A dona das cocadas

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Quando a tememos, a morte nos espera mais de perto. Às vezes, em outras vezes, é a vida que está a espreita, como se fosse um feixe de luz insistente a passar. Para medos de vida e de morte, sempre pensei que se fosse me dada a chance de saber que aquela era a hora de ir embora desse mundo, eu pensaria no calçadão da minha infância, na praia do verão, passeando com a família e comendo cocada. Essa será minha lembrança derradeira desse mundo se eu tiver a chance de ter uma. Mas esse não é um texto mórbido. Se falo dessa eleição é para dizer do quanto de vida cabe nela. E como a vida é vida até o último segundo dela. Até não ser mais.
Era sempre após a soneca da tarde que eu e meu irmão íamos passear no calçadão da praia, segurando a mão de nossos pais, os olhos embevecidos do mar, olhos que viviam longe dele. E íamos por aquele calçadão imenso, imensa é a vida, atrás das cocadas mais variadas. Era cocada de todo tipo. Era cocada de dar saudade do calçadão em época de escola.
Eu sempre imaginei quem estaria por trás daquelas cocadas tão deliciosas. Imaginei a vida daquelas mulheres tantas vezes que nem sei contar. 
Eu cresci e o calçadão da infância não é tão imenso mais. A vida é. Agora eu sei que a vida é mesmo um entrelaçar. Hoje, com olhos embevecidos por outro mar, distante daquele da minha infância, escutei a história de uma neta de uma senhora que fazia cocadas para viver. E ela recheou minhas lembranças, deu rosto a minhas imagens, completou a cena não só de uma lembrança qualquer mas de uma que de tão importante, espero ser minha derradeira. Agora aquelas mulheres também tinham uma história para mim. A vida nem sempre nos mostra seu filme completo.
Assim sendo, mesmo tarde da noite, liguei para casa da minha mãe e perguntei para ela como é  que ela fazia aquelas bananas da terra, complemento do passeio da cocada. Ela, sonolenta, explicou sem questionar muito. E as fiz. Enquanto comia, já era madrugada e o que sentia devia ser algo muito parecido com o que é a felicidade.
Mongaguá, 28 de agosto, 2014.

Dedico essa crônica à Nocélia Costa, dona de tantos dons bonitos.

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