Má Educação

Autor: 

 


Aqui nessa casa ninguém

quer a sua boa educação

nos dias que tem comida

comemos comida com a mão...

(Arnaldo Antunes)

 

            Poucas expressões possuem seu sentido tão vilipendiado cotidianamente quanto “educação”. “Ai, que menino mal educado!”, “Que falta de educação!”, “educação vem de berço!” “não te deram educação?”. Na maioria destas situações, o termo é confundido com cortesia, cordialidade, fineza, gentileza ou “bons modos”. É claro que, para muitos, tais elementos integrariam aquilo que se considera uma boa educação, tanto entre a classe media quanto entre os mais pobres. Para outros, ao contrário, educação nesse sentido (de cordialidade) é apenas aquilo que a elite europeia e euro-brasileira esperava receber como tratamento do restante da população, indígena, cabocla e afrodescendente, apesar da recíproca, nem de longe, ser verdadeira. Deste modo, quer pelo reducionismo de uns, quer pelo paradoxo de outros, há um fosso entre “educação” no sentido como é usualmente adotado e “educação”, enquanto conceito amplamente utilizado pela literatura especializada, cuja raiz localiza-se na língua grega (ex - para fora + duca – trazer). Assim, quem educa, ao invés de meramente ensinar “regrinhas” de convivência pré-existentes, deve contribuir para o máximo desenvolvimento do potencial inerente a cada ser humano.

              Outras confusões ocorrem no uso dos termos “educação” e “educação escolar”. Tal confusão alimenta o mito de que certas escolas privadas são capazes de tornar seus alunos “mais educados” do que aqueles que estudaram em outros tipos de escola. Nestas instituições, que, tradicionalmente, constituem-se por um público pouco diverso, de jovens branc@s de classe media e que são submetidos a forte conteudismo e pouca noção de limites, seus estudantes, nem de longe, parecem capazes de tratar com cortesia seus(uas) professores(as), empregad@s doméstic@s e outras pessoas, sobretudo, as mais pobres. Paradoxalmente, costumam exigi-lo com aspereza das mesmas pessoas.

     Tais observações podem conduzir a três conclusões: 1) educação não guarda relações diretas com a diferença de classes sociais; 2) tampouco pode ser reduzida ao processo escolar e; 3) a convivência com pessoas de diferentes origens sociais contribui para uma educação de melhor qualidade.

     Os protestos pedindo o impeachment da presidenta Dilma Roussef, ocorridos na semana passada, pareceram evidenciar não somente esta falta de cortesia com aqueles que não pertencem ao seleto grupo de manifestantes, como também a falta de educação, em seu sentido mais acadêmico, a ponto de a classe media, vergonhosamente, evidenciar, para o restante da população, tamanha despolitização, tamanho desconhecimento da história e um uso tão precário da norma padrão do português brasileiro quanto seria de se esperar de pessoas com baixa escolaridade ou, alternativamente, que não foram aquinhoados com boa educação escolar.                                                                                                                    

            O futuro da educação brasileira, tanto a escolar quanto aquela que ocorre em outros espaços, dependerá, para conseguir superar este quadro desfavorável que atinge - como se vê, a todos os extratos sociais da população brasileira,- como preconizado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais e outros documentos oficiais, de uma educação voltada para a diversidade cultural brasileira. Atualmente, poucos elementos das culturas indígenas e afro-brasileiras estão presentes, tanto no currículo da educação básica quanto no ensino superior, apesar da exigência legal e de sua onipresença no conjunto da cultura brasileira.

    Deste modo, deve haver, para a classe media brasileira, que guetifica e se guetifica, disposição para deixar de viver trancada em condomínios de luxo, shopping centers e escolinhas de playbas e dondocas. Andar de ônibus, de metrô, frequentar espaços populares, utilizar o serviço público de saúde, matricular seus filhos em escolas públicas podem ser medidas importantes para iniciar esta empreitada.

    A educação brasileira agradece.

Média: 4.7 (3 votos)

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.