Para pensarmos sobre as drogas e a banalidade do vício

Imagem: Folha da Região de Araçatuba

A morte de um jovem de 17 anos comoveu toda uma cidade de aproximadamente 60.000 habitantes no interior de São Paulo. O garoto era saudável, alegre, amava a vida e as pessoas, estava sempre disposto a ajudar o próximo. Idealista e determinado, sonhava e fazia planos para o futuro, preparava-se para o vestibular e pretendia ingressar numa boa universidade no próximo ano. Gostava da área de exatas e, por isso, pretendia fazer o curso de Engenharia Química. Repentinamente teve a vida interrompida, supostamente vitimizado pelo uso de uma nova droga sintética chamada 25I-NBOMe, popularmente chamada de “doce” ou “balinha”. Ele foi encontrado já sem vida pelo próprio pai na cozinha da residência da família. Uma perda traumática, chocante que levou a família e os amigos ao total desespero.

Em sua página no Facebook, centenas de mensagens de despedida revelaram o quanto era querido: “Meu amigo, está doendo muito, mas eu sei que você está em um lugar bem melhor e tenho certeza que sua passagem aqui não foi em vão, muitas pessoas te amam e sua marca na terra foi a felicidade, a humildade e a ‘zueira’ (no bom sentido)! Vai ‘doer na alma’ ir na aula e não ver você no seu lugar. Mas, iremos seguir em frente e levando junto conosco tudo o que nos ensinou. Você nos ensinou muitas coisas, principalmente o valor da amizade. Já estou com saudades e ela será eterna, até encontrarmos de novo num outro mundo. Vai com Deus”. Esta é uma mensagem, entre muitas, publicadas no mural por uma amiga de sala de aula, do 3º ano do Ensino Médio.

Por que isso aconteceu? Se indagarmos os pais, familiares e amigos, não teremos respostas. Pergunta difícil de ser respondida, sobre um jovem que aparentemente tinha tudo: família, amigos, uma boa escola, uma boa educação, situação financeira estável. Esta é, também uma pergunta de muitas famílias, independentemente da situação socioeconômica, vítimas de uma época em que o uso de drogas tornou-se uma banalidade. Este é um mal que atinge a todos, ricos e pobres.

A droga é uma ameaça constante aos nossos jovens e sempre preocupa os pais, traduzida em insegurança, medo, ansiedade, angústia e revela a nossa incapacidade de compreensão do comportamento dos adolescentes, uma realidade e um lado de nossos filhos que não (re)conhecemos e não somos capazes de acessar. O uso de drogas, evidentemente, é uma questão complexa e as razões podem ser múltiplas. Vivemos uma época em que os nossos jovens tornaram-se vítimas de uma sociedade “fissurada” por novidades nem um pouco saudáveis.

É muito comum nas reflexões e debates sobre drogas a reafirmação de seu uso milenar, sua presença inexorável na História da Humanidade. Esse é um clichê que é repetido por muitos pesquisadores do tema, provavelmente com o propósito de não confundir o fenômeno da alteração voluntária e sistemática da percepção por meio de plantas e substâncias químicas com o principal problema das drogas. A questão das drogas, essa sim, pode ser considerada historicamente recente, tendo pouco mais de um século e se constituiu como um problema social quando o consumo de algumas substâncias psicoativas, denominadas, a partir de então, de “drogas” em um sentido negativo se tornou objeto de ampla atenção.

Por que as pessoas usam drogas? E por que elas viciam? Atualmente, o mundo social dos jovens, as baladas, as relações se configuram nesses ambientes e a má qualidade das conexões humanas, favorecem o uso de drogas. O consumo está relacionado a um contexto social, além de psicológico, emotivo, tudo nos leva a crer nisso. A droga passou a ser uma exigência dos grupos, pois quem não se droga, está excluído. É a incorporação personificada da alma dionisíaca. Na mitologia grega, Dionísio é a entidade do vinho, da festa e da loucura, ele levava seus adeptos, em seus cultos, à experimentação dramática e a exacerbação dos sentidos, a vertigem e o excesso em tudo.

Na balada tudo incita a que o jovem saia da realidade para uma transcendência negativa, a batida do som, as letras das músicas, enfim, o ambiente em si, incitam os jovens a se drogarem para entrar em outra sintonia, outra “vibe” (“vibração”), pervertendo as suas personalidades. O hedonismo perverso. Nestes ambientes a droga é combustível para que o indivíduo tenha seu ego dissolvido, não seja mais ele mesmo, saindo de si para um estado de contemplação mórbida, mas prazerosa. Essa experiência de êxtase, de euforia e prazer faz com que os jovens tentem repetir tais sensações em outras circunstâncias da vida, e cada vez mais e com maior intensidade, caracterizando, assim, o vício.

Para o pesquisador, Johann Hari, em seu livro “Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs”, não é a substância química em si que produz o vício. Baseado em sua análise de experimentos científicos em Psicologia, além das histórias de vida de pessoas que conheceu, o professor argumenta que os seres humanos têm uma necessidade muito profunda de estabelecer laços e conexões. “É como nos satisfazemos. Se não conseguimos nos conectar uns aos outros, vamos nos conectar com o que encontramos – a bolinha pulando na roleta ou na ponta da agulha de uma seringa”.

Ele quer dizer que deveríamos simplesmente parar de falar em “vício”: deveríamos falar em “ligação”. Por exemplo, um viciado em maconha criou uma ligação com a droga porque não conseguiu estabelecer outras conexões. Segundo Hari, isso é relevante para todos nós, pois nos força a pensar de maneira diferente a respeito de nós mesmos. Os seres humanos precisam de conexões de afeto e de amor. “A frase mais sábia do século XX foi ‘Apenas se conecte’ (...). Mas criamos um ambiente e uma cultura que cortou as conexões, ou que favorece apenas um simulacro delas: a internet”, comenta Hari. A disseminação do vício em drogas é um sintoma da maneira como vivemos, ou seja, consequência da deterioração das relações humanas.

Para ele, a principal causa do vício é a dependência psíquica, por exemplo, uma pessoa pode viciar no jogo de baralho sem que ele ingira nenhuma substância, sem precisar "tomar o baralho pelas veias”. A droga, com o tempo, pode fazer com organismo necessite dessa substância, mas a dependência psíquica é o fator preponderante da dependência.

A era em que vivemos é a era da “liquidez”, esse é o diagnóstico feito por Zygmunt Bauman, pensador polonês de grande vigor intelectual, dono de um estilo que associa na sua escrita a clareza argumentativa à profundidade e beleza retórica. De acordo com a análise nevrálgica de Bauman, a “modernidade líquida” é a época atual em que vivemos. É uma época de fluidez, volatilidade, incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como “modernidade sólida”, são retiradas de palco para darem espaço à lógica do agora, do consumo, da fruição imediata e da artificialidade.

Neste contexto, esta relação frágil tem como pressuposto a transformação dos humanos em mercadorias que podem ser consumidas e jogadas no lixo a qualquer momento. Isso mesmo: a qualquer momento eles (os humanos) podem ser excluídos. A conexão é frágil porque o sujeito líquido lida com um mundo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, ele ainda causa frustrações e, como já dito, insegurança. O sujeito líquido não tem mais referenciais de ação: toda a autoridade de referência é colocada em si mesmo e é sua responsabilidade construir ou escolher normas a serem seguidas. Tudo se passa como se tudo fosse uma questão de escolher a melhor opção, com melhores vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. A marca desse modelo de mundo é a insegurança de um futuro incerto.

Pois bem, além das questões de isolamento e falta de conexão, apontadas por Hari e justificadas por Bauman na configuração de mundo em voga, não podemos desprezar a subjetividade humana: a falta de conexões e de equilíbrio com o universo como um todo. Para isso, necessitamos ensinar aos nossos jovens, através do processo educativo, a exercitar o seu intelecto, a sua sensibilidade emocional, física e orgânica, além das relações sociais e afetivas. Estas são as potencialidades da vida afirmativa e o desenvolvimento pleno das capacidades humanas para uma vida feliz, sem drogas.

Esses jovens são vítimas de modelo de relação vazia e perversa. Essa nova droga sintética chamada 25I-NBOMe é apenas mais uma opção perigosa para essa transcendência de uma época em que impera a banalidade do vício de uma sociedade carente de referências sólidas. Por tudo isso, precisamos começar a lidar com os problemas das drogas com mais lucidez. Não impediremos que os jovens entrem no mundo das drogas, nem faremos com que eles não as usem, dizendo apenas: “isso faz mal” ou através da repressão. Necessitamos, com urgência, trazer para o debate e exercitar um modelo de relações interpessoais que contemple as necessidades da condição humana. Necessidade de amor, segurança e paz.

 

Referências:

Hari, Johann, “Descoberta a Provável Causa do Vício. E Não é o Que Você Pensa”, http://www.brasilpost.com.br/johann-hari/descoberta-a-provavel-cau_b_7597010.html. (acesso em 03/06/2016) 

Oliveira, Dennis, “Entrevista - Zygmunt Bauman”, Revista Cult, edição n.º 138, http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/entrevis-zygmunt-bauman. (acesso em 03/06/2016)

Luiz Claudio Tonchis é Professor e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS e pela Universidade Federal Fluminense (MBA). Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia. 

Contato: lctonchis@gmail.com

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