A dona das cocadas

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Quando a tememos, a morte nos espera mais de perto. Às vezes, em outras vezes, é a vida que está a espreita, como se fosse um feixe de luz insistente a passar. Para medos de vida e de morte, sempre pensei que se fosse me dada a chance de saber que aquela era a hora de ir embora desse mundo, eu pensaria no calçadão da minha infância, na praia do verão, passeando com a família e comendo cocada. Essa será minha lembrança derradeira desse mundo se eu tiver a chance de ter uma. Mas esse não é um texto mórbido. Se falo dessa eleição é para dizer do quanto de vida cabe nela. E como a vida é vida até o último segundo dela. Até não ser mais.
Era sempre após a soneca da tarde que eu e meu irmão íamos passear no calçadão da praia, segurando a mão de nossos pais, os olhos embevecidos do mar, olhos que viviam longe dele. E íamos por aquele calçadão imenso, imensa é a vida, atrás das cocadas mais variadas. Era cocada de todo tipo. Leia mais »

Ser irmã de um homem

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Muitas vezes quis outras coisas da vida. E se eu tivesse ido para a esquerda e não para a direita? Mesmo que não faça exatamente parte da minha personalidade me ater a pensamentos assim, já os tive, penso que é natural os ter. Mas se há algo que nunca quis que fosse diferente, com toda certeza algo que nunca me passou pela cabeça foi o desejo de ser filha única. Os irmãos ensinam muita coisa, é bom ter com quem dividir a vida, as alegrias e as tristezas de vir de onde se vem. Ter os pais que se têm. Apenas um irmão que cresceu com você sabe, de uma maneira ou de outra, o que é ter aquela família, passar por aquelas lembranças. É certo que não sou ingênua e sei que muitos irmãos não têm a melhor das relações e outros são abaixo de qualquer expectativa de companheirismo. Mesmo assim, sou capaz de dizer com pouco tempo de conversa quem foi criado sendo filho único ou não. E aqui não cabe uma definição de valores, isso é melhor ou aquilo é pior. Cada um, e retorno ao começo do texto, tem a vida que lhe cabe como ela foi e ainda será. Leia mais »

Não é Julieta quem quer

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Fácil mesmo é saber que devemos fazer o café com a água fervendo, que o molho do macarrão deve cozinhar para perder o gosto do tomate ou que a chuva cai sempre quando estamos sem sombrinha. Não é uma tarefa especialmente difícil amarrar o tênis, lavar o cabelo ou regar uma flor. Mesmo que possamos escolher se o café é mais amargo ou não, não, não é tarefa difícil. Quando um dos meus escritores preferidos, o Lobo Antunes, lançou um livro com o título "Não é meia noite quem quer", algo foi explicado para mim, algo que não pertencia à categoria das coisas fáceis como abrir um lata de atum mas também não era tão difícil. "Não é quem quer" passou a ser uma categoria de avaliação das coisas da vida. Essas que são difíceis mas também são parte de um molho de macarrão, um vinho ou uma flor na varanda. Sabemos de muitas pessoas, algumas vezes, muito mais do que elas, elas mais que a gente, quem vai dizer ou escutar o quê já pode ser motivo de discórdia. Muitas pessoas sabem muito de como fui bailando pela vida e então eu posso dizer "você sabe, é como sou". Leia mais »

Sapos e Afogados

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Haveria quem, um dia, pudesse acreditar em um mundo melhor. Não porque nosso maior ofício, essa lida diária da vida, seja especialmente fácil ou, quem sabe, ordinariamente feliz. Haveria quem, quase todos os dias, pudesse acreditar em que mundo em que todos os tons de cinza se encerassem. Que bastasse. Que não se prolongasse. E que fizesse tudo isso com suas próprias palavras, essas que sempre se ascendem do lado de fora. Leia mais »

Alma belorizontina

Autor: 

Lembro-me de uma crônica de Machado de Assis, preocupado com a modernização (inevitável) da capital carioca e pedia, quase como um suplício, que poupassem a Rua do Ouvidor, aquele reduto de uma certa alma carioca.

Por que essa lembrança me vem tão forte, neste momento? Algumas de minhas lembranças quando criança, são coisas tenras que marcaram aquele período. Um de meus programas semanais era comer a pipoca com queijo da Praça do Papa, a pipoca doce do centro, o amendoim caramelizado que, invariavelmente, acompanhava o carrinho do pipoqueiro. Eles (os pipoqueiros) estavam em todos os lugares: portas de teatro, escolas e até (acreditem) no maior shopping da cidade. Apresentavam a nós, crianças daquela época, um mundo de escolhas que fingíamos difíceis a despeito de deliciosas: "quer o saquinho meio a meio?" ;"só salgada?" ou "só doce?". Com seus chamativos: "olha a pipoca quentinha" que me fazem crer, até hoje, que poucas coisas são tão charmosas quanto um carrinho de pipoca e sua luz trêmula. Leia mais »

Alma belorizontina

Autor: 

Lembro-me de uma crônica de Machado de Assis, preocupado com a modernização (inevitável) da capital carioca e pedia, quase como um suplício, que poupassem a Rua do Ouvidor, aquele reduto de uma certa alma carioca.

Por que essa lembrança me vem tão forte, neste momento? Algumas de minhas lembranças quando criança, são coisas tenras que marcaram aquele período. Um de meus programas semanais era comer a pipoca com queijo da Praça do Papa, a pipoca doce do centro, o amendoim caramelizado que, invariavelmente, acompanhava o carrinho do pipoqueiro. Eles (os pipoqueiros) estavam em todos os lugares: portas de teatro, escolas e até (acreditem) no maior shopping da cidade. Apresentavam a nós, crianças daquela época, um mundo de escolhas que fingíamos difíceis a despeito de deliciosas: "quer o saquinho meio a meio?" ;"só salgada?" ou "só doce?". Com seus chamativos: "olha a pipoca quentinha" que me fazem crer, até hoje, que poucas coisas são tão charmosas quanto um carrinho de pipoca e sua luz trêmula. Leia mais »

Uma metralhadora de palavras

XIX (Para o aniversário de Cristiane Barreto)

Impregnação palavriana

Uma carta para vocês

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Belo Horizonte, 10 de agosto de 2009 Leia mais »

Menina Feita de José

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Foi como o dia em que te conheci e que tudo era muito recente. Minhas mãos, meus olhos, meu nariz colorido de tinta. Você era aquele senhor por vezes doce, por vezes duro, assim como foram também as pessoas que amei depois de você. Foram seus olhos que primeiro me viram e também te vi, é certo que sim, mas não sabia ainda o que era você ou o que era o mundo.

E assim, menina medrosa que fui sempre, cresci. Cresci vendo os anos passando muito mais rápido para você do que para mim. Vieram a bengala e os sapatos que não escorregam, enquanto eu queria correr descalça, eu queria alcançar o mundo. Você me mostrou as rosas, os jardins, me chamou de menina, me disse bonita, me disse levada. Não gostava de mim todas as horas. Aprendi com você, então, que paciência não tinha a ver com o amor. O amor era outra coisa. Leia mais »