Contra o fim do Mané Garrincha - contra a destruição de sua memória

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No início de julho, duas empresas ganharam a licitação para a construção do estágio que abrigará em Brasília a Copa do Mundo de 2014 (aqui: http://www.brasilia2014.com.br/projetos/andrade-e-via-vencem-licitacao-d...). A imprensa não vem dando destaque a isso que chamaria de produção do esquecimento: o estádio Mané Garricha dará lugar ao novo "Estádio Nacional de Brasília". Brasília, a capital-poder, um lugar de memória (da memória do Estado),   apagará de sua paisagem uma de suas marcas não ligadas ao poder do Estado. É uma pena. Mas vai bem com a onda de nosso futebol atual e com o modo com CBF-FIFA vem impondo a Copa no Brasil. De fato, Mané Garrincha não serve para a memória do poder do Estado.

Será que deixaremos de fato ocorrer esta barbaridade? Aceitaremos passíveis a este desmando que será feito com dinheiro público? Devemos mesmo nos esquecer de Mané Garrincha? O que deve e não deve ser lembrado do passado? Não precisamos de um novo Mané para poder continuar a sonhar, como queria Drummond? Ou devemos nos contentar com o discurso corrente de que só é possível o que pode ser feito? Quanta pobreza! É a mediocridade de uma Assembleia Legislativa que conhecemos muito bem no ano passado.

Saudades do Mané que não vi jogar.

 

 

 

A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.

Mané Garrincha foi um desses ídolos providenciais com que o acaso veio ao encontro das massas populares e até dos figurões responsáveis periódicos pela sorte do Brasil, ofertando-lhes o jogador que contrariava todos os princípios sacramentais do jogo, e que no entanto alcançava os mais deliciosos resultados. Não seria mesmo uma indicação de que o país, despreparado para o destino glorioso que ambicionamos, também conseguiria vencer suas limitações e deficiências e chegar ao ponto de grandeza que nos daria individualmente o maior orgulho, pela extinção de antigos complexos nacionais? Interrogação que certamente não aflorava ao nível da consciência, mas que podia muito bem instalar-se no subterrâneo do espírito de cada patrício inquieto e insatisfeito consigo mesmo, e mais ainda com o geral da vida.

Garrincha, em sua irresponsabilidade amável, poderia, quem sabe?, fornecer-nos a chave de um segredo de que era possuidor e que ele mesmo não decifrava, inocente que era da origem do poder mágico de seus músculos e pés. Divertido, espontâneo, inconseqüente, com uma inocência que não excluía espertezas instintivas de Macunaíma — nenhum modelo seria mais adequado do que esse, para seduzir um povo que, olhando em redor, não encontrava os sérios heróis, os santos miraculosos de que necessita no dia-a-dia. A identificação da sociedade com ele fazia-se naturalmente. Garrincha não pedia nada a seus admiradores; não lhes exigia sacrifícios ou esforços mentais para admirá-lo e segui-lo, pois de resto não queria que ninguém o seguisse. Carregava nas costas um peso alegre, dispensando-nos de fazer o mesmo. Sua ambição ou projeto de vida (se é que, em matéria de Garrincha, se pode falar em projeto) consistia no papo de botequim, nos prazeres da cama, de que resultasse o prazer de novos filhos, no descompromisso, afinal, com os valores burgueses da vida.

Não sou dos que acusam dirigentes do esporte, clubes, autoridades civis e torcedores em geral, de ingratidão para com Garrincha. Na própria essência do futebol profissional se instalam a ingratidão e a injustiça. O jogador só vale enquanto joga, e se jogar o fino. Não lhe perdoam a hora sem inspiração, a traiçoeira indecisão de um segundo, a influência de problemas pessoais sobre o comportamento na partida. É pago para deslumbrar a arquibancada e a cadeira importante, para nos desanuviar a alma, para nos consolar dos nossos malogros, para encobrir as amarguras da Nação. Ele julga que entrou em campo a fim de defender o seu sustento, mas seu negócio principal será defender milhões de angustiados presentes e ausentes contra seus fantasmas particulares ou coletivos. Garrincha foi um entre muitos desses infelizes, dos quais só se salva um ou outro predestinado, de estrela na testa, como Pelé.

A simpatia nacional envolveu Mané em todos os lances de sua vida, por mais desajustada que fosse, e isso já é alguma coisa que nos livra de ter remorso pelo seu final triste. A criança grande que ele não deixou de ser foi vitimada pelo germe de autodestruição que trazia consigo: faltavam-lhe defesas psicológicas que acudissem ao apelo de amigos e fãs. Garrincha, o encantador, era folha ao vento. Resta a maravilhosa lembrança de suas incríveis habilidades, que farão sempre sorrir a quem as recordar. Basta ver um filme dos jogos que ele disputou: sente-se logo como o corpo humano pode ser instrumento das mais graciosas criações no espaço, rápidas como o relâmpago e duradouras na memória. Quem viu Garrincha atuar não pode levar a sério teorias científicas que prevêem a parábola inevitável de uma bola e asseguram a vitória — que não acontece.

Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.

  

 

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Publicado no Jornal do Brasil, em 22 de janeiro de 1983, dois dias após a morte do craque.

 

http://www.germinaliteratura.com.br/sibila2005_manesonho.htm

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imagem de marlon

Contra o esquecimento do inesquecível Garrincha, posto aqui a coluna escrita por Tostão, publicada na FSP no dia 4 de abril. E não falo do esquecimento no sentido banal como escrevo "inesquecível Garrincha". Falo de uma decisão concreta e real.

Aliás, Tostão só poderia ficar ao lado de Drummond. Não por terem a mesma origem mineira. Mas por terem o mesmo talento com as palavras em suas crônicas.

 

Menino passarinho

Cada vez mais, o drible tem sido substituído pelo passe tecnicamente correto, burocrático e sem riscos

ASSIM COMO o gol define o resultado, muitas vezes sem explicá-lo, e o passe representa o futebol solidário e coletivo, o drible simboliza o talento individual e o estilo lúdico de se jogar.
O placar nem sempre representa a verdadeira história de uma partida. Pelas chances perdidas, o Barcelona poderia ter dado uma grande goleada no Arsenal, em Londres.
O Barcelona jogou tão bem, até a metade do segundo tempo, que o resultado foi um detalhe pouco importante para quem queria ver um bom futebol, sem torcer.
O drible tem sido, progressivamente, substituído pelo passe, tecnicamente correto, seguro e, cada vez mais, curto.
Os treinadores de todo o mundo adoram ensaiar jogadas aéreas e fazer treinos de dois toques.
O jogador domina e passa.
O drible é a demonstração de habilidade diante de um marcador. É a união da técnica com a habilidade, do futebol prazeroso com o objetivo. O drible é a melhor maneira de se passar por uma retranca. Quando o marcador é driblado, abrem-se grandes espaços na defesa, ainda mais se a marcação for individual.
O drible mais frequente é quando o jogador toca a bola, para pegá-la mais à frente. Nem considero um drible. É uma ação técnica, de velocidade e força física.
Kaká é o mais eficiente nessa jogada, principalmente quando cai pelos lados, onde há mais espaços.
O drible da vaca, ou gaúcha, quando o jogador toca e pega a bola atrás do adversário, é uma variação do drible anterior.
Os mais belos e verdadeiros dribles são lances de astúcia. Alguém já disse que o grande driblador dá aos pés a astúcia das mãos. O drible é a ginga de corpo, sincronizada com os movimentos dos pés.
O driblador finge que vai perder, dar a bola para o marcador, e a recolhe, no instante exato. A finta seria o drible de corpo sem tocar a bola.
"Vai para um lado que eu vou para o outro". Assim Robinho batizou aquele seu drible no jogo contra o Equador, no Maracanã.
Alguns comentaristas disseram que o drible de Robinho foi espetacular porque resultou em gol, de Elano. Não precisava. Fazemos muitas coisas na vida somente pelo prazer, sem nenhum objetivo.
No drible elástico, popularizado por Rivellino, a bola, colada nos pés, vai de um lado para o outro, como se fosse um imã. Se a ciência fizesse um estudo microscópico, veria que o driblador brinca de colar e descolar a bola dos pés.
Garrincha se tornou o símbolo do drible, como Gérson é do passe. Garrincha tinha dois tipos de drible.
Em um, adulto, Garrincha, em uma fração de segundos, driblava, olhava e colocava a bola para o atacante, livre, marcar o gol. Era a união da brincadeira com a seriedade.
Em outro, o drible infantil, ele bailava, de um lado para outro, às vezes sem tocar na bola.
Desconfio que a maioria gostava mais do drible infantil, pelo descompromisso com a objetividade e com a realidade. Garrincha e os torcedores se divertiam juntos.
Quando um menino constrói um castelo, ele não sonha em ser um rei. Ele é um rei.
Quando Garrincha brincava, ele não sonhava em ser um menino, um passarinho, ele era um menino, um passarinho, um garrincha.

 

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