Um gigante sonâmbulo.

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Brasil, um gigante sonâmbulo marchando entre o sonho, a consciência de si e o pesadelo.

Não pretendia postar nada sobre a onda de protestos que varreu o Brasil nas duas últimas semanas antes da semana que vem.

A próxima semana é decisiva para saber que rumos tomarão os movimentos reivindicatórios. Com a saída do MPL, inteligente, aliás, demonstrando que a moçada é rápida na leitura da situação, o movimento será o que seus novos líderes puderem colocar de povo na rua.

A pulverização parece ser o caminho natural e o esvaziamento uma realidade bem palpável.

Mas até que isso ocorra muita coisa pode acontecer para o bem e para o mal.

Para o mal o caminho é claro. O vandalismo da turma da extrema direita associada à criminalidade comum. Nesse sentido a mensagem da presidente foi clara: não deverão ser confundidos com manifestantes. Ao assumir essa posição a presidente libera os governadores para reprimi-los. Foi uma postura corajosa.

Para o bem seria os grupos sociais perceberem que podem soltar a suas vozes que serão ouvidos.  Mas com muitas causas em jogo ao mesmo tempo e sem um objetivo claramente definido e agregador como foi a redução do preço da passagem a chance de se fazer ouvir é pequena. Novo risco, o de pequenos grupos com uma causa justa, porém, de pouco impacto no imaginário popular, decidirem por ações midiáticas e extremadas, serem confundidos com os vândalos e gerarem na população o desejo de uma “volta à normalidade” e as consequências disso.

Há tantas outras possibilidades menores, tal como a direita conseguir manter o povo mobilizado contra “tudo isso que está aí” e impor o grito de “que se vão todos”.

Enfim, é por isso que eu preferia e ainda prefiro esperar.

Mas algum retrospecto já pode ser feito, ainda que baseado nas minhas memória e leitura.

1 – terça da semana passada – um grupo de estudantes mobilizados pela internet pertencente a um tal de MPL – movimento pelo passe livre, após vários protestos em anos anteriores sem muito sucesso, consegue finalmente reunir um número significativo de manifestantes – uns 5 mil. Número suficiente parar a Avenida Paulista aqui em São Paulo.

A polícia os reprime, mas havia subestimado a capacidade de organização e disposição de luta desse grupo.  Os jornais do dia seguinte trazem fotos de policiais feridos, com a cabeça sangrando, derrubados das suas motocicletas e pisoteados.

Os jornais são rápidos em qualificar os manifestantes, “grupelho de baderneiros”, e pedir mais repressão.

Voz solitária, Janio de Freitas critica a violência policial contra os estudantes e contra o direito de manifestação. Comento num post: ele ainda não viu violência, terça os policiais apanharam na quinta vão bater.

2 – quinta-feira – como esperado, nova manifestação, agora maior em número. A “vitória” contra polícia agregou novos participantes. Entra em cena a Polícia de Choque e o que se assiste não pode ser classificado como repressão policial, foi mais um caso de vingança policial, como foi comentado por alguém com muita propriedade.

Aqui há um ponto de viragem, o primeiro. A truculência da polícia é indiscriminada e não poupa os jornalistas que cobriam o evento. Vários são feridos e agora há um rosto para simbolizar o que aconteceu. A jornalista da Folha, loirinha, franzina e com o supercílio dilacerado por uma bala de borracha.

Feridos os seus, a imprensa muda de posição, acua o governador e a polícia. A manifestação é um direito democrático. Sempre foi, aliás.

Agora, o “grupelho de baderneiros” se transmuta em “defensores da liberdade” nas folhas dos jornais e telas de TV. Vemos os rostos deles e ouvimos sua voz. São os nossos filhos.

3 – segunda-feira desta semana. Um gigantesco grupo de indignados sai às ruas. A polícia não pode usar seus métodos padrão de “contenção de distúrbios”.  Uma polifonia de muitas causas é ouvida. Não são mais vinte centavos é “tudo isso que está aí”.

E aqui ocorre outro ponto de viragem do movimento.  A Globo é hostilizada, seus jornalistas são impedidos pelos manifestantes de cobrir alguns protestos e o cubo com o logotipo da emissora sai dos microfones por medida de segurança.

A partir daí tudo muda e a poderosa emissora, dona de mais de 50% da mídia deste país, abre a caixa de ferramentas, é hora de mudar o rumo dessa prosa. O povo comum é convocado a sair às ruas para participar da “grande festa da democracia” e atende à convocação. Algo como um “carnaval cívico” se instala pelo país. Protesto e festa, indignação e euforia pelo país a fora.

Está estabelecido o efeito diluição. Todas as causas são causa nenhuma ou aquela que eu quiser que seja. Grande manobra, há que reconhecer a competência e poder da Globo.

Quarta-feira – Haddad reduz o valor passagem, e Alckmin também, mas Alckmin já não está mais nos noticiários. Vitória do movimento MPL. Quem notou isso?

4 – quinta-feira – o povo está nas ruas comemorando. Ganhamos mais uma final. Bandeiras do Brasil sobre os ombros e o indefectível canto: “Eu sou brasileiro, com muito orgulho ...”

Brasília tomada.  O movimento subvertido. As bandeiras dos partidos de esquerda que no início do movimento eram evitadas para não permitir uma mal intencionada interpretação dos meios de comunicação estão agora proibidas pelos novos donos da rua - a classe média reacionária. Oportunistas postam vídeos na internet festejando a grande vitória popular, nenhum esteve nas passeatas, obviamente.

Pelas ruas, alegria popular, o grito inútil de “sem violência”, o grito interesseiro de “sem partido” e violência e vandalismo.

O MPL se retira com um copo meio cheio e meio vazio. É hora de recolhimento para contabilizar perdas e ganhos.

Nas ruas, abandonado à própria sorte, um gigante sonâmbulo marchando entre o sonho, a consciência de si e o pesadelo.

Um fantástico capital político a espera de quem ponha a coroa na própria cabeça antes que um aventureiro o faça.

Icônicos deste momento, deixo abaixo para reflexão duas fotos, um texto e um vídeo.

Surgem novos cenários

BRASÍLIA - Ninguém tem a menor ideia de como será o desfecho e qual será o saldo dos protestos de rua atuais. Nem os próprios manifestantes. É natural que seja assim. Em geral, as pessoas só sabem o que não querem, mas não o que querem.

Hoje, quem marcha pelas cidades brasileiras ao cair da tarde rejeita os partidos, os políticos, a corrupção. É contra quase tudo. Só não dizem exatamente o que colocar no lugar.

Um dos poucos consensos a respeito do que se passa é que alguma consequência haverá. Uma delas é uma nova configuração dos cenários de 2014. As 27 disputas para governador e a corrida presidencial estavam caminhando para uma zona de conforto, com muitos nomes sendo dados como favoritos. Agora, há mais dúvidas do que certezas.

Tome-se o caso da pesquisa Datafolha divulgada ontem e realizada anteontem apenas entre os manifestantes na cidade de São Paulo. O líder do levantamento na disputa pelo Palácio do Planalto é o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, com 30%. Em segundo lugar vem Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, com 22%. Ou seja, juntos eles têm mais da metade das preferências entre os paulistanos que estão protestando.

Dilma Rousseff, que, na pesquisa nacional Datafolha do início do mês, pontuou 51%, aparece com meros 10% entre os manifestantes de São Paulo. O tucano Aécio Neves tem 5%. Eduardo Campos, só 1%.

Outro dado notável é a taxa dos que dizem votar em branco, nulo ou nenhum: 27%. Embora esse percentual seja três vezes superior à média nacional, fica um pouco desmontada a tese de que os indignados rejeitam 100% dos políticos. Não é bem assim.

É evidente que essa é uma pesquisa cheia de viés por ter sido realizada durante um dia muito conturbado e com um público específico sob forte emoção. Mas é um indício também de que cenários novos podem surgir daqui até 2014.

Fernando Rodrigues é repórter em Brasília. Na Folha, foi editor de "Economia" (hoje "Mercado"), correspondente em Nova York, Washington e Tóquio. Recebeu quatro Prêmios Esso (1997, 2002, 2003 e 2006). Escreve quartas e sábados na versão impressa Página A2.

* as fotos neste post não constam do texto original de Fernando Rodrigues, foram acrescentadas por mim como ilustração dos "novos cenários".

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imagem de Sergio Saraiva

Anomia niilista

Por Wanderley Guilherme dos Santos 

Milhões de pessoas foram projetadas a estações de consumo e lazer das quais nunca haviam tido sequer notícia. Passado o deslumbramento, expectativas ambiciosas cresceram em velocidade maior do que caíam taxas de juros e sinais inflacionários, levando a audacioso endividamento das famílias. Por fim, a ressaca veio sob forma de aguda ansiedade sobre o futuro imediato, tornando-as vulneráveis aos anúncios de que crescimento econômico em torno de 3,0% significará desastre, desemprego generalizado e uma queda livre, sem rede de proteção, dos trapézios sociais alcançados.

Rápidos deslocamentos ascendentes desenraízam as pessoas da matriz societária original, provocando crises de identidade e desorientação quanto a valores, estando por serem substituídos os anteriores, desaprendidos. Max Weber apontou a reserva de ebulição aí depositada, tanto quanto nas crises de despenhadeiro, quando enormes contingentes de trabalhadores são despejados na escala social com destino à miséria e desesperança. E, ambos, períodos de extensa anomia social, insegurança quanto a rumos e subversão de critérios de avaliação e escolha social. Atração fatal à anomia, o niilismo, o negativismo militante candidata-se a acompanhante emocional, pacificador da insegurança dos segmentos desorientados.

Sequência já conhecida de manifestação popular reprimida com violência próxima à selvageria propiciou as condições de uma mobilização de simpatias, solidariedades e protestos claramente motivados pelo episódio paulistano de repressão ao Movimento do Passe Livre. Eram os jovens universitários, seus pais e familiares, usuários de transportes públicos, o público de boa vontade, atingido em seu sentido de justiça e de equilíbrio, além das minorias insidiosas de sempre: um nazismo renascente, protofascistas, partidos autoritários como o PSTU ou dado a aventuras como o PSOL, mais os predadores da democracia. Rápido, bem-sucedido golpe de mão, juntando acaso e virtude, sequestrou a alma das ruas e infestou a evidente anomia com a inclinação niilista que a marcou desde então. Todas as palavras de ordem têm sido, a partir daí, pretexto para a desmoralização das instituições democráticas, assembleias, organizações sindicais, associações voluntárias específicas, partidos políticos, em nome de um alegado vanguardismo civilizatório.

O futurismo italiano foi um movimento revolucionário das artes gráficas no início do século XX. Dissolveu-se ideologicamente no fascismo gerado pela anomia decadentista da Itália dos anos 20, igualmente irmanado ao niilismo predatório. Assustados, os líderes institucionais do Brasil têm tomado a aparência pela verdade e multiplicado a tradução do que lhes parecem comunicar as vozes das ruas. Não existem, contudo, vozes das ruas, apenas alaridos. Não foram as cartolinas pintadas que levaram as primeiras multidões às passeatas, elas surgiram algum tempo depois das marchas em busca de um porquê das próprias marchas. A seco, melhoras genéricas da saúde pública ou da educação não estimulam o deslocamento de dezenas de milhares de manifestantes. Reforma política, então, nem em cartolina apareceu. Pesquisas de opinião durante ou logo depois do calor dos protestos são tecnicamente irrelevantes, não autorizam nenhum tipo de inferência confiável.

Do mar de gente em desfile pelos dias de junho já se ausentaram há muito os de boa-fé, os lúdicos, os solidários com as iniciais demandas sobre transporte, até mesmo sobre saúde e educação, bem como os movimentos tradicionais organizados. Participam hoje dos protestos, fora os incautos e ingênuos que sempre existem e lhes emprestam ar de legitimidade, grupos anômicos de jovens de algumas posses, grupos neonazistas e pré-fascistas, organizações niilistas nacionais e internacionais, além das gangues ordinárias de ladrões e assaltantes.

Os que agora se mobilizam e convocam sabem que são isso mesmo, portanto cúmplices entre si. Não há jovem do Leblon que ignore os saques e depredações que vão se seguir às suas intervenções ditas pacíficas. É a essa informal coalizão de celerados que se referem os acoelhados discursos pela modernidade, pelo avanço democrático em curso, pela radicalização da participação. Desde quando movimentos pela democracia difundem o medo e intimidam fisicamente os que divergem?

Na verdade, a hegemonia da atual semântica política é niilista, reacionária, antidemocrática. Mesmo as manifestações em favor de teses populares adquirem conotação truculenta. Com todo o narcisismo de que são portadores, movimentos e personalidades de grande notoriedade não conseguem desfazer a impressão de que perderam o controle sobre o emocional da população. A conjuntura é fascistoide. A pauta trabalhista das centrais sindicais era a aparência para esconder uma real tentativa de retomar a alma das ruas. Foi uma manifestação chinfrim, o dia nacional de lutas, e não recuperou a hegemonia. Ficou apenas a impressão de que reclamava do governo a extinção do fator previdenciário e a realização de uma reforma política, entre outras bandeiras costumeiras, sem consequência significativa.

Há quem acredite no fundo da alma que alguma mazela nacional será resolvida por reformas nas instituições políticas. Essa é uma crença sem fundamento e, às vezes, como no momento, sujeita a exasperações histéricas. Só por circunstancial ausência de normalidade argumentativa se pode entender declarações de inegável natureza controversa como se obviedades democráticas fossem. Em recente declaração em vídeo, ao fim de um debate em um centro paulista, uma professora da USP, petista orgânica, afirmou que a estrutura partidária e eleitoral vigente, consagrada na Constituição de 88, foi elaborada em 1965 por Golbery do Couto e Silva, homem da ditadura. Sem dúvida, uma retificação histórica e tanto.

Em texto na revista "Carta Capital" no dia 17, um jornalista e paladino da democracia menciona um sonho em que assistia à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do país. Não ficou esclarecido, contudo, qual colégio eleitoral substituiria os 140 milhões de eleitores brasileiros na escolha de suas melhores cabeças. Pior ainda, figuras profundamente reacionárias em matéria social e econômica, como as lideradas por Marina Silva, reeditam o discurso de que a maldade da política se encontra na existência de mediações entre o público e o privado, cujas fronteiras deviam ser abolidas. É o discurso totalitário em estado puro. Buscando o aplauso de míticas vozes das ruas, muitos não mais escutam a própria voz.

É incompreensível a ênfase do governo e do Partido dos Trabalhadores na realização de um plebiscito por uma reforma política cuja formulação é, no mínimo, divisionista, castradora de avanços e omissa quanto à superação de resquícios da ditadura - por exemplo, garantindo elegibilidade aos analfabetos, tema sem nenhuma audiência entre nossos democratas radicais e digitais. Incompreensível, sobretudo, quando a pauta vital do país, no momento, está sendo disputada taxa de retorno nas licitações por vir nos setores ferroviário, aeroviário, rodoviário e portuário, além dos leilões do petróleo. Disso dependem renda, emprego, crescimento, políticas sociais e progresso tecnológico.

Sujeito a um cerco infernal de pressões, lobbies e, quiçá, seu tanto de sabotagem por parte de alguns empresários e investidores, o governo substitui essa pauta por um prato diversionista, com o bônus de propiciar aos adesistas a esfarrapada desculpa de que o Estado, o modelo de crescimento (denominação presunçosa), os instrumentos de administração estão esgotados. Baboseiras de quem está costeando o alambrado do conservadorismo.

As forças sociais estão anômicas. Difícil saber em que medida a epiderme niilista reflete o sentimento majoritário da população (pesquisas, no momento, são inúteis para extrapolações), submetida a uma avalanche de informações sem fonte de credibilidade assegurada. As respostas oficiais, exceto em parte a dos parlamentares, acentuo, exceto em parte a dos parlamentares, têm contribuído para ratificar a ilusão de um aprofundamento da democracia que, de fato, em sua versão expressiva e comportamental, consiste em seu oposto, na intolerância, na destruição e no ódio que contamina as mensagens das ativas redes sociais. Quanto mais cedo se mobilizar a resistência democrática ao niilismo anômico, melhor.

Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político, titular (aposentado) de teoria política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 27/07/2013.

 

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