A mulher e a senhora

Há dias em que ela pensa em quase tudo e quase tudo turvo, quase tudo estranho como quando se perde uma parte, um pedaço de si. E assim, tão, tão triste, se lembrou da primeira vez que viu aquela senhora. Aquela, origem de tudo, e ela, a mulher, resultado da sua vida, para sempre guardiã de suas histórias. Era com voz doce, não era, que disfarçava a dureza de tanta coisa, mais do que podia contar, a vida mais dura que tudo que há de duro no mundo. E, assim, leveza, menos paciência e mais amor. Não há nada que dure mais do que uma lembrança como aquela, ela pensava. Um jardim colorido, um pirulito na boca, uma senhora que já tinha os cachos brancos. Ela, a mulher, nem sabia que a amaria para sempre, nem sabia que a vida sempre teria sido muito mais alegre com a senhora por perto. Mas já entendia, como é da natureza fácil das crianças, aquela perna manca, a bengala por cima da saia, os pombos que faziam festa ao redor do milho. Pouco sabia do mundo, a mulher ainda menina, mas sabia do amor e do doce do pirulito. Era tudo muito recente e, o mundo, um lugar alegre em que os pombos faziam festa. Nada melhor que uma lembrança como aquela, a mulher pensou. E saberia muito mais depois, saberia que nada apaga uma lembrança como aquela nem mesmo os anos ou, melhor, nada se atreve com a grandeza de uma lembrança como aquela. Era a música e os olhos que sorriem, era mais do que ela podia contar, era tão duro aquilo, por vezes, como nada mais tão duro na vida. E todas as outras lembranças que ela tinha tido na vida, o primeiro namorado, o casamento, o carro e os cachorros, o cheiro de comida caseira, o carinho de mãe, tudo aquilo era só uma extensão daquele dia, daquela praça e daqueles pombos. Era sua primeira lembrança de amor e era natural que todas as outras fossem feitas daquele material mesmo que nem sempre doce como o pirulito. Mas muitas vezes doce. Quase todas as vezes, diria para a senhora nos momentos em que queria disfarçar a tristeza ou dizer das qualidades do namorado. Há dias como hoje em que ela pensava e quase tudo turvo, quase tudo estranho, quase tudo feliz como quando se perde uma parte, um pedaço de si e o reencontra, depois, em uma caixinha que, de maneira singela, toca Elis Regina.

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