Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou – Parte II.

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Aviso aos navegantes

Este é um post longo, dividirei-o em partes, buscando torná-lo menos enjoativo. Provavelmente, também, contém erros factuais, já que escrevo basicamente de memória. Não tem a intenção de documentar a história, mas sim, questionar por que um político experimentado, após uma carreira longa, vacila no seu melhor momento

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A eleição de 2004 e a volta por cima.

Após a derrota lhe resta a presidência do partido, o nome é bonito, mas nada mais que isso.

O vento começa a soprar a favor a partir de 2004. Enfrenta uma Marta Suplicy desgastada por um governo impopular, o governo da Martaxa.

Derrota o PT vencendo um candidato a re-eleição. Não é pouca coisa, apesar dos desacertos de Marta Suplicy, quem disputa a re-eleição leva uma vantagem considerável.

A vitória, no entanto, teve um custo, foi obrigado a assinar em cartório um compromisso de não abandonar a prefeitura para candidatar-se a presidência em 2006. Era o custo do político carreirista. 

As eleições de 2006

Essas não eram para Serra, era chegada a vez de Alckmin, seguindo a lógica, o governador de São Paulo é o candidato natural à presidência. Além do que, no outro corner estava Lula. E a essa altura com o “efeito Azeredo” e o fim melancólico do mensalão no congresso e com os primeiros resultados das ações de distribuição de renda bombando Lula era imbatível.

Pior para Alckmin. E, ainda assim houve aquela cena ridícula dos 4 cavalheiros decidindo o futuro da nação ao entorno de uma garrafa de bom vinho.

O que explicaria aquilo? Uma provocação ao grupo de Alckmin. O grupo de Alckmin reage, impõem o seu nome. Alckmin disputa e perde para Lula, óbvio, e submerge para respirar e reagrupar as tropas. Vai reaparecer nas eleições municipais de 2008, ser derrotado, e proporcionar o grande momento político de Serra, então um político no comando do seu destino.

O caso dos “Aloprados”. 

 

A eleição de 2006 tem uma particularidade interessante. O escândalo dos “Aloprados”. 

Tem todo o jeitão de mais uma armação de Serra. Alguém surge do nada oferecendo informações sigilosas sobre Serra, alguém do PT, subalterno sem nenhuma importância, os tais “Aloprados”, segundo Lula, resolvem comprar. Aí um delegado da Polícia Federal, outra vez ela, entra em cena e dá voz de prisão aos aloprados. Ora, é crime comprar informações? Que eu saiba, não. Desde que essas informações não tenham sido obtidas de forma ilegal. 

Logo, a questão não era a compra da informação, que aliás, nem existia. Era a origem do dinheiro. Quem não sabe como se financiam as campanhas?. Demonstrar a origem do dinheiro é que é o buziles. Na mesma época, se não me engano, teve o caso de um avião do PFL carregado de malas de dinheiro que foi apresentado como dízimo. 

Pois bem, e lá vai o delegado cometendo desvio de função e invadindo o depósito onde estava o dinheiro, fotografando a pilha e distribuindo a foto para os jornalistas. Quais jornalistas? Ora, aqueles dos jornais que davam apoio ao Serra, 

O interessante dessa história é que o escândalo envolvia a campanha de Mercadante mas foi a bala de prata usada pela imprensa para alavancar o 2º turno da campanha de Alckmin.

Se foi armação do Serra, realmente ele não precisava disso para derrotar Mercadante. Ocorre que talvez não tenha como resistir a esse tipo de ação.

Vejamos, 

Eleição

Caso

Prejudicado

Beneficiado

Agente

2002

Lunus

Rosena Sarney

José Serra

PF

2004

Duda Mendonça e a rinha de galo

Marta Suplicy

José Serra

PF

2006

Aloprados

Aloísio Mercadante

José Serra

PF

 

 PSDB, um partido dividido desde a origem. 

O PSDB nasce uma dissidência do PMBD paulista em função da incompatibilidade com a liderança de Orestes Quércia.

Quércia era um político aventureiro, sem nenhum nome ou cacife se lança candidato ao senado em 1974 pelo MDB em plena ditadura, isso porque, provavelmente, ninguém queria aquela disputa. A ARENA, partido do governo parecia imbatível. Todo aventureiro precisa de sorte, a eleição de 74 foi o ponto de viragem da ditadura. A população deu o sinal necessário que a aprovação daquele modelo de governo não resistiria ao fim do milagre econômico. Elegeu massiçamente os candidatos do PMDB. Posteriormente, em 1982, Quércia melou a convenção do PMDB que indicaria Montoro e Covas para a primeira eleição aos governos estaduais na desde 1966. Covas, homem de partido, cedeu a vaga, Quércia se elegeu vice-governador e pavimentou a sua eleição para o governo em 1986 com o Plano Cruzado fazendo água e ele prometendo mandar a polícia federal laçar boi no pasto para garantir o abastecimento da população.

Montoro lidera a ruptura, leva consigo Covas e FHC. Não leva Ulisses Guimarães, o MDB era o filho que Ulisses nunca teve, não o abandonaria apenas por causa de Quércia, pagou seu preço na eleição de 1990, Quércia o deixou na chuva..

O PSDB unia-se em torno da liderança suave de Franco Montoro mas era rachado entre o grupo de Covas e o grupo de FHC.  Com a retirada de Montoro da cena política, a ruptura era inevitável. Convivência de aparências e nada mais.

Em 1992 FHC quis embarcar na canoa do plano de salvação do governo Collor, Covas vetou. Com Itamar a história foi outra e sabemos o que veio depois.

Alckmin foi adotado por Covas, Serra caiu pela 2ª lei Newton, no grupo de FHC, não que FHC tivesse algum respeito por ele. Já Covas, contam, queria Alckmin como a um filho. Os dois grupos nunca se uniram.

Assim, em 2002 o grupo de Covas/Alckmin não trabalhou por Serra e em 2006 o grupo de FHC/Serra não trabalhou por Alckmin.

Como o consenso não era possível, a única solução seria um grupo destruir o outro e unificar o partido em São Paulo.

A eleição de 2008 foi esse momento.

Serra, o audacioso. 

Com Alckmin marchado para a derrota em 2006, Serra aplicou sua grande jogada, a candidatura para o governo apesar do compromisso assinado em cartório. Julgou e acertou que o eleitorado paulista não se sentiria traído.

Instalou Kassab, um fiel escudeiro no Anhangabaú e tomou posse no Morumbi.

Era governador de São Paulo, portanto, candidato natural à presidência em 2010. Mas ainda era necessário derrotar o grupo de Alckmin, para dominar o partido em São Paulo.

A eleição municipal de 2008 e o domínio de Serra 

Submerso desde 2006, Alckmin volta a cena em 2008. Postula a candidatura peessedebista. Serra é contra, apóia a reeleição de Kassab. O grupo de Alckmin novamente se impõem, mas erra e dá a Serra a sua grande chance de prevalecer unificando o partido em São Paulo.

A peça chave dessa eleição era o tempo de televisão nas mãos do PMDB de Quércia.

Quércia oferece apoio a Alckmin, porém o grupo de Alckmin, fiel aos compromissos de Covas recusa.

Serra não teria esses pruridos de consciência, fecha acordo com Quércia, coliga PFL com PMDB. O PSDB sob seu comando, e com a aprovação de FHC que tem aí a sua grande chance de dar a volta em Covas, ainda que esse já estivesse morto, deixa Alckmin na chuva, apóia sub-repticiamente Kassab e derrota de uma única vez dois adversário, o PT de Marta Suplicy e o grupo de Alckmin.

Kassab é re-eleito e o grande vencedor é José Serra.

Alckmin bate no fundo do poço.

Aí Serra mostra que realmente é um articulador. Com o grupo de Alckmin completamente derrotado, Serra lhe oferece uma secretaria em seu governo.

Em gesto de grande esperteza transforma desafetos em devedores políticos.

Agora tudo está pronto para a sua candidatura a presidente em 2010. Ele havia pavimentado o terreno. Era o governador de São Paulo, tinha Kassab e o seu PFL instalado na prefeitura, um acordo com o PMDB de Quércia e a dívida de gratidão de Alckmin.

Imagens: 
Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou – Parte II.
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2 comentários
imagem de nonononono

Outra discordância:

 

Quércia oferece apoio a Alckmin, porém o grupo de Alckmin, fiel aos compromissos de Covas recusa.

 

Fiel???Onde??? A recusa se deu baseada meramente na impossibilidade de acomodar interesses de partisans do Alckmin (a.k.a viuvas do Covas). 

 

Ahhh pena que o Temer já esteja velhinho...Senão ele roubava esses prefeitos de interior do Alckmin todinhos e desmontava esse domínio do PSDB.

 

Covas era boa pessoas, mas péssimo governador. SP está parada pelos próximos 4 anos (espero que só 4...)

 
imagem de nonononon

massiçamente com "ss" foi f..a....

 

Discordo de vários aspectos de sua leitura, mas vou me ater a um que é meramente periférico:

Em 74 Ditadura tomou uma lavada do MDB não por sorte. A esquerda ingrata devia agradecer o seu retorno a cena política e ascenção ao poder a 3 eventos/pessoas: Guerra do Yom Kippur, Queda do Xá e aumento dos Juros pelo Paul Vocker. Não foram Quércia, Simon, Miro Teixeira que surraram a Ditadura. Foi o povo que passou a pagar mais caro combustível, com os alimentos subindo por conta do frete que derrubou a ditadura em 74 (a queda do xá ocorre depois em 79).

 

PS: Serra foi um excelente governador. Sozinho construiu mais quilometros de metro do que todos os outros governantes juntos. Kassab limpou a cidade. Alckmin é um político de interior. Se chegar a Senador vai ser muito. Deu a sorte de ser vice de um governador falecido e de sabe-se lá porque, o PSDB ter lhe elegido como a ponte entre a base dos prefeitos do interior (Aloysio é milhões de vezes melhor, mais capaz e inteligente e articulado com o interior) e o partido. Se não fosse o medo (medo mesmo, porque risco real não existe, você verá nesta eleição de 2012 a 3a derrota seguida do PT e possívelmente a 2a da Marta) de perder o governo de SP para o PT, Alckmin estaria no ostracismo, quiça como um Deputado Federal puxado na coligação...

 

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