Uma cidade inviável

São Paulo, cinco da tarde, sexta-feira. Chove um pouco lá fora, nada demais.

Ligo para o meu técnico. Deixei o computador lá ontem, para uma revisão. Telefono e está pronto. Fica aberto até as seis. Olho o relógio: da Bela Vista até a Santa Ifigênia é um pulo. Lá vou eu.

Pego um táxi, desço a Brigadeiro. Lá embaixo, a Sé virou Catedral do Inferno: tudo parado. E parado vai até a Rua Boa Vista. Cinquenta minutos para uma titica de trajeto. Desço do táxi na esquina da Boa Vista e faço o resto a pé. Vinte e cinco reais descem pelo ralo.

Chego molhado às seis e cinco. O técnico compreendeu e me esperou. CPU ok. Agora é só voltar.

Metrô entupido. Ruas escuras no Centro Velho - cadê as lâmpadas? Vou voltar de táxi, cadê? Subo debaixo de chuva da Santa Ifigênia até a Pedroso, de volta. Avenida Liberdade cheia de entulho e buracos, sem sinalização, as pessoas se espremendo entre as obras e as calçadas quebradas, vão pela rua, os carros passam bem perto. Mais lâmpadas apagadas. No viaduto Liberdade, vejo a Vinte e Três de Maio: uma longa fila amarela para lá, uma longa fila vermelha para cá, tudo parado.

Chego em casa, sete da noite. A Pedroso está um breu. Ensopado, carreguei dez quilos de equipamento ruas escuras e esburacadas afora. Quem precisa de academia?

Agora, são dez da noite. Lá fora, as buzinas continuam. Gente cansada querendo tocar sua vida em direção ao fim de semana. Um dia, essas pessoas vão perder a paciência, eu incluso. Ah, se vão. E, desta cidade, nada vai restar, só o vento que passa por ela.

Imagens: 
Bertolt Brecht
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