Valorização dos Professores vai além do Salário

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A partir do post do Alberto Lakatos Para mudar cara da Escola Pública de SP (04/11/2010) pretendo discutir mais um pouco a respeito da valorização do professor que passa, necessariamente, pela elevação salarial e por um bom plano de carreira, por isso, concordando com Lakatos,  meus pressupostos  para esta discussão são os professores reais, em condições determinadas, empiricamente visíveis e participantes de uma ampla e complexa rede que constitui o que chamamos de escola.

A este respeito, impressionou-me de forma positiva o discurso da Presidenta Dilma (para além da polêmica, também adoto presidenta). Ela disse: "Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso dos professores e da sociedade com a educação das crianças e dos jovens." Me pareceu que há uma intenção de mudar o modo de lidar com o profissional da educação, devolvendo-lhe, principalmente ,a dignidade perdida.

Entretanto aqui vou me ater à questão da remuneração adequada, o bom salário, versus a qualidade de ensino, de modo a evidenciar que essa equação não é linear, mas que faz parte de uma complexa rede de conexões. Para isso, um caso:

Os professores (com graduação superior) para lecionar no Ensino Fundamental I (1ºs aos 5ºs anos) da rede pública de ensino municipal de Campinas iniciam a carreira com carga horária de 32 h por R$ 2.485,96 e os professores do Fundamental II (6ºs aos 9ºs anos) com carga horária mínima de 20 h ganham R$ 1.553,72, portanto, ganharão R$ 3.107,44 se dobrarem para 40 horas. (confira edital n.002/2008 de concurso público da Prefeitura Municipal de Campinas para provimento de cargos de especialistas e  professores da Secretaria Municipal de Campinas)

Em relação aos demais salários de professores brasileiros, eu diria que os da rede municipal de Campinas estão satisfatórios se considerarmos, sobretudo, que dizem respeito ao início de carreira. Mas o que causa estranhamento em um primeiro momento é que os valores destes provimentos não refletem no IDEB do município. A média do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da rede municipal de Campinas em 2009 para o 5º ano/4ª série foi de 4,7 e no 9º ano/8ª série foi de 4,5 em uma escala de 0-10.

Em 2010 ministrei um curso de formação continuada e em serviço, carga horária de 200 horas (180 a distância, via internet, e 20 h presenciais), para 36 professores e especialistas em uma escola municipal de Campinas: profissionais com bons salários, bem formados (parte significativa na Unicamp e PUCC) , muitos com pós-graduação, porém com o pior IDEB da cidade 3,6.

O curso que ministrei  sobre leitura e escrita na perspectiva vygotskyana foi solicitado pelo próprio corpo docente e pelos gestores desta unidade escolar, porque a situação da escola é dramática. Para se ter uma ideia em um 5º ano (correspondente a 4ª série do Ensino Fundamental) com 35 alunos:

- 14% (5 alunos) deles organizam o texto de forma lógica e produtiva, demonstrando conhecimento dos mecanismos linguísticos e textuais necessários para sua construção, isto é , possuem competências e habilidades linguísticas de acordo com os objetivos pretendidos para um 5º ano (antiga 4ª série);

- 26% (9 alunos), no entanto, não dominam a natureza alfabética do sistema de escrita ou conhecem apenas algumas sílabas simples e palavras, isto quer dizer que estão bem no início da alfabetização que se dá , em geral , nos 1ºs e 2ºs anos (antigas 1ªs e 2ªs  séries);

Entre estes extremos acima descritos estão 21 alunos (60%) que dominam habilidades de codificar e decodificar, apresentando independência com relação à escrita; passam a compreender palavras e sentenças envolvendo vários padrões silábicos e sintáticos complexos, ou seja, possuem competências e habilidades próprios de  3ºs anos.

É impossível encontrar em uma escola particular uma classe com este tipo de configuração: três em um.  A professora desta escola municipal terá que atingir os objetivos do 5º ano, mas, ao mesmo tempo, trabalhar com os do 3º e os do 2º para promover, sabe lá como, a superação das dificuldades dos 35 alunos visando aprová-los para o ano seguinte. Lembremos que o ano subsequente ao 5º é o 6º ano que possui oito componentes curriculares ministrados por oito professores específicos. De modo que este diagnóstico, além de revelar a complexidade da situação, vai de encontro ao IDEB de 3,6 atribuído para esta escola.

Trata-se , portanto, de perguntar: quais seriam as causas que justificam um IDEB 3,6 nesta escola e 4,7 para a rede municipal de ensino de Campinas se salários, plano de carreira e formação parecem não constituírem mais o problema?

Continuemos com o exemplo desta escola específica:

a) referente aos gestores: durante anos diretores, vice-diretores, orientadores pedagógicos e coordenadores pedagógicos não pararam na escola, significando mudanças constantes nos aspectos que envolvem a gestão, desestimulando enormemente o corpo docente e discente. Não houve, portanto, acompanhamento e tampouco orientação do trabalho pedagógico com vistas a promover avanços. Além disso, mudanças de Prefeito e Secretario provocam, na maioria das vezes, descontinuidade na política educacional.

b) referente ao pedagógico: em função de não haver um corpo gestor duradouro (pelo menos por um período de cinco anos ininterruptos), não foi construído de modo coletivo um Projeto Político/Pedagógico que orientasse metas, procedimentos e metodologias de ensino. Portanto, cada professor promove sua própria estratégia de ensino , sem garantir horizontalidade e verticalidade de conteúdos, critérios avaliativos comuns e , sobretudo, uma mesma concepção de processo de ensino/aprendizagem.

c) referente à comunidade: a escola está inserida em uma comunidade bastante carente da periferia da cidade com inúmeros problemas resultando: faltas constantes dos alunos e imensa dificuldade de encaminhar as crianças e adolescentes a especialistas (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, dentre outros) quando há necessidade; pais e mães que trabalham oito horas diárias e escola que atende apenas quatro horas facilitando a ociosidade das crianças e jovens que acabam perambulando pelas ruas, dentre outros problemas.

d) referente à estrutura e funcionamento: esta escola específica atende aproximadamente 2.000 alunos de Ensino Fundamental, possui quatro turnos (manhã, intermediário, tarde e noite) significando que há um enorme serviço de manutenção e necessidades de infra-estrutura. Apesar dos avanços inegáveis, já que nos dez anos de existência passou de contêineres para um prédio de alvenaria de dois andares, com sala de informática bem equipada, muito há o que fazer, principalmente, no que diz respeito à estética, tão necessária na construção de um ambiente de ensino/aprendizagem agradável para estudar e trabalhar.

e) referente às condições de trabalho objetivas e subjetivas:  não apenas nesta escola específica, mas em todo o Brasil, professores e professoras estão desenvolvendo a Síndrome de Burnout. Segundo a pesquisa (aqui) da Profª Nádia Maria B. Leite da Universidade de Brasília (UNB) esta doença acomete 15% dos professores de Brasília e, se fossemos fazer um projeção para todo o Brasil, seriam 300 mil professores que convivem com a doença. Os sintomas são: exaustão emocional, baixa realização profissional, sensação de perda de energia, de fracasso profissional e de esgotamento. A pessoa é consumida física e emocionalmente pelo próprio objeto de trabalho.

Nesta escola municipal de Campinas ao realizarmos um dia de atividade motivacional, desenvolvida pela psicóloga Juliana T. Lemos, percebemos nos professores a intensa necessidade de amparo e afeto demonstrando que a esfera da subjetividade deve ser também objeto de atenção nos momentos de formação continuada. 

Trata-se de uma realidade complexa esta a da escola.

Por último, comparemos o IDEB da rede pública do Estado de São Paulo com o da rede municipal de ensino de Campinas:

 

Rede Pública Estadual  de São Paulo             5o ano/4a série          5,4 IDEB

Rede Municipal de Campinas                         5o ano/4a série           4,7 IDEB

Rede Pública Estadual de São Paulo              9o ano/8a série           4,3 IDEB

Rede Municipal de Campinas                          9o ano/8a série           4,5 IDEB

 

 Analisando os dados acima, juntamente com o valor dos salários dos professores municipais de Campinas, nota-se que não há uma relação direta entre bons salários e melhoria da qualidade de ensino, porque infelizmente os salários dos professores da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo são bem inferiores: o salário base dos professores de 5º ano é aproximadamente  de R$ 958,53 por 24 h. E o dos professores do 9º ano é de aproximadamente R$ 1.834,86 para 40 h.(valor referente a 2009,confira).

De modo que, a meu ver, bons salários e um bom plano de carreira são indispensáveis para os professores, porém não bastam. É preciso que aspectos financeiros, administrativos e sociais aliados aos emocionais, éticos e estéticos sejam contemplados nas políticas educacionais como um todo para promover a tão esperada qualidade de ensino.

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8 comentários
imagem de Guilherme Borçal

Sônia, a grande questão é, "com que qualidade as crainças permanecem na escola num período de 2 ou três horas?"

As crianças, sem exclusão, tem um universo particular de interesses, muito mais atrativo do que seu universo de "obrigações" e, enquanto a escola permanecer no segundo, será impossível, através de qualquer que seja a valorização profissional, a plena atividade docente.

São celulares com mensagens ilimitadas, internet e as maravilhosas redes sociais, disciplinas tratadas hoje da mesma maneira que eram há 20 ou 30 anos, classes super lotadas, televisão portátil e etc etc etc....

A educação não depende só da equipe profissional, depende, prioritariamente da escola passar de obrigação a interesse, do conhecimento passar, entre as crianças, de motivo de chacota a motivo de orgulho, e isso acontecerá apenas quando a sociedade passar por uma profunda reformulação de valores que é urgente!

Quantos alunos estão lendo um livro, ou estudando qualquer coisa, enquanto a tv apresenta o ótimo big brother? e por que desta inversão? Não consigo entender...

 
imagem de Sônia Aranha

          A escola integral já está prevista em Lei. No último dia 14 sairam as Novas Diretrizes para o Ensino Fundamental de 9 anos. Escrevi a respeito aqui.

         Mas você está certo , quem é que vai assumir isso? O problema é : com qual qualidade as crianças permanecerão   na escola por um período de 7 horas?  A mesma  verificada na prática das escolas públicas da maioria do nosso país?

           Em relação a salários também. É incrível que o professor com ensino superior tenha um dos menores salários ,se não for o pior ,  do funcionalismo público.  E parece que isso ocorre na maioria dos países ocidentais desde que a grande massa de trabalhadores passou a frequentar a escola.

 

 
imagem de Sônia Aranha

      Alberto , bem lembrado. O Conselho Escolar é uma instância importante e tem sido valorizada pelo MEC que inclusive lançou um Programa de Fortalecimento dos Conselhos Escolares ver aqui. 

      É o exercício democrático da educação que no atual momento, pelo menos no Estado de São Paulo, na melhor das hipóteses , é muito tímido.

      Com relação a jornada de trabalho ser realizada em uma única unidade escolar: perfeita a sua proposta. É isso mesmo. Fica muito difícil atingir os objetivos pretendidos e necessários para o enfrentamento  desse novo mundo se a estrutura e funcionamento da escola permanecer no século XX.

      E continuemos a debater o bom debate ! Abraços e obrigada pela oportunidade. 

 

 

 
imagem de Alberto Lakatos

Entre as várias propostas para que haja uma qualidade na educação é aumentar o tempo de permanência do aluno na escola. Há muitos argumentos favoráveis a essa medida. Apenas desejo nessas linhas, mostrar que para que isso venha acontecer, é necessário a construção de mais escolas e a reforma das existentes para que elas possam atender aos alunos. Isso tem um custo. E aqui no Brasil, cabe aos municipios atender ao ensino fundamental e aos governos estaduais, o ensino médio. Pergunto: quem está disposto a assumir os custos desse investimento???

 

ps: li hoje no blog "Vi o mundo" que os senadores Cristovam Buarque e Pedro Simon desejam que indice que serviu para reajustar o salários dos parlamentares seja aplicado para aumentar o piso nacional, que passaria dos 1.024 mensais para 1.656. Para isso, apresentaram um projeto de lei, no dia 16 de dezembro. Mesmo que seja aprovado, ele será vetado e mesmo que não seja, não acredito que ele possa ser colocado em prática. O valor ainda assim, é pouco se compararmos com o salário pago a outros profissionais de nível superior, bem como outros setores do funcionalismo público (recentemente houve um concurso da Abin, no qual um dos cargos exigia apenas o nível médio, pagando o salário inicial de 4 mil reais). Os fãs dos dois senadores que me perdoem, mas isso é pura demagogia.

 

 
imagem de Alberto Lakatos

No meu post, esqueci de colocar algo que considero fundamental: o fortalecimento do Conselho de Escola. O Conselho de Escola, com funções deliberativas em todos os aspectos da vida escolar: decidir pelo uso de verbas até o projeto político pedagógico da escola. O Conselho formado por professores, gestores, pais e alunos tem de ter o caráter de fiscalizar e avaliar a escola (e o trabalho realizado pelos gestores e professores).

Porém, pelo menos aqui em São Paulo, o Conselho tem pouca autonomia. Uma decisão de um Supervisor de Ensino vale muito mais do que a decisão tomada pelo Conselho.  Muitas vezes, o Conselho é convocado apenas para referendar decisões tomadas por técnicos, sem a possibilidade de qualquer alteração.

Caberia a Secretária da Educação elaborar um curriculo para todas as unidades, elaborar avaliações externas (com a participação de docentes), que tenham apenas o caráter pedagógico e não decidir se tal escola irá receber bônus ou não. A avaliação tem de apontar os avanços e as dificuldades, orientar a escola em seu projeto polítco pedagógico.Caberia também a S.E dar o apoio pedagógico, através de cursos e de encontros para troca de experiências.

 

Outro ponto que defendo é que o professor trabalhe apenas em uma escola, com uma jornada de 40 aulas. Parte dela em sala de aula e outra parte dedicada a pesquisa, ao preparo de aulas e a  correção de atividades, atendimento aos pais, reforço escolar, e atividades extra-curriculares com os alunos e realizar cursos sem que seja obrigado a deixar a sala de aula.  Fixar o professor numa só unidade, com poucas turnas, faz com que ele se envolva mais, que ele conheça melhor seus alunos.  Tudo isso com uma remuneração digna de sua tarefa. Tendo várias turmas e dois vínculos, a maioria dos alunos, para o professor, possuem apenas um rosto.

Sei que tudo isso tem um custo. Como diz o dito popular, para se fazer a omelete, temos de quebrar os ovos. O financiamento poderia vir dos lucros dos bancos, que ganham muito. Ora, não são eles que gostam de dizer em suas propagandas que tem a qualidade de vida do ser humano como a principal meta? Certamente há várias formas de financiar a educação, como também a saúde. Talvez o grande entrave seja a falta de vontade política. O país precisa de governantes que pensem nas futuras gerações e não na próxima eleição.

 
imagem de fugiendus

Gostei muito do que você escreveu. Penso o mesmo.

 
imagem de Anonimo

Quase não comento artigo de quem não deixa e-mail, já que deve ter feito isso para não debater mesmo.  Depois, seria de bom agrado fazer testa, guardando-se as proporções, com os docente. Acho que não vai ser nada diferente. Acho ainda que a coisa agora é do outro lado do ponto de inflexão: ganhando bem e não tendo nada que perder se o nada acontecer.. vamos a lá praia, oh!!oh!!  E digo isso pelo seguinte: trabalho numa universidade pública e agora não só para formar docente, só ministra aula substituto ou otário que não sabe bajular para ter cargo. De fato, os alunos até fazem a máxima  questão de votar para eleger quem é competente ter cargo administrativo, pois assim  conseguem um menos para sala e fica mais fácil ser aprovado. Afinal, esses não estão na universidade para aprender nada, salvo raras exceçõe (no caso de docente que pretende ir para rede particular estuda por conta), mas para ter um papel chamado diploma. Digo mais: o MEC faz questão de pagar mil vezes melhor através de ganhos extras para docente não aparecer em sala de aula/graduação. Durante os governos Lula, aumentaram muito bem os extras e quantidades de cargos, mas o meu salário real nesse tempo não aumentou mais de R$ 300,00 

 
imagem de Anonimo

[A este respeito, impressionou-me de forma positiva o discurso da Presidenta Dilma (para além da polêmica, também adoto presidenta). Ela disse: "Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso dos professores e da sociedade com a educação das crianças e dos jovens." Me pareceu que há uma intenção de mudar o modo de lidar com o profissional da educação, devolvendo-lhe, principalmente ,a dignidade perdida.] Todos antes sempre disseram a mesma coisa. Essa já teve mais de R$ 500 bi para fazer o que desse na telha e não investiu um centavo disto em educação. Alguém saberia indicar um residencial executado pelo  Minha Casa Minha Vida, cuja mãe de tudo é Dilma, no qual consta creche e escola como parte do projeto?

 

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