A construção da consciência política e a mídia

"O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." Esta frase do filósofo sofista Protágoras (séc. V a.C.) é fundamentada na hipótese do incessante fluir da realidade, que implica em que a compreensão pode ser alterada de acordo com as circunstâncias mutáveis da percepção humana. Além disso, o homem pode criar e recriar os valores e o significado da realidade, criando a sua própria “verdade”.

Com base nessa afirmação de Protágoras, podemos repensar a concepção de “verdade” na atual conjuntura política do Brasil. Refiro-me à tendência no cenário político atual de posições diferentes e até mesmo divergentes que, de certa forma, ameaçam a nossa democracia e, em sentido mais amplo, a nossa identidade política.

O que determina o conjunto de ideias, princípios e valores que refletem uma determinada visão de mundo, orientando uma forma de ação, sobretudo uma posição política, está relacionado à historicidade existencial do sujeito: a família, os amigos, a condição econômica, as influências externas, a religião, a formação acadêmica, enfim, todo o contexto social no qual a pessoa vive. No entanto, a principal influência sobre o pensamento político está relacionada à ideologia da classe dominante, já anunciada por Marx e Engels no século XIX. São as influências do poder econômico, isto é, de como as pessoas são levadas a pensar e agir de acordo com os interesses da classe dominante. O principal veiculador desse tipo de pensamento é a mídia.

Nesse sentido, a ideologia é assim uma subestrutura, uma forma de pensamento obscuro, que, por não revelar as causas reais de certos valores, concepções e práticas sociais, que são materiais, ou seja, econômicas, contribui para sua aceitação e reprodução, sua disseminação, representando um “mundo invertido” e servindo aos interesses da classe dominante, porém aparentando representar interesses da sociedade como um todo.

O termo “ideologia” é amplamente utilizado, sobretudo por influência do pensamento de Marx, na filosofia e nas ciências humanas e sociais em geral, significando um processo de racionalização – um autêntico mecanismo de defesa – dos interesses de uma classe ou grupo dominante. Tem por objetivo justificar o domínio exercido e manter coesa a sociedade, apresentando a “realidade” como algo homogêneo e a sociedade como sendo indivisível, permitindo, com isso, evitar conflitos e exercer a dominação.

Atualmente “esquerda” e “direita” se tornaram os termos comumente usados para se referir às tendências dos principais expoentes no cenário político nacional PT e PSDB e seus respectivos aliados. Além disso, temos os movimentos que se dizem apartidários, como por exemplo, o movimento “Brasil Livre”, “Vem pra Rua” e os “Revoltados Online”, principais responsáveis pelos enormes ajuntamentos em manifestações contra o governo. Na verdade, existem controvérsias quanto às reais intenções de tais “movimentos” - alguns deles são acusados de receberem apoio e financiamento de grupos internacionais, com interesses econômicos. Já outros aparentam ser legítimos, apresentando pautas justas e coerentes.

 “Direita” e “esquerda” vêm da Revolução Francesa, a Direita (girondinos) e Esquerda (jacobinos), e durante o império de Napoleão Bonaparte, nos anos finais do século XVIII. Os representantes dos nobres, burgueses e elementos do clero ficavam à direita. Eram os que não queriam grandes alterações na ordem social e política, a qual os beneficiava por meio de um sistema de privilégios.

Mas este conceito sofreu várias mudanças nos diferentes contextos políticos, com o tempo, em diferentes partes do mundo. Hoje, há um consenso de que a esquerda inclui progressistas, social-liberais, ambientalistas, socialdemocratas, socialistas, democrático-socialistas, libertário-socialistas, secularistas, comunistas e anarquistas. Já a direita inclui capitalistas, neoliberais, econômico-libertários, conservadores, reacionários, neoconservadores, monarquistas, teocratas, nacionalistas, fascistas e nazistas.

Alguns cientistas políticos têm sugerido que as classificações de "esquerda" e "direita" perderam seu significado no mundo contemporâneo. No entanto, ainda servem para designar certas tendências, pensamentos e comportamentos sociais e políticos que caracterizam uma forma especial de ser, de pensar e de agir, que destoa completamente do pensamento comunista de Marx e do socialismo, na sua essência.

No cenário político brasileiro, aqueles que simpatizam com o PT e com outros partidos com características progressistas, a grosso modo, tendem a serem mais complacentes com as causas sociais, apoiam as políticas públicas que beneficiam os menos favorecidos, defendem um Estado mais forte, visando reduzir a perversa desigualdade social, são mais tolerantes com as políticas públicas voltadas à proteção do indivíduo dentro da sociedade, como por exemplo, fazer com seja respeitado o conceito de igualdade de gênero, raça, opção sexual. Além disso, têm aversão aos regimes totalitários, como, por exemplo, o Governo Militar - por isso se posicionam contra o impeachment (para esses, significa golpe de Estado), principalmente por temerem a possibilidade da volta de um governo com características neoliberais, que não priorize as políticas públicas sociais. Criticam a posição da mídia, acusam-na de ser a favor do golpe.

Já aqueles que são da oposição à presidente Dilma, tendem a serem mais conservadores, criticam as políticas públicas adotadas aos menos favorecidos, como por exemplo, a Bolsa Família, cotas para negros nas universidades e programas de inclusão nas universidades (ProUni e Sisu). Geralmente, possuem uma predisposição a uma reprodução de estereótipos de gênero, raça e etnia e menosprezo pelas minorias, as populações historicamente discriminadas. O conservadorismo por si, atua como um dos principais agentes para a manutenção de crenças, valores, hábitos, comportamentos e atitudes sexistas, racistas e etnocêntricas, promotores de sofrimento e de profundas desigualdades na sociedade brasileira. Além disso, adotam e apoiam um modelo de governo neoliberal, capitalista, ou seja, a absoluta liberdade do mercado e a não intervenção estatal sobre a economia. Um bom exemplo foi a onda de privatização de estatais no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Na realidade, o PT e PSDB e seus respectivos aliados não são radicalmente opostos; eles têm muitos elementos comuns. Mas há um elemento que os diferencia: o papel do Estado em relação às políticas sociais e à Economia. Se no governo PSDB as políticas sociais são focalizadas e há o discurso de uma parceria com a sociedade civil (ou seja, a isenção da responsabilidade do Estado, uma “terceirização”) – portanto, com certa ausência do Estado -, o governo do PT fica a meio caminho entre a focalização e a universalização: o Estado assume a primazia na formação das políticas sociais. No campo econômico, o governo do PSDB entende o Estado apenas como instrumento regulador do mercado (na maioria das vezes, a regulamentação que só serviria para fornecer as garantias exigidas pelo mercado) e, também, como fiador do mercado. Já o governo PT, além desses elementos, encampa a concepção do Estado como indutor, promotor do desenvolvimento.

Ser a favor do impeachment, como muitos imaginam, não são necessariamente devido às pedaladas fiscais e às denúncias de corrupção, embora suas influências sejam significativas, mas sim, é consequência da manipulação pelos meios de comunicação, dominados por uma escancarada ideologia vertical. Essa ideologia é a face simpática do capitalismo que agrada até mesmo às suas vítimas.

A intenção do impeachment vem desde da época do ex-presidente Lula e ganha força após a reeleição da presidente Dilma, quando o candidato derrotado nas urnas (com um número expressivo de votos) passou a pousar de bom moço e com o apoio da mídia, tentou emplacar como o herói derrotado – o vitorioso moral.

Quanto à corrupção, deve ser combatida com mais sensatez; não se combate a corrupção entregando o poder para outros que são corruptos. O que está em jogo é um processo educativo de valores morais e éticos para uma transformação social a médio ou longo prazo. No entanto, os crimes de corrupção devem ser investigados, comprovados e punidos, “doa a quem doer”.

Pois bem, a construção da identidade política não é estática, está sempre em construção, quando está aberto o conhecimento, manifestado em sua natureza sintética e casual, através do uso do processo crítico e reflexivo sobre a interpretação das informações. É a fórmula para se aproximar das “verdades”, visando a construção de uma identidade política mais racional e coerente. Ser de “esquerda” ou de “direita”, ser a favor ou contra o PT é a possibilidade de manifestação da liberdade pública e subjetiva que conquistamos a duras penas. A democracia é essencialmente o regime político no qual a soberania é exercida coletivamente pelo povo, pertence ao conjunto dos cidadãos, que exercem o sufrágio universal. Essa identidade democrática jamais poderá entrar em jogo, principalmente através dos interesses pessoais daqueles que exercem algum tipo de poder.

Para Hannah Arendt (1906-1975), a dimensão da ação plural política é indubitavelmente a que mais “humaniza” o ser. É uma ação que promove a liberdade dos homens, enquanto inserida na pluralidade, tornando-os aptos a revelarem, cada um, sua singularidade. Essa singularidade é a identidade revelada pela historicidade existencial dos indivíduos nos diferentes contextos da vida, inclusive pela ideologia perversa. No entanto, essa pluralidade não deve ser a propulsora da violência em voga nas suas mais diversas configurações, mas sim, o exercício mental constante para uma atitude de aceitação das divergências de opiniões, atitudes ou posições até mesmo divergentes, visando ao respeito mútuo.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Contato:  [email protected]

 

 

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