Não é Julieta quem quer

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Fácil mesmo é saber que devemos fazer o café com a água fervendo, que o molho do macarrão deve cozinhar para perder o gosto do tomate ou que a chuva cai sempre quando estamos sem sombrinha. Não é uma tarefa especialmente difícil amarrar o tênis, lavar o cabelo ou regar uma flor. Mesmo que possamos escolher se o café é mais amargo ou não, não, não é tarefa difícil. Quando um dos meus escritores preferidos, o Lobo Antunes, lançou um livro com o título "Não é meia noite quem quer", algo foi explicado para mim, algo que não pertencia à categoria das coisas fáceis como abrir um lata de atum mas também não era tão difícil. "Não é quem quer" passou a ser uma categoria de avaliação das coisas da vida. Essas que são difíceis mas também são parte de um molho de macarrão, um vinho ou uma flor na varanda. Sabemos de muitas pessoas, algumas vezes, muito mais do que elas, elas mais que a gente, quem vai dizer ou escutar o quê já pode ser motivo de discórdia. Muitas pessoas sabem muito de como fui bailando pela vida e então eu posso dizer "você sabe, é como sou". E para ela eu nunca pude dizer isso "você sabe, é como sou", eu não sou exatamente há tanto tempo assim, para ela, para que possa dizer assim, com segurança. Coisas de amizades recentes, essas em que não cabe o "você sabe, é como sou". E há algo sobre as amizades recentes que é muito bom que é a possibilidade de sermos muitos sem nos preocupar em sermos quem, no fundo, somos. É como um olhar distraído para aquilo que não é tão conhecido mas parece certo. Essas pessoas por quem nos encantamos mas que não sabem de todo o peso de cada palavra nos ensinam a voltarmos a ser leves com elas, nossas palavras. Eu acho que ela faz isso comigo. E veio de encontro com o "não é quem quer" porque qual medida teria eu, tão avessa às novas amizades, para ela, que faz da profissão uma constatação da pluralização na qual cada um cabe? Porque ela pode ser muitas e porque me ensinou que amizades recentes trazem um algo novo encantador à vida, é que dois senhores no meio da madrugada a colocaram como Julieta em uma bancada. Coisas de um vinho, uma piada, uma sacada, uma brincadeira, um italiano que só é falado bem se um pouco embrigado. Desde então eu uso essa medida para ela, ela nem sabe, saberá agora, com esse texto. Porque há o fácil, há o difícil e há aquilo que nos faz sermos muito agradecidos. Restabelecer a fé em novas pessoas vacilaria entre tudo isso mas seria pouco. Diante da pergunta tão comum às mulheres, eu faço "mas por que sou assim?" e ela pode responder: "mas por que?". Quando a mediocridade não é uma escolha, é uma rejeição, eu sei, nesses momentos, eu sei melhor que isso. Sei que não se nasce Julieta. Julieta é para poucos. Não é preciso uma sacada para ser Julieta. Eu sei melhor que isso. Não é Julieta quem quer.

Esse texto é para a Juliana Barreto, uma nova amiga, Julieta.

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