Re: O debate sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato

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Andre Borges Lopes

Em "O Presidente Negro", Monteiro Lobato defende a singular idéia de que a solução para os conflitos raciais nos EUA passava pela castração química da população afro-descendente, implementada "à traição" por meio de uma pasta vendida como alisador de cabelos, que tirava a potência sexual dos negros. Simples assim.

Ele tentou lançar o livro nos EUA, achando que iria ganhar muito dinheiro com isso. Os editores norte-americanos, muito sensatamente, não compraram a idéia. Prestaram a ele um grande serviço: Lobato poderia ter virado mais um guru ideológico da KKK, o que seria bastante constrangedor. Em 1927, depois de ouvir as negativas, Lobato escreve para Godrofredo Rangel com sinceridade chocante: Meu romance não encontra editor. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Acho que dispensa comentários.

Pessoalmente, eu considero a literatura infantil do Lobato encantadora. Li em criança, com enorme prazer, quase todos os seus livros. Seria um absurdo tentar impedir que as novas gerações tenham contato com essa produção. Mas qualquer discussão a respeito do uso didático da sua obra tem que partir do princípio de que ele não era apenas "um homem do seu tempo": Lobato era um homem racista num tempo em que a idéia "científica" de supremacia branca já era duramente contestada em todo o mundo. O famoso "Mein Kampf" é praticamente contemporâneo a "O Presidente Negro", mas ninguém acha que Hitler era apenas "um homem do seu tempo". Tentar esconder ou amenizar o fato de que Lobato era, ao seu tempo, um racista da mais odiosa estirpe é a pior forma de começar a discussão.

Apenas para fazer uma provocação: houvesse Lobato escrito em 1927 um livro pregando a purificação étnica da Europa Central por um processo de castração química da população judaica, e eu duvido que os jornais e revistas da grande imprensa brasileira gastassem hoje uma mísera gota de tinta para defender a a adoção nas escolas da sua boa literatura infantil.

 

André Borges Lopes www.bytestypes.com.br