Sapos e Afogados

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Haveria quem, um dia, pudesse acreditar em um mundo melhor. Não porque nosso maior ofício, essa lida diária da vida, seja especialmente fácil ou, quem sabe, ordinariamente feliz. Haveria quem, quase todos os dias, pudesse acreditar em que mundo em que todos os tons de cinza se encerassem. Que bastasse. Que não se prolongasse. E que fizesse tudo isso com suas próprias palavras, essas que sempre se ascendem do lado de fora.

Haveria quem, um dia, pudesse saber que as pessoas escolhem caminhos tortuosos porque eles também são legítimos. É trabalho árduo ser feliz, um tanto de trabalho, um tanto de sorte. Impossível, assim, em um mundo de tanta gente, dizer que a vida seja de uma maneira ou de outra. E, um tanto cruel, estabelecer parâmetros de ação, normalidade, boas condutas. Um mundo, tantas vezes, ávido por eleger os loucos e os maus e, claro, todos os outros não têm nada com aquilo. Como se pudessem jogar em uma pessoa, um rótulo ou um ato (por mais terrível que ele seja) tudo o que de nós não queremos admitir. Ele é louco, não eu. Ele é um bandido, não eu. Quanto mais tentamos nos afastar de algo dessa maneira é porque mais medo temos daquilo por nos sabermos parecidos.

Que a gente possa escolher bons caminhos para a felicidade. E que possamos ser felizes, com esforço ou não, na maior parte do tempo e da vida, um desejo bonito. Eu que não rezo julgo que esse desejo seria uma prece que faria, todos os dias pela manhã. Caso rezasse, claro. Porque desconfio que só quem sabe que a vida não é todo o tempo suave é que conseguiu, depois, sabê-la bonita. Um percurso com roteiro. Muitas vezes, sem roteiro nenhum. Tiram-nos o chão. E persistimos, muitas vezes, em um percurso sem roteiro. Um voo guiado e não às cegas.

Porque acho tudo isso e acho que a vida é bonita e que me sinto com tanta sorte que eu que não rezo, por vezes, rezo em agradecimento. Por não precisar afastar de uma maneira cruel aquele outro que, como você, tem suas dificuldades com as quais você se parece ou não. Sou otimista, sempre o fui, mas me tornei mais ainda depois de tropeçar um pouco. Ser  (é) uma arte. Uma palavra que não é vazia.

O que me faz pensar que todos somos um tanto quanto sapos e afogados. Em alegrias e tristezas que dão o tom do tempo, o da vida. Dias vagarosos, corridos, pro bem ou para o que não o é . Pulando, assim, pulando assim. Pulando. Assim.

O que quero contar é dessa experiência que tive quando pela primeira vez vi o grupo de teatro “Sapos e Afogados” em uma intervenção em um mercado distrital de um bairro de Belo Horizonte.  Por achar que a arte, a do viver, a do sonhar, a dos que fazem dela profissão. Os que fazem dela resgate e salvação. Barulho apreendido em mim. Essa, a arte, que nos faz ir mudando, esclarecendo, enchendo de sentidos o que não antes, tirando o que muito antes, dizendo “é isso, eu sei” quando achamos que é “não, ninguém sabe”. A arte, maneira de viver, que me resgatou e que de mim se apreendeu para me fazer livre.

O que vi no Mercado Distrital, este que vou desde minha infância, foi uma profusão de cores, sons e sorvetes de um Grupo que nasceu a partir de oficinas com usuários da rede da saúde mental de Belo Horizonte. Foi o que me deu essa nomeação que faltava, o percurso. E, por isso, serei sempre grata. Porque isso que desejamos: que cada um possa ser o que é pois o mundo é grande o bastante para acolher todos. 

Sapos e Afogados parece uma casa. E temos muitas habitações. Eu tenho. Que a arte possa tocar a cada um: eis seu verdadeiro valor. Transformar vida em vida. Loucura em arte. Preconceito em amor. Admiração. Vida gerando vida. Nada de ruim consegue sair disso. Haveria quem, um dia, pudesse acreditar em um mundo melhor. Sapos e Afogados, um olhar para um brejo que cabe todos. Eu pulo. Dentro!

Sapos e Afogados é um Grupo de Teatro belo-horizontino.

Para maiores informações:

http://saposeafogados.blogspot.com.br/

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