Guia prático de destruição do capitalismo

Vamos dar uma pequena contribuição à escalada de manifestações no Brasil no mundo com um pequeno “Guia Prático de Destruição do Capitalismo” mostrando que o verdadeiro inimigo não está nas vidraças de agências bancárias ou nas lanchonetes símbolos da globalização, sempre alvos de depredações. Está na financeirização e liquidez do capital, símbolos da força e, paradoxalmente, também da fraqueza de um sistema baseado apenas na credibilidade através da nossa participação a cada compra a prazo ou quando pagamos através da socialização dos prejuízos das explosões das bolhas financeiras. E a única forma de libertação existente é através daquilo que o filósofo francês Jean Baudrillard chamava de "aprofundamento irônico e proposital das condições negativas". Leia mais »

O demônio é um anjo caído em "O Advogado do Diabo"

Apesar de flertar com temas místicos e espirituais não ortodoxos, Hollywood ainda precisa manter as convenções dos gêneros cinematográficos. Um dos exemplos dessa dualidade vivida pelo cinema comercial é o filme “O Advogado do Diabo” (Devil’s Advocate, 1997) onde o diretor Taylor Hackford tenta inserir uma visão mais matizada e ambígua da figura do Diabo em meio aos tradicionais clichês satânicos reforçados por efeitos de computação gráfica. Através da inesquecível performance de Al Pacino, o filme nos apresenta uma sutil visão do Diabo como uma figura prometeica, um anjo caído e condenado pelo Criador por ter apresentado ao homem o fruto do conhecimento. Leia mais »

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"O Advogado do Diabo" (1997): monólogo final de John Milton

O fenômeno cult "Donnie Darko"

Desde o seu lançamento em 2001, o filme “Donnie Darko” do diretor Richard Kelly tornou-se um fenômeno cult: é um dos filmes mais pesquisados e acessados na Internet (atualmente ocupa a 185° do Top 250 do IMDB), em geral espectadores que buscam uma explicação para enigmática narrativa sobre um adolescente problemático com misteriosas visões de um coelho de dois metros de altura chamado Frank que faz uma espécie de contagem regressiva para o fim do mundo. “Donnie Darko” é um exemplo de filme que se tornou atemporal por amarrar em um inteligente roteiro arquétipos contemporâneos e milenares sobre o tempo, destino e redenção. Leia mais »

Dez patentes sobre controle subliminar da mente

Embora questionada por estudos em neurociências e psicologia cognitiva e proibida por leis e códigos de comunicação e consumo, as formas subliminares de controle da mente e do comportamento se expandem. Pelo menos é o que demonstram o crescimento do número de patentes registradas no The United States Patent and Trademark Office sobre técnicas, sistemas e dispositivos subliminares de indução e monitoramento da mente. Isso sem falar da expansão do “neuromarketing” onde novas empresas surgem para explorar as potencialidades subliminares e comerciais de músicas, sons e aromas, como uma nova e ainda imprecisa ciência. O crescimento das patentes confidenciam a ascensão de uma nova forma de controle social, cada vez mais abusiva e invasiva. Leia mais »

Dez técnicas do kit semiótico da manipulação de multidões

Chamado de “século das multidões”, o século XX nos deixou como legado um verdadeiro kit semiótico completo de ferramentas de gestão do comportamento de grupos e multidões. Esse kit composto por 10 ferramentas é aplicado na sua totalidade ou em fragmentos por políticos, agências governamentais, líderes de seitas, jornalistas e publicitários. Desde as manifestações de rua anti-globalização de Seattle em 1999, observa-se uma crescente importância na manipulação das multidões. A sequência atual de manifestações em diversos países como Brasil, Egito e Turquia nos faria questionar se estariam sendo aplicados nestes eventos ferramentas desse kit. Por isso, vamos entender cada uma dessas dez ferramentas para que possamos reconhecê-las nas ruas ou nas mídias. Leia mais »

A morte é uma mercadoria em "A Pequena Loja de Suicídios"

De forma despretensiosa através de muito humor negro e cinismo, a animação francesa “A Pequena Loja de Suicídio” (Le Magasin des Suicides, 2012) de Patrice Laconte nos faz pensar em uma questão fundamental para a História da Cultura: por que  o suicídio foi sempre objeto de tabus religiosos e repressão ao longo da História? Talvez porque nesse momento derradeiro da vida do indivíduo se exponha de forma dramática as mazelas da sociedade. Na animação de Laconte é a crise europeia e a forma como a ideologia dos negócios consegue ver a infelicidade e o desespero como mais uma oportunidade de mercado.

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental de filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou dez categorias, vem depois. São apenas jogos: primeiro é necessário responder.” (Albert Camus)

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"A Pequena Loja de Suicídios" (2012, legendado)

A estranha distopia francesa "Planeta Fantástico"

 

Ao contrário de muitos filmes anti-autoritários da década de 1970 que com o passar do tempo se tornaram datados e ingênuos, a estranheza da animação francesa “Planeta Fantástico” (La Planèt Sauvage, 1973) garantiu a ela um caráter a-temporal. A estranha, e muitas vezes cruel, história da animação sugere uma atmosfera resultante do cruzamento do surrealismo de Salvador Dali com a narrativa de Gulliver de Jonathan Swift. “Planeta Fantástico” se insere em um subgênero que cresceu nessa década desde o sucesso do filme “Planeta dos Macacos” (1968), o filme AstroGnóstico - narrativas onde aliens caem na Terra e se tornam prisioneiros da crueldade humana, ou o inverso: o homem dominado por aliens cujo conhecimento superior tecnológico e espiritual não é garantia de que sejam bondosos e tolerantes . Leia mais »

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Planeta Fantástico - "Planèt Sauvage" (1973) - legendas em inglês

Em "Revólver" o homem encontra seu pior inimigo: o Ego

Um dos filmes recentes mais subestimados, desprezado pela crítica e pouco visto pelo público. “Revólver” (2005) de Guy Ritchie é uma espécie de cavalo de troia: sob uma embalagem que comercialmente lembra seus sucessos passados como “Snatch” (2000), na verdade o diretor nos oferece uma complexa e instigante jornada interior de um protagonista imerso em um jogo de trapaças e violência. Ele terá que descobrir que o maior inimigo se esconderá no último lugar que você procuraria: no interior do próprio Ego. Por isso a narrativa será sempre pontuada com a famosa exortação gnóstica - "Acorde!".

Depois de filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), o diretor Guy Ritchie teve uma ascensão meteórica: de cineasta independente a um dos queridinhos de Hollywood. Passou a ser rotulado como o “Tarantino britânico”. Mas depois do fracasso com “Destino Insólito” (2002), a mesma indústria que o celebrou passou a esquecê-lo, principalmente depois que ganhou o “prêmio” Framboesa de Ouro de Pior Diretor. Durante seu autoexílio em se país natal planejou por três anos uma resposta. E não poderia ter sido mais brilhante com o filme “Revolver”. Leia mais »

Sexo em um país dividido em "O Leste Amava Diferente?"

A oposição entre Capitalismo e Comunismo durante a Guerra Fria não significou somente a divisão entre diferentes modelos econômicos e políticos. Mas também diferentes vidas sexuais em cada lado do muro que dividia a Alemanha. O documentário “O Leste Amava Diferente? – Sexo na Alemanha Dividida” (2006) confirmaria décadas depois as teses da chamada Nova Esquerda alemã nos anos 1970 a respeito da exploração da sexualidade pela “indústria da consciência”: enquanto na Alemanha Oriental o sexo era francamente discutido nas escolas e na TV, no Ocidente a chamada “revolução sexual” teria sido apenas uma “revolução de vendas” com a expansão da indústria pornográfica e publicitária. Leia mais »

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“Liebte der Osten Anders? – Sex im geteilten Deutschland” (2006) legendas em inglês

Filme Laranja Mecânica é explicado pela Trilogia Star Child

Quarenta e dois anos depois, “Laranja Mecânica” (1971) do diretor Stanley Kubrick continua urgente e moderno. Como todos os filmes do diretor, “Laranja Mecânica” que transmitir muito mais do que conta a narrativa: uma história sobre uma sociedade distópica  aterrorizada por gangues juvenis sob um Estado que planeja resolver seus problemas políticos através de uma técnica de lavagem cerebral. O verdadeiro núcleo simbólico do filme somente poderia ser compreendido através da chamada “Trilogia Star Child” sugerida pelo cineasta e escritor canadense J. F. Martel, composta por “Dr Fantástico”, “2001: Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica”. Esse núcleo espiritual e místico da trilogia é que manteria esses filmes atemporais como verdadeiros arquétipos contemporâneos.

Certa vez Kubrick disse para o ator Jack Nicholson: “Nós não estamos interessados em fotografar a realidade. Nós estamos interessados em fotografar a fotografia da realidade”. Talvez isso explique porque, quarenta e dois anos depois, o filme “Laranja Mecânica” continue atual e com um mesmo caráter de urgência: o filme possui uma estranha atmosfera atemporal como se a sua narrativa ocorresse em um mundo alternativo, análogo ao nosso. A cenografia sugere um futuro ao mesmo tempo familiar e estranho, onde os detalhes banais do cotidiano são distorcidos. Leia mais »

Jornal Nacional e o sorriso do gato de Alice

Dando prosseguimento à nossa perigosa aventura de localização e desmontagem de bombas semióticas, nos defrontamos com um novo e mais letal tipo porque detentor de um efeito tóxico e de longo prazo: a comunicação não verbal do Jornal Nacional da TV Globo. A melhor analogia para entender essa bomba é o sorriso do gato de “Alice no País das Maravilhas” – o seu sorriso permanecia no ar, mesmo quando o gato desaparecia lentamente. O principal telejornal da emissora possui um complexo sistema semiológico para simular espontaneidade de gestos, sobrancelhas levantadas, mãos agitadas, locuções carregadas de vogais e pausas etc. Uma estratégia linguística para, assim como o sorriso do gato de Alice, os signos verbais permanecerem na memória mesmo depois que a notícia for esquecida ou, talvez, nem assimilada. O propósito? Disseminar signos não verbais que sinalizem uma difusa atmosfera de caos, anomia e instabilidade.

No capítulo 6 do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, Alice encontra o gato de Chershire e pergunta para ele se há algum lugar onde não exista gente louca e como chegar lá. O sorridente gato responde que todos são loucos, inclusive ele e Alice e desaparece lentamente deixando apenas o seu sorriso. O gato é o único personagem na fábula que Alice se refere como “amigo”: o seu sorriso se destaca e se autonomiza da cabeça felina. Muitos significados e simbolismos foram atribuídos a esse personagem (sorriso lunar, autoconsciência de Alice de que tudo se tratava de um sonho etc.), mas uma coisa fica evidente: o poder da comunicação não verbal do gato – pouco importa o que ele dizia, seu sorriso enigmático que permanecia no ar era o mais importante. Leia mais »

O subterrâneo da comédia humana em "Kontroll"

Um homem corre pela sua vida através de um túnel entre dois trens; uma figura encapuzada emerge de fissuras na parede para empurrar incautos passageiros nos trilhos do metrô; uma enigmática jovem fantasiada de urso assombra as paisagens labirínticas do metrô. A rede ferroviária do metrô de Budapeste se transforma em um fac-símile da comédia humana no filme “Kontroll” (2003), estreia do diretor Nimród Antal (“Temos Vagas”, 2007; “Predadores”, 2010) e sugerido pelo nosso leitor Joari Carvalho. Antal retoma o arquétipo platônico da caverna, representado no cinema por metrôs, porões, subsolos, estacionamentos subterrâneos, becos etc., para descrevê-lo como um microcosmo onde o protagonista é prisioneiro e uma enigmática jovem tenta resgatá-lo. A integração de drama, suspense, comédia e sátira resulta numa experiência visual única e alternativa. Leia mais »

Os mortos nos esperam em "Les Revenants"

Décadas de corpos de decompondo, sustos e canibalismo no gênero cinematográfico dos mortos-vivos ajudaram a nos fazer esquecer do verdadeiro centro crítico do personagem do zumbi: a crítica social e metafísica por meio do arquétipo contemporâneo do personagem do “Estrangeiro”. O filme francês “Les Revenants” (2004) renova o gênero ao apresentar esse tenebroso personagem na própria acepção da palavra “zumbi”: “espectro”, “fantasma”. Mortos retornam inexplicavelmente do além-túmulo em uma pequena cidade. Eles não querem comer cérebros e nem matar. Voltam calados, como memórias vivas e indesejáveis, mas escondem um propósito. Leia mais »

Monstros e crianças se encontram em uma exposição

Por que o imaginário infantil sempre esteve às voltas com monstros? Por que esses seres fantásticos presentes em todas as culturas, mitologias e lendas ao mesmo tempo assustam e fascinam crianças há gerações? A exposição “Monstros” do artista multimídia Térsio Greguol ajuda a responder essas questões porque expressam o passado e presente desses assustadores seres: a importância do arquétipo do monstro para a criança enfrentar psicologicamente esse mundo e a nova sensibilidade infantil com esses seres, dessas vez paródica e metalinguística.

Desde que Sigmund Freud descobriu que as crianças não eram exatamente anjinhos barrocos, mas detentoras de uma vida psíquica tão ou mais complexa que os adultos, a maneira como encaramos o imaginário infantil com suas fábulas, lendas e cantigas de ninar mudou. Desde a mais tenra idade as crianças estão familiarizadas com emoções perturbadoras como o medo e a angústia. São experiências que fazem parte do cotidiano. Elas têm que lidar constantemente com frustrações, angústia de perda e abandono, o medo da escuridão e do isolamento. Leia mais »

Globo faz programa tautista sobre "Honestidade"

 

Em meio ao debate do programa “Na Moral” Antônio Fagundes cita a fábula de Platão do anel da invisibilidade de Gyges para discutir ética e honestidade. Risos amarelos de Pedro Bial e da cantora convidada Gaby Amarantos diante de um momento de dissonância. Segundos de indecisão do surpreendido Bial, que toca o programa pra frente, sem comentários. “Na Moral” detona mais uma bomba semiótica na opinião pública (criar uma relação metonímica entre o impeachment de Collor em 1992 e as manifestações atuais), porém essa explosão parece que saiu pela culatra: esse momento de dissonância criado por Fagundes demonstrou o progressivo autismo da emissora que teimosamente tenta interpretar a realidade através da tautologia, auto-referência e metalinguagem. Seriam sintomas do “tautismo”, espectro que ronda a Globo que, para especialistas em comunicação e linguagem, são sinais de entropia de sistemas que adquiriram tamanha complexidade que não mais se sustentam. Leia mais »