Enem revela que a educação no Brasil é elitizada.

Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2014), por escola, divulgado no último dia 5/8, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam dados importantes para uma reflexão crítica e uma análise mais contextualizada sobre os principais motivos do baixo rendimento e da perversa desigualdade na qualidade de aprendizagem, entre milhares de escolas distribuídas pelo país. É uma desigualdade que se auto-alimenta, numa lógica de exclusão social, que facilmente se reproduz num círculo vicioso e com muita intensidade.

Os dados abrangem resultados de 15.640 escolas de todo o país. Nelas, 1.295.954 estudantes, voluntariamente, realizaram a prova do Enem. A divulgação dos dados de 2014 marca o terceiro ano consecutivo em que o Governo Federal, para amenizar a comparação e mera rotulação de escolas em boas ou ruins, não apresenta a classificação ordenada da média geral. Além dos resultados agregados de proficiências por Área de Conhecimento e Redação, a análise dos resultados deve considerar também as informações contextualizadas disponíveis, como o Indicador de Nível Socioeconômico e o Indicador de Formação Docente da escola.

Esses resultados demonstram que fatores externos à escola, principalmente as desigualdades socioeconômicas, interferem decisivamente na qualidade da aprendizagem. Segundo os dados, com raras exceções, o que define uma escola de Ensino Médio melhor ou pior, é o contexto social de sua clientela. Nas escolas classificadas com nível socioeconômico muito alto, a média dos resultados das provas foi 611.  Já para as de nível social muito baixo, a média cai para 429.

É interessante a análise feita por Ana Carolina Moreno: “Entre as 500 escolas com a maior média aritmética, 84,4% delas têm nível socioeconômico ‘muito alto’. Já a escola de nível socioeconômico ‘médio’ mais bem colocada ficou na 263ª posição. A escola de nível ‘baixo’ mais acima na lista está apenas na colocação número 3.516. Já o melhor colégio entre todos os que têm alunos de nível socioeconômico ‘muito baixo’ obteve a colocação número 12.391, de um total de 15.640” 1. Ou seja, existe um imenso abismo entre as escolas privadas e públicas.

A cada ano, o Inep acrescenta uma informação contextualizada aos resultados divulgados. Em 2014, revelou um indicador de permanência na mesma escola de estudantes durante o ensino médio. A surpresa foi que a tendência é que se os alunos permaneceram na instituição, as médias são piores e se a escola recebeu alunos, o resultado melhora. Isso evidencia a prática perversa de seleção de alunos.

Outra tendência que interfere nos resultados é o tamanho da escola, ou seja, as escolas muito pequenas tendem a ter resultados melhores. A média para escolas desse porte foi de 525, enquanto que para aquelas consideradas de grande porte foi de 498. É evidente que uma escola grande encara mais problemas e, portanto, é mais complexa de ser administrada do que aquela que possui menor número de alunos.

Esses dados indicam a necessidade do poder público de repensar o modelo de instituição de ensino, e, na medida do possível, reduzir o número de alunos das escolas de grande porte. É também coerente e necessário, adotar medidas urgentes capazes de atenuar os problemas das escolas que apresentaram os piores resultados, reduzindo o número de alunos por sala, para que os professores possam realizar um trabalho mais produtivo.

O Enem, como qualquer outro sistema de avaliação em larga escala, é um instrumento precioso para a avaliar a qualidade da educação. Para isso, ele deve ser metodicamente analisado, interpretado, para identificar os problemas pontuais e, também aqueles que se apresentam aparentemente ocultos à percepção imediata. Ele tem o papel importante na elaboração de políticas públicas e, principalmente o papel de dialogar com a escola, fornecendo–lhe, ao mesmo tempo, um diagnóstico que aponta as suas fragilidades assim como uma direção que permita a sua melhoria gradual.

Pois bem, o processo educativo no Brasil revela suas contradições. Por um lado, a educação é a vereda da ascensão social e o alicerce para o desenvolvimento econômico. Por outro lado, o próprio cenário socioeconômico interfere e afeta a qualidade do ensino-aprendizagem, e assim, segue reproduzindo a desigualdade, contribuindo para as mazelas sociais, como por exemplo, o desemprego, a violência, a fome. Ou seja, a miséria.

A escola brasileira tem muitos limites condicionantes a serem rompidos e, muitos deles estão além de seus muros. A melhoria que se espera depende do avanço na qualidade de vida daqueles que se encontram em estado de vulnerabilidade e do desenvolvimento do nível cultural de grande parcela da população. Para isso, deve-se manter e aprimorar a agenda de políticas sociais. O apoio de todos os brasileiros é fundamental e isso inclui os setores mais conservadores da sociedade. A diversidades de interesses e de visões precisam ser debatidas, confrontadas, negociadas para um consenso mínimo. Já não há mais tempo para insipiência, é urgente, precisamos agir ou estaremos condenados ao fracasso num futuro próximo, diante de um mundo globalizado, em processo de evolução acelerada.

Vivemos em um momento crítico, de crise política e econômica que tem levado a medidas impopulares, que geram certa aversão ao governo federal, e que, também abalam os governos estaduais, e, em geral, todos os brasileiros. Mas, mesmo assim, a mera expressão da indignação, justificada ou não, que muitos acham ser algo magnífico de se expor, não resolverá os nossos problemas. O momento é de revolta e de ódio, mas a educação tem uma particularidade - seu sucesso depende do engajamento da sociedade. A melhoria da qualidade da educação é um benefício para todos. Todos saem ganhando.

Além disso, investir no professor tornou-se um imperativo. Os baixos salários, as péssimas condições de trabalho e o desprestígio da profissão afastaram os jovens dos cursos de licenciatura, pois ninguém quer ser professor de educação básica, inclusive os vocacionados. Via de regra, torna-se professor aquele que, por condições circunstanciais, não teve outra oportunidade.

No modelo de sociedade em voga, novas exigências são acrescentadas ao trabalho dos professores. Atualmente, cobra-se deles que cumpram as funções que antes eram atribuídas à família, e outras instâncias sociais; que respondam à carência de afeto dos alunos; que resolvam os problemas da violência, das drogas e da indisciplina, além de ter que preparar bem os alunos em todas as áreas de conhecimento para colocá-los em melhores condições de enfrentar a competitividade no mercado de trabalho; que restaurem a importância dos conhecimentos e a perda da credibilidade das certezas científicas; que sejam regeneradores das identidades perdidas com as desigualdades, que gerenciem as escolas com parcimônia, que trabalhem coletivamente, cada vez mais ministrando uma maior quantidade de aulas, acumulando cargos. É neste contexto que se faz necessário ressignificar a identidade do professor.

É, importante, em virtude da centralidade da linguagem no desenvolvimento da criança e do adolescente que os currículos priorizem a competência leitora e escritora. Só por meio dela será possível concretizar a constituição das demais competências, tanto as gerais como aquelas associadas a disciplinas ou temas específicos. Para desenvolvê-la é indispensável a articulação entre as disciplinas, ou seja, que seja objetivo de aprendizagem de todas as disciplinas do currículo, ao longo de toda a educação básica.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Contato:  lctonchis@gmail.com

Referências

 

1. Moreno, A.C.; “Enem 2014 por Escola: Veja o Que as Escolas 'Top' Têm em Comum”, G1.globo.com, publicado em 05/08/2015.

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