entrar também na dança.

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