O verão de 2010 ou, o momento em que Serra vacilou

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Aviso aos navegantes

O interesante post aqui no blog "O que poderia ter sido de Serra e não foi"  me fez lembrar de uma trilogia que escrevi aqui em julho de 2011. Nela tentava refletir como Serra havia perdido a eleição para Dilma, apesar  ter estado tão próximo de ganhá-la. Mais próximo do que em 2012 contra Haddad.

Republico-o agora. O post começava assim:

Este é um post longo, dividi-o em partes, buscando torná-lo menos enjoativo. Provavelmente, também, contém erros factuais, já que escrevo basicamente de memória. Não tem a intenção de documentar a história, mas sim, questionar por que um político experimentado, após uma carreira longa, vacila no seu melhor momento.

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Lula, um enorme patrimônio sem herdeiro.

No verão de 2009 o PT tinha um enorme patrimônio, Lula e o governo Lula, e ninguém que pudesse assumir esse patrimônio.

O governo Lula era um sucesso inconteste. Pelo menos 20 milhões de brasileiros haviam deixado a linha de pobreza, com o crédito facilitado as classes C e D consumiam mais do que as classes A e B criando pela primeira vez um mercado de escala no país e obrigando os empresários a repensar suas estratégias de produção.

O Brasil era auto-suficiente em petróleo e o pré-sal permitia vislumbrar-se que em pouco tempo se tornaria um dos grandes exportadores de petróleo.

O PAC e o “Minha casa, minha vida” provocavam o apagão da mão de obra e, por conseqüência,  forçavam a formalização do emprego e o aumento dos salários e do poder aquisitivo da classe trabalhadora.

A eterna e impagável dívida externa havia sido paga e o Brasil se tornara credor do FMI.

Isso tudo com a inflação controlada e com Lula rindo-se da crise mundial de 2008. Aqui, o tsunami era marolinha.

No campo externo, o Brasil peitou os EEUU em Honduras, no NAFTA e na OMC e obteve vitórias nas três frentes. No G-20 era voz influente.

Tal condição de sucesso rendeu a indicação para sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Lula era “O cara”, causava inveja em Barack Obama e sentava-se ao lado da Rainha da Inglaterra.

No panteão dos nossos presidentes, Lula só poderia ser comparado a Getulio e Juscelino, tornando FHC a herança maldita do PSDB.

Já o petismo ia mal das pernas, não tinha mais nomes. Seus quadros foram queimados nos escândalos ou nas urnas. Talvez um dia venhamos a contabilizar o quanto o lulismo custou ao petismo.

José Dirceu, que no primeiro governo era dado como o sucessor de Lula e José Genoino, que chegou ao segundo turno para a disputa o governo de São Paulo, estavam mortos pelo escândalo do mensalão, e não eram os únicos.

Marta Suplicy inviabilizada por um governo impopular, uma derrota e um “relaxa e goza”. Mercadante e Eduardo Suplicy sem nenhuma apetência para o executivo.

Não, o grande PT paulista se esgotara, não sairia de São Paulo o nome do sucessor de Lula.

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Fora de São Paulo, 3 nomes, Patrus Ananias, José Pimentel e Tarso Genro. Somavam duas desvantagens, não eram nomes de escala nacional e tinham fortes adversários regionais.

Buscar uma solução fora do PT?

Ciro Gomes. Sem dúvida era fiel à causa lulista, mas, e quanto à causa petista? Além do que, Ciro era incontrolável e dava sinais contraditórios, tais como, aquela história de aceitar ser vice de Aécio Neves.

Lula, como um grande estadista, consolidou o modelo eleitoral ao se recusar a qualquer aventura de terceiro mandato. Como padrinho Lula elegeria até um poste, mas o PT não tinha poste a apresentar e, assim, até Serra poderia se candidatar a ser o melhor pós-Lula à disposição.

Ou seja, no verão de 2009 a sucessão de Lula estava aberta, apesar, ou em função, de Lula ser Lula. O grande Lula.

Dilma, a mãe do PAC.

Lula é um animal político de espécie superior, percebeu a sinuca de bico e fez uma jogada tão audaciosa que só os grandes mestres do taco teriam o tirocínio e a audácia de fazer.

Decidiu construir um sucessor começando do zero. Escolheu alguém tão desconhecido que ninguém poderia criticar, Dilma Rousseff.

E quem era Dilma? Ora, era a mãe do PAC.

Daí para frente tinha um ano e meio para convencer os brasileiros de que Dilma era o verdadeiro pós-Lula.

Serra jogou muito bem no início. Nada fez. O problema era de Lula. Impor um nome sem nenhuma tradição partidária a um partido que morre teso mas não entrega a rapadura e depois, ainda, amarrar Dilma na ponta de uma linha e empinar sua pipa mesmo sem vento.

Era esperar e nem ter de pagar para ver. Se algo desse errado, não haveria plano B e a vitória de Serra estaria assegurada antecipadamente por WO.

A tragédia sorri pela primeira vez para José Serra. A doença de Dilma mostrou, que realmente não havia plano B para Lula e para o PT.

A primavera de 2009.

Setembro chegou e trouxe a primavera e o momento de decisão para Serra.

E aí algo acontece com o político maduro que não percebe que chegou o seu momento.

Como foi possível tal vacilação, o que aconteceu? Não sei, mas algo aconteceu.

Dilma estava clinicamente curada, seu nome aceito e sua pipa começando a voar. Voar baixo, mas já se mantendo no ar.

Era a hora de Serra se lançar o como o candidato do PSDB, afinal ele era o governador de São Paulo e o governador de São Paulo é candidato natural à presidência. Além do que, era o mais velho com condições de se candidatar e, em política, tem fila.

A alegação de que era muito antecipado, que a campanha só começaria em 2010 não se mantinha e as pesquisa mostravam.

Mostravam Serra em primeiro, Lula em segundo e Dilma em um distante terceiro lugar, mas crescendo lentamente sobre o eleitorado de Lula.

Ora, Lula não seria candidato, apenas o eleitor desinformado, muitíssimos então, ainda não sabia. Era o eleitorado de Lula que estava em disputa. Se nada mudasse o quadro, aos poucos passaria a ser de Dilma, mas naquele instante era de quem convencesse esse eleitorado que seria o melhor pós-Lula. Ou seja, era sobre esse eleitorado que Serra deveria imediatamente começar a buscar corações e mentes.

O PSDB percebe, a imprensa conservadora percebe e gritam: “vai que é tua, Serra”, e Serra vacila.

Aécio e o vácuo.

A política é avessa a vacilação tal qual a natureza a avessa ao vácuo.

Acredito que Aécio sabia que em política há fila e respeitasse essa regra. Mineiro e sobrinho de quem é, não poderia ser de outra forma.

Mas Lula estava viajando o país costurando acordos e fazendo a pré-campanha antecipada de Dilma, os espaços do PSDB estavam cada vez menores e, então, no vácuo de Serra, Aécio se lança.

Nem assim Serra se mexe. O PSDB se desespera, a imprensa conservadora atônita com tal desinteresse e Serra só na vacilação. Por quê? O que ocorria com Serra? Não sei. Mas algo ocorria. Serra tem experiência demais para não perceber o que, a demais, era gritado pelo partido e pela imprensa.

Creio que o lançamento de Aécio foi um ultimato do PSDB a Serra.

Serra, duas alternativas e a terceira margem do rio.

E, para Serra, só havia dois caminhos a seguir.

Perceber que o momento era o momento dele, postular o lugar de pós-Lula e lançar se na campanha acreditando que de mineração e eleição só se sabe o resultado após a apuração. Tinha chances. O eleitorado ainda não conhecia Dilma, era um governador com ascendência sobre o maior colégio eleitoral do país, tinha na prefeitura da capital mais que um aliado, um escudeiro e, pela primeira vez desde sua fundação, o PSDB paulista estava unificado, à força, mas estava. Aécio, o governador amado do segundo maior colégio eleitoral poderia não ajudar, mas, naquele momento, não atrapalharia. A possibilidade de vitória colocaria o restante do PSDB a serviço e DEM e PPS não tinham escolha, além de dizer “sim, senhor”.

Poderia mostrar obras no Governo de São Paulo, o rodoanel, as novas linhas do metrô e as novas marginais e as realizações no Ministério da Saúde, os genéricos e a política de assistência aos doentes portadores de AIDS. Bastaria esconder FHC e se comprometer com o continuísmo das políticas sociais de Lula.

Nada difícil para marqueteiros e uma imprensa que já haviam elegido um “caçador de marajás”.

Bastaria, em um momento solene do PSDB ou do governo paulista declarar algo assim:

“O governador Aécio Neves tem uma qualidade que eu já não tenho mais, a juventude. Pode esperar mais 4 anos. Na convenção do próximo ano pretendo apresentar o meu nome como candidato à presidência da república”.

Pronto, a campanha peessedebista estaria iniciada.

Mas Serra não dizia nada. O Lula em plena campanha pró-Dilma e o PSDB paralisado.

Serra também poderia decidir que não dava mais, que Lula era imbatível, que realmente elegeria o poste. Nesse caso, bastaria ceder a vez a Aécio e assumir a candidatura de segurança que seria a sua re-eleição ao governo estadual paulista.

Aposentadoria?

Não exatamente, passaria os próximos 4 anos como o jogador veterano que deixa a bola correr e joga no erro do adversário.

Aécio, aos 50 incompletos, não teria nada a perder. Uma derrota lhe garantira, no mínimo, a presidência do partido e o recall da campanha alçaria seu nome em escala nacional preparando-o para 2014. E Serra, em uma improvável vitória de Aécio, teria cacife suficiente para obter um bom ministério para Alckmin. Além de, no governo de São Paulo garantir uma secretaria para Kassab após o fim do segundo mandato deste à frente da prefeitura da cidade de São Paulo.

Porque Alckmin e Kassab?

Porque eles seriam a continuidade do poder de Serra.

O acordo que levou Quércia a apoiar Serra deveria ter alguma contrapartida. É o mínimo que se espera em qualquer negociação política, ainda mais em uma negociação com Quércia. A chapa peessedebista em São Paulo seria esta: Serra – presidente, Kassab – governador, Alckmin e Quércia – senadores.

Para Quércia, a ressurreição. Qualquer que fosse o resultado das urnas, voltaria ao comando o governo municipal paulista através de Alda Marco-Antonio.

Para Kassab, um caminho natural após 4 anos como prefeito da capital e a melhor chance de não ter de compartilhar os destinos de Salim Curiati, Celso Pitta e Antonio Fleury Filho. Criaturas que não sobreviveram ao criador.

Para Alckmin e seu grupo, o retorno ao cenário político.

Ao invés disso, Serra optou pela terceira margem do rio. Não se assumiu candidato e iniciou uma campanha contra Aécio Neves que incluía desde notinhas no blog de Juca Kfouri até o inacreditável “Pó pará, governador” do Estadão. Passando obviamente por mais um dossiê.

Ter o jovem e amado governador do segundo maior colégio eleitoral como inimigo político, somado a Tasso Jereissati e a Sarney não é, por qualquer ângulo que se examine, uma prova de habilidade política.

Afinal, o que passava pela cabeça do Serra?

A política não admite a vacilação, tanto quanto a natureza não admite o vácuo.

A indefinição de Serra, sua tibieza e indecisão fortaleceram o grupo de Alckmin que se sentiu capaz e conseguiu a indicação para concorrer ao Governo do Estado de São Paulo, quebrando as pernas de Kassab.

Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou.

O verão chegou. Aécio espertamente lavou as mãos. Tinha cumprido seu dever, agora era pensar em Minas e no seu futuro.

As chuvas chegaram e São Luis do Paraitinga e as inundações e mortes da Grande São Paulo deixaram a nu o desgoverno Serra.

Mesmo assim, a tragédia sorriu novamente para Serra. Era a hora de transferir o governo paulista para a cidade mais próxima de São Luis do Paraitinga, montar acampamento nas margens do rio, botar bombeiros e defesa civil mais a PM ao serviço da população atingida. No noticiário, fazer promessas malucas, tão curtas como um sonho bom.

Nas inundações da capital, culpar as chuvas “extraordinárias” e a “população irresponsável”.  Dar um arrocho, ainda que momentâneo, na “máfia do lixo” e promover ações de emergência.

Como recomendaria Marques de Pombal após o terremoto de Lisboa, socorrer os vivos e enterrar os mortos.

Que grande figura faria. Serra, o homem certo, no lugar certo, na hora certa.

Esse era o momento da ação, as eleições eram outro momento posterior. Só os politiqueiros insensíveis à dor alheia não percebiam isso.

Dinheiro e poder não lhe faltaram.

Mas Serra nada fez, submergiu na água barrenta boiada por sacos plásticos pretos de lixo. Kassab, em uma última tentativa da imprensa conservadora em poupar Serra, apanhou um bocado. Já era um balão apagado.

Quando março chegou fechando o verão e Serra se anuncia candidato em um programa vespertino e popularesco, especializado em vender “mundo cão”, sozinho a ponto de não ter nem um vice para chamar de seu, já era uma derrota anunciada.

Toda a baixaria que cometeu depois é história. Coerente com uma ação desesperada.

Não consigo entender, o que aconteceu com Serra?

Como ele não havia aprendido com Luis Melodia:

“um político, assim como uma mulher, não pode vacilar”.

No verão de 2010, Serra vacilou.

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