Não basta mais cochichar no ouvido dos príncipes

 

Psicanálise, ciência e política no século XXI

 

 

Sabemos que alguém quando se submete à experiência analítica, se afasta da  vida pública para mergulhar na experiência singular que acontece entre a confidência  de dois parceiros. Por essa via, o analisante pretende encontrar aí o alívio de alguns  males íntimos, os elucidando através dessa experiência. Contudo, Freud já previra 

que a psicanálise iria além do que acontece entre quatro paredes, que gradualmente  ela produziria, mais adiante, na sociedade o que ele não hesitou em chamar de uma,  elucidação psicanalítica, e que resultaria "numa tolerância social inédita,  precisamente, no que diz respeito às pulsões." (MILLER, 2003, p.106-107)

 

Miller, à esse propósito comentara uma decisão do Tribunal dos EUA que acabou com as leis que puniam as condutas sexuais desviantes, pois a corte concluiu que o Estado, com a criminalização das condutas sexuais privadas não acabaria com a  sua existência e nem controlaria o seu destino. Fui verificar como estava essa questão  recentemente, depois de dez anos, e não levei um segundo para descobrir que o  casamento gay está em discussão, inclusive, no epicentro da luta pela presidência dos EUA. 

 

Parece incontestável que o acontecimento Freud colocou a pergunta sobre o  sexual na boca do povo. Ainda que não exista consenso, fala-se disso. Se a política  toca a matéria do gozo, a opinião do povo se divide. A substância pulsional  esparrama-se no tabuleiro, perturbando o jogo político. Tem os que são contra, os que são a favor. 

 

Barack Obama declarou ser favorável, seu adversário, contra. O The New  York Times, do dia 11 de maio de 2012, publicou uma matéria de Peter Baker  afirmando que enquanto fartos dados apontam que heterossexuais não querem casar  ou adiam ao máximo o casamento, gays se mobilizam para gozar desse direito.  Enfatizava Baker, que da arena social e política aos tribunais, o que pareceria  impensável nos anos 90 está se tornando cada vez mais comum. Homossexuais  servindo ao Exército, casando e adotando filhos, enquanto a geração mais jovem não  entende o porquê de tanta polêmica. Exemplo de uma tolerância social inédita frente a  pulsão e seus destinos. 

 A influência política da psicanálise pode ser percebida a longo ou médio prazo. Miller dirá que a “Sua influência é como um contagio, uma dilatação tranqüila,  a expansão de um perfume, um espírito invisível (...) Alguma coisa teve lugar em  Freud que é da ordem do consentimento e não apenas da confissão”. (MILLER, 2003, p. 108). O mundo, hoje, é esclarecido quanto à força das pulsões. Isso que se satisfaz  de qualquer jeito. Essa elucidação, nós as devemos ao acontecimento Freud. 

Foi então, cochichando no ouvido dos príncipes, na forma de uma dilatação  tranqüila, que a psicanálise contribuiu para mudar o mundo no século XX. Tempo  florido simbolicamente, onde as ideologias faziam marchas cujos slogans não nos  deixam esquecer: "Paz e Amor! Sexo, drogas e rock and roll! É proibido proibir! “A queima dos soutiens” na praça pública, cuja queima nunca aconteceu, mas deu seu  recado - ideologia eu quero uma pra viver! Refrão cantado pelas caras pintadas que  marcaram no rosto as cores de um Brasil, sem Collor, em 1993. Movimentos que 

exalavam odores, dentre eles o perfume da psicanalise. Souvenirs do século XX.  Contudo, o simbólico não é mais o que era no século XXI e entramos numa  nova era, onde é menos a felicidade coletiva o que se busca e mais o gozo do eu  sozinho. Miller constata que nós não estamos longe de ver inscrito como um direito  do homem, o direito às pulsões, a seu gozo em si. O gozo passou a ser uma questão de  política, o que era da ordem privada se tornou publico e a psicanálise não pode mais  manter a mesma distancia da política como o fez no século das ideologias. "Está em  jogo, um vasto movimento, um destino da modernidade”. (MILLER, 2003, p.122) 

 

E Miller aponta o dedo na direção da ciência, como o fez Lacan de 1973, na  declaração à France Culture. “O discurso da ciência tem consequências irrespiráveis  para o que se chama a humanidade. A psicanálise é o pulmão artificial com a ajuda do  qual tentamos assegurar o que é preciso de gozo no falar, para que a historia  continue." E Lacan continua: “se não fosse o estado de insuficiência e de confusão  onde estão os analistas, o poder político já teria colocado a mão nele” (LACAN, Le Coq-Héron, 1974, nº 46/47, p. 3-8 - Declaration à France Culture) 

 

Lacan, naquela entrevista, vai mais, longe, alertando aos analistas que ficar na  mão do poder político, retiraria deles qualquer chance de ser o que eles devem ser. O  que devem ser os analistas? "Compensatórios", dirá Lacan – os que trabalham para  que não falte o ar. Operadores da subtração. Em verdade, desde o seu inicio, a força  política da psicanálise recolhe seus efeitos exatamente por destituir a crença na solução universal, no pensamento único, diluindo as identificações em massa,  sustentando a vitalidade de um furo operante, um vazio pulsante. Portanto, lá onde  vigora a fórmula para todos a operação analítica, subverte, para que possa acontecer  por essa brecha a solução de cada um. Operar como “pulmão artificial”, palavras de  Lacan, é abrir lacunas para passagem no falar de um gozo singular, assegurar esse  direito de se manter vivo, frente ao poder asfixiante e normatizador do discurso da  ciência. 

 Isso quer dizer que a operação analítica, a psicanálise é contra a ciência? Claro  que não! Aliás, a psicanálise é consequência da emergência da ciência, "ela mesmo  seria impensável antes da idade da ciência". (MILLER, 2003, p. 110) 

 Na ultima conversação que fizemos no Instituto, Jesus Santiago levantou uma  pertinente questão: Será que poderíamos falar de discurso da ciência? Ou só podemos  falar de discurso da ciência quando esta está enodada ao discurso capitalista. Essa  brecha que Jesus introduz entre discurso e ciência pareceu-me fundamental para  nossas elaborações quanto a política da psicanálise na era do direito ao gozo, pois não  me parece que podemos enfrentar os impasses trazidos por esse tema sem tocar na  ciência e no discurso capitalista. 

 A partir desse ponto de inflexão, lançado por Santiago, lembrei-me da leitura  recente que refiz de Jean Claude Milner, por ocasião dos Fóruns psis. Ele vai dizer  que “o cientificismo reduzido a si mesmo não deve fazer medo; as leis do mercado,  também, podemos fazer bom uso dela. Mas quando a gente combina um com o outro,  quando a gente os confunde, um monstro surge.” E se ai juntarmos a administração, encontraremos o estado atual da nação que se sustenta por esses três vetores: o  cientificismo, a ideologia de gestão guiadas pelas leis de mercado e a regulação  administrativa ilimitada. Segundo Milner, uma única palavra mestre faz o laço entre eles: a avaliação. 

 “O avaliador administrativo tem todos os direitos e reinvindica o direito ao  respeito, pois ele faz tudo a luz da ciência. O cientificismo o garante. O  avaliador comerciante/mercadológico tem todos os direitos , não somente aquele do mais forte, mas também o do mais sábio, ele faz tudo em nome do bem publico. O grande funcionário o garante. O inventor de regulamentações, tem todo o direito, sobre os corpos e sobre as almas, sobre as coisas e sobre os homens; a lógica cientifica e a lógica contábil o garante.” (MILNER, 2003, p. 9) Essa tríplice aliança, entre a ciência, o mercado e a administração pública parece então transformar e reunir cada um desses campos em um só discurso, o capitalista, que gira tendo como agente os diversos índices do "mal viver", na promessa de produzir e distribuir o bem viver para todos, escala infinita. 

 Jorge Aleman, recentemente numa entrevista ao Jornal Clarin (26/04/2012), também procurou distinguir a concepção primeira de ciência e o que ela se transformou. Ele dirá que “a ciência -no sentido moderno de sua acepção – tinha alguma relação com a verdade. Na experiência da ciência estava o descobrimento, a subjetivação, a fundação de um novo lugar. Através da ciência sempre aparecia um novo objeto no mundo.” Contudo, ele destaca que parece ter havido uma mudança sensível aos que bem observam as reversões da historia. Hoje, a ciência acontece menos no primeiro sentido de sua acepção, pois testemunhamos um investimento maciço em uma prática científica de caráter protocolar, acéfala, aquela que está empenhada em produzir tecnologia. Mas a ciência não é uma técnica, afirma Aleman. 

 “A técnica não tem nenhum objeto. Ao contrario, é a integração de todos esses 

saberes a serviço de destruir a impossibilidade, a serviço de produzir um novo 

tipo de realidade onde o impossível não tenha lugar. Na ciência havia 

impossível, havia limite." (http://www.revistaenie.clarin.com/rn/ideas/JorgeAleman-

politicas-en-Lacan_0_689331306.html) 

Digamos que a relação entre ciência e verdade, na acepção primeira do termo, alcançou o que Lacan explicita no sem. XX: “na verdade, ha o gozo”. Frente à esse impossível, Miller afirma que a ciência franqueou os limites deixados por Descartes, a saber: não tocar na religião, na moral e na política. Desde então, a partir dessa aliança, a ciência tornou-se outra coisa: um serviço de utilidade pública. O que abriu o mundo a uma nova desordem. O mundo hoje não é mais freudiano, ele é lacaniano. E a tarefa incessante da falsa cientifica, não é mais lançar um novo objeto, mas fabricar em serie, infinitas réplicas do único objeto que interessa: o objeto a no Zênite social. 

Talvez, seja desde essa virada, visando eliminar o impossível e alcançar o  ilimitado infinito, que vimos um desenvolvimento cientifico desenfreado visando novas tecnologias – tecnologias voltadas para fabricação de toys para satisfação do imperativo de gozo. A lista é sem fim, vai desde medicamentos, instituições de monitoramento e controle, até ipads nova geração do infinito Google. 

O impossível parece ser possível. A resposta dos governantes e das suas comissões científicas, em escala mundial, tem alimentado a aceleração do sistema burocrático e tecnológico de gestão dos corpos – a biopolitica. Essa aceleração, segundo Célio Garcia, impulsiona um mundo que não pára para pensar, não tem tempo a perder -o que produz, por efeito, respostas precárias do ponto de vista simbólico, mas exuberantes atuações e compulsões. A clínica dos novos sintomas a comprova. Contudo, em resposta, esses sintomas dessa época tem sido avaliados e 

contabilizados em manuais cada vez mais excessivos nos termos das suas classificações, gerando uma produção infinita de pílulas pela indústria farmacéutica cuja turbina não cessa, sem parar. Recurso importante com o qual o projeto de uma sociedade de controle tem sido levado adiante. 

A medicalização generalizada é um exemplo, mas de modo geral, somos bombardeados cotidianamente por programas de governo que visam a eficácia no controle das populações, cuja promessa é distribuição da felicidade para todos. Sobre prometer o bem, a experiência analítica nos ensina que isso leva ao pior. 

 Miller nos lembra, que não encontramos em Lacan nenhuma palavra que nos fizesse pensar que ele entretinha-se com a idéia de alguma cidade radiante, fosse ela encontrada no passado ou vislumbrada em algum lugar futuro. Sem nostalgia, mas também sem esperança. Aos olhos de Lacan, a política joga com a identificação, ela manipula os significantes mestres, e é por ai, ela procura capturar o sujeito. A parceria com os mestres está ai. Lacan concebeu o discurso do mestre como o avesso do discurso da psicanálise, pois a psicanálise vai contra as identificações do sujeito, ela os desfaz uma a uma, as faz cair como as cascas de uma cebola. (MILLER, 2012a) 

Para Lacan, a psicanálise é o avesso da política, da ciência, de tudo que conspira a favor do discurso do mestre e da produção em massa. O acontecimento Lacan, imprime no espaço público, uma desconfiança para com os ideais, os sistemas, as crenças e as promessas que a falsa ciência produz e que se espalha feito pólvora no campo da política. O psicanalista quando é analista, não é um crente, não segue a procissão. Ele leva o sujeito à sua vacuidade primordial, a um saber fazer com os furos que a linguagem faz no corpo, como modo de acessibilidade ao seu direito ao gozo. Pois sabemos que o modo de satisfação, as soluções sintomáticas se demonstram, um por um, sem igual e não encontram-se nas prateleiras, nas vitrines ou portal de teses. Sem predição ou prescrição. 

Concordo com Miller (2012b) que a medida que a sociedade de controle é reforçada, impasses inéditos dão à psicanálise uma nova urgência, tanto ao nivel terapeutico quanto àquele do pensamento. Se no momento atual não basta mais cochichar no ouvidos dos príncipes, tomaremos a palavra para fazer vacilar os semblantes, deslocando o empuxo maciço da oferta higienista, mercadologica, normativa e homogeneizante que leva ao pior. Não temos a resposta sobre o que é o bem, qual é a solução, etc. A resposta política da psicanálise são os testemunhos públicos do passe e os fóruns de orientação lacaniana, contribuindo junto aos demais atores na construção de soluções mais arejadas e que deixem espaço para a invenção de um por um. 

"Aquele que pratica a psicanálise deve, logicamente, querer as condições  materiais de sua prática. A primeira, delas, é a existência de uma sociedade civil  stricto sensu, distinta do Estado. A psicanálise não existe ali onde não é permitido  praticar a ironia. Não existe ali onde não é permitido questionar os ideais sem sofrer  por isso. Em consequência disso, a psicanálise é claramente incompatível com toda  ordem totalitária. Ao contrário, a psicanálise faz causa comum com a liberdade de  expressão e com o pluralismo." (MILLER,2012a)

http://ebp-sp.blogspot.com.br/ 2012/05/anguille-en-politique-jacques-al...

 

Nenhum voto

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.