Uma metralhadora de palavras

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                 Era um ar que se respirava, algo como um suspiro, que o fazia derrapar. Entre as ladeiras, os pés tão cansados como tudo que se cansa na vida e um momento de sossego. Pouco se entendia, quando o mundo assim como que se deslizava nos morros em que vivia. E passava por seu corpo, sua febre e os momentos de dor. Como fazer caber. Fazer ceder. Cedia-se demais e, por isso, mais dor e menos amor. E as palavras mal saiam em frases atravessadas por tiros e silêncio. Instalava-se um diálogo onde menos se esperava, que viessem assim com metralhadoras onde, para ele, residia uma flor. Mal entendia. E muito sabia. E sabia tanto que muito mais que qualquer outro que o escutasse. Sempre o sabem mais, as crianças, mesmo que vivam como ele, entendendo a justiça às avessas. Que viessem assim, displicentes, como se a vida não passasse de mais uma folha do obituário. Ele se negaria. Disporia da sua, a faria onde para ele residia o amor e não mais a dor. Conversa de polícia onde não se mete ninguém e os deixaria assim, em seu amor infantil, pela vida mesmo que fosse assim uma corrida contra o tempo. Curto para ele se assim acreditasse. Anos mais tarde, acreditaria que curta era a vida para os que muito desejam. Um sonho. Que tudo se fosse e nunca mais voltasse. E o mundo que para ele era a escola e o trabalho, interditados assim: a justiça às avessas. O aviso de que hoje não tem aula, as notícias do bairro, a cegueira da gente. E que tenha aprendido os caminhos tortuosos muito cedo e o pés cansados muito cedo e o relógio a despertar muito cedo. Muito cedo e um sonho. Que viessem metralhadoras quando ele se armava de flores. E, uma a uma, as colocava como um escudo em que nada pudesse penetrar de ruim em seu corpo que fibrilava de dor. Sem sugestões de ortografia, o vocabulário era curto como o tempo se assim acreditasse. E o menino, aquele, sabia mais de lustrar sapatos do que qualquer um que o escutasse. E sabia das flores e as palavras, mal ditas no silêncio que as precede.Era como um ar que se respirava, algo como um suspiro que o fazia deslizar nos morros em que vivia: uma justiça às avessas. E que ele também não fosse junto, um desejo e um sonho. Não ser ferido. Que viessem com metralhadoras, ele já havia se armado de palavras e as despejaria assim, pouco a pouco, como flores caídas no outono das árvores. Palavras malditas as que escutava: a justiça às avessas. Elas que fizeram as deles: mal ditas sem sugestões de ortografia.  E a frase que mal saía escolhia a briga e não a paz. Malditos, que venham com metralhadoras. Ele, de relance, as via como quem faz um desdém da vida. Ele já havia se armado, pouco a pouco, a frase que mal saía e as palavras que viriam o proteger como um escuto. Ele já se armara e amara: elas, as palavras malditas. Que seja tudo um mal entendido, caso a se abafar: justiça às avessas. Não se atreveria a tanto se fosse um adulto. Criança que era sabia que o mundo era um lugar muito obscuro e não havia maneiras de se viver sem ser vivendo, mesmo que o corpo se convulsionasse e o Atlético perdesse. Que venham eles com a justiça às avessas. Ele podia a desentortar como bem quisesse, o mundo era dele. Era algo como um suspiro. Que venham com os metralhas, justiça. Conversa de polícia onde não se mete criança. Ele já estava armado de flores e palavras. Matriculado, armado e escrito. Que se derrame uma a uma como só uma criança pode fazer. A corrupção que o confundia mas não o deixaria do avesso. Ele já estava armado.

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