Agroecologia barra escassez em comunidade

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Agricultores desenvolvem sistemas agroflorestais com impactos positivos no abastecimento de água. Antes do processo de recuperação do terreno, nascente local abastecia duas famílias, com escassez e disputa pela água. Hoje, o manancial atende sete famílias.

O aumento da disponibilidade de água se deu a partir de técnicas que melhoraram a infiltração da água das chuvas no terreno e da preservação da água da microbacia, dentro da propriedade do agricultor Paulo Amaral, onde o estudo foi realizado.

Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) analisaram os impactos da agroecologia em fazendas do município de Araponga, na Zona da Mata de Minas Gerais. O local compõe a zona de amortecimento do Parque Estadual de Serra do Brigadeiro (PESB), considerado um dos maiores remanescentes da Mata Atlântica.

O trabalho de recuperação foi iniciado há 19 anos. “Os agricultores mais velhos relatam que havia muita água, mas depois que a floresta foi derrubada para criação de gado, houve pisoteio das nascentes e estas foram secando”, colocam os autores do estudo.

Com o tempo, a nascente localizada no terreno de Paulo Amaral foi subindo e a cerca teve que ser mudada de lugar por seis vezes. O plantio de árvores próximas ao rio foi essencial no processo. Quando a família chegou ao local, existiam apenas quatro exemplares de árvores: dois angicos, uma garapa e uma piúna, que até hoje são mantidos na propriedade.

A estratégia de manejo contou, inicialmente, com o cercamento da nascente e de todo o percurso da água que passa pela propriedade. A cerca foi colocada a uma distância de aproximadamente cinco metros em relação ao rio, evitando o pisoteio do gado e favorecendo o crescimento das plantas.

Os pesquisadores ressaltam que o cuidado com a propriedade como um todo, deve ser considerado, pois resulta na conservação do solo e evita a contaminação dos lençóis subterrâneos.

“Em Araponga, os agricultores agroecológicos desenvolveram, em um processo de experimentação participativa, sistemas agroflorestais com café. As espécies arbóreas foram escolhidas para compatibilizar com o café. Fixadoras de nitrogênio e frutíferas são interessantes para o sistema contribuindo com fertilidade do solo e diversificando a produção”, completam.

Sistema cooperativista-agroecológico

A propriedade de Amaral compõe um sistema agroecológico iniciado em 1989. A ideia surgiu entre três famílias que decidiram juntas dividir as despesas de compra de terras. Mais tarde, o processo de compra e divisão foi ampliado a outros grupos.

Cada família recebe entre 3 e 15 hectares. “Para participar da compra há critérios definidos pelo grupo. Grande parte do dinheiro vem do empréstimo solidário, criado pelos próprios agricultores e feito ao companheiro para a compra da terra”, explicam os pesquisadores. A dívida é paga com o que é produzido, incluindo sacas de milho, feijão e, até mesmo, cabeças de gado, sem imposição de juros.

As famílias se organizaram como Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) tendo como principal objetivo seguir os princípios da Agroecologia, ou seja, alternativas sustentáveis do uso do solo e produção em sistemas agroflorestais.

Amaral, por exemplo, cultiva no mesmo terreno do café, frutas, hortaliças, milho, feijão e outros alimentos para consumo próprio e da família. A falta de recursos para revolver o solo com máquinas e compra de insumos de recuperação do solo, o levou a optar pelo uso de matéria orgânica e adubação verde. Desde que o produtor adquiriu o terreno, utiliza a foice e, como principal estratégia de manejo, mantém o solo sempre coberto com os resíduos da colheita anterior. Técnicas do plantio direto.

O Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata de Minas Gerais (CTA-ZM), em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Empresa Agropecuária do Estado de Minas Gerais (EPAMIG), e a Escola Família Agrícola (EFA), assessoram o STR.

“Os resultados obtidos comprovam que, com as técnicas agroecológicas, é possível conciliar produção agrícola e conservação do solo e da água na região”, concluem os autores do artigo.

Para acessar o estudo de caso na íntegra, clique aqui.

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