Carta a uma grande Mestra, com carinho.

Entre os prodígios que Deus nos presenteou, um deles é a capacidade humana de poder recordar o passado e refletir sobre a nossa história no tempo e no espaço. O passado é sempre uma realidade sentida e vivida, de alegria ou de tristeza. As experiências ficam registradas na memória. Muitas vezes, o tempo nos encarrega de valorizar pequenos atos que numa determinada época, situação e contexto não tinham tanto valor. Acontecimentos ou gestos simples marcam a nossa existência e relembra-las nos emocionam.

Hoje, prestes a completar 65 anos, bem vividos, o meu pensamento retorna ao ano de 1960. Na época, eu tinha 09 anos e a protagonista dessa história é minha professora primária Dona Inah.

Iniciava o ano letivo e eu era um de seus alunos do 2º ano primário. Era garoto de origem simples e humilde, mas na época eu não me via assim. Meus pais eram simples lavradores e trabalhavam de sol a sol para o sustento da família. Usava calça curta e não me recordo se na época eu ia à escola descalço ou com tênis “conga sete vidas”. Mas, tenho a certeza que a maioria dos meus coleguinhas não usava calçado algum. Na sala de aula, sentávamos em dupla e lembro-me que quando alguém entrava na sala ficávamos todos de pé. Naquela época as crianças respeitavam e valorizavam os mestres e as pessoas mais velhas. Jamais recusávamos realizar uma atividade ou tarefa solicitada pela professora.

 Achava Dona Inah muito bonita, enérgica e elegante. Hoje eu sei a importância que ela teve na minha vida como educadora, principalmente, pelos seus exemplos. Um fato que me marcou foi quando um dia, logo nos primeiros dias de aula, eu estava angustiado e triste por não ter trazido os materiais solicitados pela professora. Sentia uma dor na alma, vergonha dos colegas e da própria educadora. Na verdade, eu não queria estar ali naquele dia. Não me recordo se meu pai se esqueceu de comprar ou foi por falta de condições. O fato é que a sensibilidade da Dona Inah fez com que ela percebesse a minha tristeza e com muita calma me disse: “Waldemar, fique tranquilo, calma”. O que me tranquilizou um pouco.

No final da aula, Dona Inah despediu dos alunos, olhou para mim e pediu para que eu ficasse. Nesse momento tremi dos pés à cabeça, meu coração palpitava acelerado, pensando que ia levar uma bronca, ficar de castigo, algo assim. Mas, para a minha surpresa, ela gentilmente me pediu que a acompanhasse até a sua casa que ficava próxima à escola. Fomos caminhando e conversando. Chegando lá, eu imaginava que ia ficar esperando na calçada, do lado de fora, mas carinhosamente me convidou para entrar e sentar no sofá.

Era uma sala enorme, a casa novinha, me recordo que tinha um enorme tapete verde, acho que era um tipo de feltro – só sei que era lindo. Era tão macio que fiquei vislumbrado, deixando o sofá para sentar no tapete. Nunca tinha sentado num tapete antes. Fiquei ali sentando, aguardando a Dona Inah retornar contemplando a beleza dos móveis. Acho que até sujei o sofá, que era tão limpinho.

Passado algum tempo, Dona Inah retornou até a sala e me entregou alguns livros, cadernos, lápis, borracha e outros materiais. Naquele momento, meu coração irradiava alegria e, na época, eu nem sabia avaliar um gesto de tamanha grandeza. Antes de eu sair, ela me convidou para tomar o café, acho que era hora do café da tarde na casa. Que gesto lindo! Se fosse outra pessoa esperava eu ir embora e depois tomava o café, mas pessoas com um coração bondoso como Dona Inah não agem assim. Depois do café fui embora, muito feliz, acho que nem agradeci de tanta emoção.

Foi um gesto simples, porém nobre. Marcou profundamente minha vida. Às vezes, fico me perguntando, por que não agradeci pessoalmente por este gesto? Não sei. Talvez por vergonha, esquecimento ou por não ter tido a capacidade de avaliar tal gesto. Agora, porém,  através de esta singela carta, quero dizer: Muito obrigado!

Evidentemente, este foi apenas um dos seus incontáveis gestos nobres de uma Educadora que certamente marcaram e mudaram o rumo da vida de muitos de seus educandos.

Professora Inah, poderia chamá-la de ex-Mestra, mas sinto que devo chamá-la de Mestra, pois seus ensinamentos foram eternizados em minha alma. Meu desejo é reencontrá-la para abraçá-la, agradecer e dizer pessoalmente meu muito obrigado.

Mestra, se um dia isso acontecer, certamente, vai me ensinar mais alguma coisa. Termino desejando tudo de bom para a Senhora. A senhora é uma exemplo de educadora, sacerdócio que abraçou com muito carinho. Seus ensinamentos serão eternizados, também, pela sua história de vida, a todos que teve ou tem o prazer de conhecê-la. 

Que Deus continue abençoando-a, com muita luz e harmonia, exemplo para as atuais e as futuras gerações.

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