Discurso pornográfico tenta violentar a educação

É óbvio que não tem nada de mais que o truculento e desagradável “ator” de filmes de sexo explícito Alexandre Frota queira apresentar propostas para a Educação de nosso país. No entanto, soa muito estranho que o polêmico “Bady Boy” seja recebido pelo Ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), na última quarta-feira (25/04), como se a celebridade na área da pornografia fosse, também, uma referência na área educacional.

Pois bem, a reunião contou com outros representantes do movimento “Revoltados Online”, famoso pelo combate às ideologias políticas de “esquerda”, um dos principais responsáveis pelo massacre ao PT nas redes sociais e que, de certa forma, contribuiu para “legitimar” o impeachment da presidente Dilma, que levou Michel Temer, interinamente, ao mais alto cargo da República.

Frota publicou nas redes sociais que “foi bem recebido” por Mendonça e que o ministro teria ficado de “analisar” as propostas apresentadas. “Pude colocar algumas ideias para ajudar um país que eu amo”, redigiu o ator no seu Instagram junto com a fotografia da reunião. “Tenho certeza que iremos ajudar o país que eu amo”, é a legenda de outra foto, uma selfie juntamente com o Ministro. Repetitivo e nada criativo, sim, com esse “país que amo”.

Em uma entrevista ao Huffpost Brasil, Frota revelou que foi ao Ministério mostrar que o grupo apoia o projeto de “Escola Sem Partido”, que prevê o fim da “doutrinação de esquerda” nas escolas. “Nossa preocupação era justamente colocar ao ministro a importância desse projeto. Mostrar que a voz das ruas apoiam (sic) esses ministério (sic) para que a gente não tenha uma escola partidária, com o comunismo implantado nas salas de aulas (sic), para que nossas crianças possam ser livres com uma Pátria Educadora de verdade e não o que vinha sendo pregado até agora, uma coisa de doutrina. Saí de lá com a certeza que ele vai fazer um bom trabalho.”

A procuradora Beatriz Kicis, que acompanhou o ator na visita ao Ministério, declarou: “Não é uma lei da mordaça, é evitar a doutrinação. Hoje só se defende Lula e Dilma e chamam impeachment de golpe. Tem que proibir de colocar a sua verdade como sendo verdade. Queremos que seja feita uma limpeza na nossa Educação porque degringolou (sic) nos últimos 13 anos. Nossa luta é pela Educação." Ela acrescentou ainda que já está provado que ideologia de gênero nas escolas "faz mal" para a cabeça dos jovens, das crianças e dos adolescentes. "Essa coisa de dizer para criança que ela não tem sexo definido, que pode usar qualquer banheiro, faz um mal terrível."

Mas é desonesto dizer que as escolas praticam doutrinação política ou ideologia de gênero. É muita falta de informação, ou melhor, é má intenção, explícita. Remete-nos ao deputado Bolsonaro que ficava ostentando, nas redes sociais, um livro editado em Portugal como se fosse do nosso MEC. E muita gente, talvez pela falta de informação, se deixou manipular e acreditou nisso.

Então, essa sugestão de Frota e Revoltados Online é um golpe contra a Educação. Significa uma repressão aos professores que têm um pensamento crítico, progressista ou simplesmente livre; será uma violência aos nossos educadores. Todo professor consciente sabe que só pode falar o que fala, tratar de conteúdos críticos nas aulas, porque não estamos mais vivendo sob a opressão de uma ditadura.

O bom professor, principalmente da área de humanas, pelas características das disciplinas, não doutrina, mas ensina o exercício da reflexão. O poder do pensamento, da análise, da crítica, do questionamento que, por isso mesmo, é uma ameaça aos poderosos e seus sistemas de verdades dogmáticas, prontas, impostas.

O professor cumpre um currículo definido pelos sistemas de ensino. Nenhum currículo e nenhum livro indicado pelo MEC contém "doutrinações ideológicas". Mas ensina, sim, o que é “esquerda”. E também ensina o que é “direita”. O bom aluno sabe que a esquerda inclui progressistas, social-liberais, ambientalistas, socialdemocratas, socialistas, democrático-socialistas, libertário-socialistas, secularistas, comunistas e anarquistas. E que a direita inclui capitalistas, neoliberais, econômico-libertários, conservadores, reacionários, neoconservadores, monarquistas, teocratas, nacionalistas, fascistas e nazistas.

A escola não pode abrir mão, como quer Frota, das conquistas nas lutas por igualdade e respeito às diferenças, que têm sido constantes em vários setores da sociedade. O ambiente escolar é um lugar privilegiado para isso, que se apresenta como um lugar de mudança, de falas diversas, um universo em transformação, voltado a um devir que nos espera cotidianamente. As discriminações de gênero, étnico-raciais e por orientação sexual, são dilemas que, para serem resolvidos, precisam ser desnaturalizados e esse processo de desnaturalização passa, necessariamente, pela informação séria que instrumentaliza professores e outros profissionais da Educação no desenvolvimento de projetos voltados ao respeito da pluralidade (característica fundamental da Escola) e enfrentamento a todo tipo de preconceito que possa vir a se apropriar das falas e atitudes das pessoas dentro dos espaços escolares. E saiba Frota que ninguém se torna gay porque foi induzido pela escola. Mas a escola ensina o respeito à diversidade, a pluralidade.

O bom aluno vai saber distinguir se a proposta que Frota defende para a Educação nacional é retrógrada, ultrapassada e reacionária. Infelizmente, muitas pessoas são levadas por pensamentos prontos. Perderam a noção de como se forma e se mantém a Sociedade. Perderam a noção do que seria Ética e Política de verdade. Não imaginam que um projeto transformador de país precisa de um projeto de Educação transformadora. Aliás, esse é um bom assunto para ser discutido em sala de aula.

 

Referência:

Castro, Grazielle, “Alexandre Frota é recebido pelo ministro da Educação e pede fim da ideologia de gênero e do ‘comunismo' nas escolas”, 25/05/2016, http://www.brasilpost.com.br/2016/05/25/frota-ministerio-educacao_n_10131954.html.

 

Luiz Claudio Tonchis é Professor e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS e pela Universidade Federal Fluminense (MBA). Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

 

Contato:  lctonchis@gmail.com

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