Pneumotórax, quinta-feira de cinzas e a perdida esperança.

Zé Rodrix tem uma música triste e bonita, como as músicas tristes conseguem ser. Chama-se, aliás, apropriadamente, “Muito triste”. 

Escolhi alguns versos: 

Tá todo mundo muito triste, tentando ver os claros da vida 
e cada dia fica mais difícil não se ver a escuridão. 

Tá todo mundo muito, triste como se fosse quarta-feira de Cinzas 
de um carnaval antigo. 

Por que da música de Zé Rodrix neste momento? Porque, por acaso, percebi um traço de tristeza e desesperança unindo vários textos que aleatoriamente li esta manhã.

Logo abaixo, compartilho-os com os colegas .

Seria a quaresma e seu tempo de reflexão ou vivemos mesmo tempos desiludidos?

Luiz Nassif, aqui no blog, tratando de nossa incapacidade de continuidade administrativa e desenvolvimentista:

“Na Ásia, o modelo econômico é o mesmo, com a busca da industrialização, do crescimento, da inovação, do emprego qualificado. Entra governo, sai governo, mantêm-se os mesmos valores e as mesmas linhas de ação.

No Brasil, depende do governo de plantão. Agora, tenta-se retomar o desenvolvimentismo, mas com enormes dificuldades em todas as áreas, em sistemas de controle, na mídia, nos setores ambientalistas, nas próprias empresas (muitas delas inconformadas com redução de margem). Não se trata, portanto, de um sentimento capaz de garantir o projeto de desenvolvimento independentemente do presidente do momento. 

A falta dessas ideias mobilizadoras torna o quadro político instável. Não existem partidos programáticos. O PSDB tentou ser socialdemocrata, tornou-se neoliberal no período FHC e hoje em dia não é nada. No PT convivem desde linhas de pensamento amplamente estatizantes até setores que buscam a social democracia.

Tem-se em Dilma Rousseff e Fernando Haddad um modelo socialdemocrata claro, com atuação indutora forte do Estado e parceria com a sociedade civil – empresas privadas, organizações sociais, etc. Mas seria um pensamento consolidado no partido? Não é certo.”.

Do blog Informação Incorrecta 

Beatriz Talegón, falando da crise da Europa e criticando a incapacidade dos socialistas em dar respostas às necessidades atuais para essa crise que afeta tão fortemente os jovens e velhos europeus:

“Quando as pessoas tomam as ruas de Madrid, de Bruxelas, do Cairo, de Beirute... não reclamam o que nós aqui, como socialistas convencidos queremos defender, reclamam o que o problema do capitalismo do livre mercado lhe causou com as suas consequências.

O que importa é que, infelizmente, não são os socialistas do mundo que têm incentivado a sair para as ruas ou a mexer-se, e o que temos de lamentar é que eles estão a pedir democracia, liberdade, fraternidade, estão a pedir educação pública, uma saúde pública e nós não estamos lá.”.

Na Folha de São Paulo, o Professor Pasquale criticando a superficialidade dos temas tratados pela imprensa e a indigência dos textos que a traduzem:

“Mortes e lasanha de cavalo”

 Dia desses, citei neste espaço um pensamento de um velho companheiro de trabalho ("Não há limite para o pior", diz ele há décadas). No que diz respeito ao que se faz com a escrita, com certos textos e com certos títulos jornalísticos parece que o velho companheiro tem razão.

Ontem, estupefacto, vi num site, no meio de títulos que remetiam a bobagens e bobagens relativas ao Carnaval, a seguinte pérola: "Carnaval tem mais mortes na Kiss e lasanha de cavalo".

Carlos Drummond de Andrade morreria de inveja da quebra do paralelismo produzida pelo uso de "mortes" e "lasanha" como complementos do mesmo verbo ("ter"). Drummond abre o antológico "Soneto da Perdida Esperança" com estes versos: "Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para casa". A quebra do paralelismo gerada pelo uso de "bonde" (substantivo concreto) e "esperança" (abstrato) como complementos da mesma forma verbal ("perdi") instaura o clima para que o Mestre trate com profundidade de um dos eternos dilemas humanos (a perda da esperança e a necessidade de continuar, de buscar o eterno).

O que me diz o leitor de "Carnaval tem mais mortes na Kiss e lasanha de cavalo"? Não é mesmo para matar de inveja Drummond e outros nobres da literatura? Não bastasse o fato de a Kiss estar fechada há uns bons dias (a morte citada ocorreu num hospital - trata-se de mais uma vítima do que houve na discoteca), ainda é preciso aguentar o humor funéreo produzido pela associação "morte/lasanha". Deus meu! Como faz falta a leitura dos grandes autores, clássicos ou modernos!

O episódio mostra bem a penúria ideológica dos dias de hoje. Vale tudo; tudo é notícia (por 15 segundos); tudo tem relação com tudo; tudo cabe no mesmo balaio (incêndio na discoteca, lasanha de carne de cavalo e por aí vai).

E na mesma Folha, Contardo Calligaris nos anuncia o fim da filosofia e dos riscos filosóficos:

“Saudade de ideias perigosas”

“No meio do Carnaval, para decidir meu voto (por correspondência) nas eleições políticas italianas, conversei por telefone com meu irmão, que vive em Milão. Seja como for, meu irmão e eu concordamos. Votaríamos para obter resultados parecidos.

Fato notável, desde os anos 1990, meu irmão e eu conseguimos conversar de política.

A razão é simples: nem eu nem ele defendemos mais grandes ideias. Acabou a época de Marx contra Adam Smith, Gramsci contra Luigi Einaudi etc.

Estamos prontos para uma democracia em que não se enfrentam projetos de sociedade, só questões concretas, em referendo: você é a favor ou contra o casamento gay? A eutanásia? A pesquisa com células-tronco?

Dei-me conta disso ao assistir ao extraordinário "O Amante da Rainha", de Nikolaj Arcel. O que me tocou não foi a história de amor, mas a lembrança de uma época em que havia livros proibidos, porque sua leitura ameaçava transformar o mundo.

Rousseau não é meu iluminista preferido, mas, para o bem ou o mal, é um dos pilares do pensamento moderno. Em 2009, um bonito exemplar da primeira edição do "Contrat Social" (Amsterdam, 1762) custou quase US$ 50 mil (R$ 100 mil).

Logo após sua publicação, em vários lugares da Europa, o mesmo exemplar custava infinitamente menos, mas saía mais caro: guardar o livro na estante de casa podia valer uma estadia na prisão, ou coisa pior.

Mesmo assim, desde o começo da modernidade até poucas décadas atrás (até a queda do Muro de Berlim?), os livros eram tratados como armas potencialmente perigosas. Enquanto hoje, no fundo, eles e suas ideias parecem, antes de mais nada, indiferentes. O que aconteceu?

Foucault responderia, provavelmente, que a grande estratégia do poder contemporâneo é a permissividade: se é permitido dizer tudo e qualquer coisa, por que discutir, por que lutar por qualquer ideia? Fale e deixe falar. Não é?”.

Chego ao fim do post arrasado e socorrendo-me de Manuel Bandeira questiono:

“Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”.

 

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-chegada-dos-novos-tempos-3

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-jovens-de-beatriz-talegon

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/1230374-mortes-e-lasanha-de-cavalo.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/1230231-saudade-de-ideias-perigosas.shtml

 

 

 

 

 

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