Pequeno fragmento sobre um homem e uma mulher

           Como algo que está debaixo d´agua e chega à superfície, ofegante, era para ela o amor. E ela não o recusaria assim, mãos tão densas em seu dorso macio. Nem ao menos se pudesse dizer mais do que aquilo que em seu corpo habita, pulsante: o desejo. Sua barba displicente que faria mais do que borbulhas em seu coração. Qualquer inseto que, sutilmente, entrasse em sua janela e se sentisse perdido sem ver a porta de saída. Ele era a saída. O homem. Ele, o inseto. Quaisquer que sejam os caminhos, eles trazem em si sua perdição. Ela o sabia. Vivera mais do que ele. Sabia de segredos que não podia compartilhar, não que ele não soubesse cuidar do que mais íntimo há em uma mulher. Ela não o sabia bem. Do homem. Mais do que seu olhar de relance ou suas botas encardidas, brincando de serem novas. Havia mais, sempre há, é um fato que ela já vivera. Não há homem de barba feita ou criança de barriga vazia que não saibam o que é a dor. E não há recusa para o que vem dela: o amor. E uma vitrola tocando, ao longe "Pedro Pedeiro", e ela também o esperava, com o olhar que de tão resignado, não se decidia se era dor ou amor. As palavras, as não ditas, que mostravam o mais inevitável da vida, as unhas bem feitas, em excesso. Como algo que transborda, era, para ela, o amor. E ela, de nome de poetisa, não sabia mais se Cecília, Lígia ou Rita. Eram várias as mulheres que nela habitavam, ele não o sabia. Mas sabia do que todo homem deveria: suas pernas, bronzeadas, que cruzavam em um só tom. Como algo que pulveriza, era para ela, o amor. E ele pouco o sentia, mais um pouco quando ela se produzia toda, e despia suas várias máscaras pelo quarto, o cigarro queimando sozinho e ela o beijando suavemente como quando se entrega. Como algo que se entrega, era para ela, o amor. E, na vitrola, que agora não mais tocava, e o cigarro que não mais queimava, ela o esperava em sua fantasia, de botas encardidas e a barba por fazer. Como algo que espera, era para ela o amor. E ela assim o fazia, o esperava, de barba disciplicente, era para ela, o amor.

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