Impregnação palavriana

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             Porque elas se deitam e desmontam em mim como uma mulher, delicadas e agressivas. Fazem festa em meu corpo como se dele fizessem seu abrigo mais íntimo. E saem pela minha boca, e se inscrevem em mim como algo que não se esvai, como um desejo profundo esperando para nascer. Caem como uma chuva fina, escorrendo e se derretendo de amor ou ódio, qualquer urgência que encontra em sua escuta, sua toca. E esperam, elas, as palavras e as mulheres, ao te ver passar distraída, atravessando a Praça, olhando mais fundo a loja com uma preocupação mais séria. E mal sabem, elas, as palavras, que querem sair no elevador ou na sala de espera, como uma conversa trivial em que se diz muito, dizendo pouco. Aquele tempo, aquela chuva, o disco na vitrola, a cantora que é o máximo, não é? E por elas, faço coisas inimagináveis, até as perco, por vezes, elas não saem. Acho-as muito ausentes, às vezes, as mulheres e as palavras, mesmo que façam festa como um casaco caído no chão, uma epígrafe mal feita, um verso não rimado. Uma festa mal feita em que separam do corpo como se dele não se pudesse muito. Demitem-o como se dele pudessem se separar. Do corpo, as mulheres. De mim, as palavras. Um resto qualquer que fica em uma frase setenciada, em uma autorização não dita, no recuo que permite o passo adiante. E se delas pudessem mais, e se delas fosse mais, as palavras iriam buscar o infinito do meu corpo como se dele fizessem uma verdadeira, uma legítima impregnação ausente. E fossem, pouco a pouco, se derretendo como um gozo profundo em que não há trevas ou dor que se apresentasse mais forte. E uma palavra basta, por vezes. Uma saída apressada, o cheque pagado pelo muito do tempo em que tudo se passa em um presente enorme. Enorme presente que elas sejam escutadas, as palavras e as mulheres, como se fossem sérias mesmo quando brincam. E, assim, me envolvem e eu me sirvo delas para dizer do que não tem nome, do que é difícil por ser preciso demais. E a necessidade vai além do que a precisão como um ponto final. Tudo é muito denso que vira leve e viram leves, de um lado para o outro, as palavras, como se fossem mulheres delicadas demais para que sejam mal tratadas. E que se sirvam de mim, as deixo assim, impregnadas em mim. Que eu as tire, pouco a pouco, que eu as brinque, e que eu as escreva como uma tatuagem no corpo que não deforma mais. Que elas se derretam em mim como uma mulher, as deixo assim. Quietas. Diante do seu silêncio, por vezes mudas. Há aquilo que não se fala mas se fala, uma captura de um tempo perdido. Há um traço e um ponto final. Que se derretam, as palavras, como uma mulher delicada, em meu corpo feminino. E me deixem enebriada de amor.

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