Houve época, lá pelos 70, que o “Milagre Brasileiro” serviu aos ditadores de plantão para justificar as brutalidades do estado de exceção. Este milagre nada mais era do que a utilização da capacidade ociosa que adveio do arrocho do período anterior, obra de Roberto Campos. Não posso e nem devo versar sobre as questões econômicas que ocuparam páginas e páginas de jornal e também da literatura econômica. Acho até que estas páginas lidas hoje (já fiz esta experiência) têm um misto de ingenuidade e esperteza, ambas à justificar arrocho salarial, e também a tortura. O que desejo é oferecer o testemunho contemporâneo e a vivência de quem projetou, construiu equipamentos de tecnologia eletrônica, atualizada à esta época, anos 60 e 70.

 

             Como a esta época, ainda inexperiente e absolutamente voltado para técnica, já percebia uma diferença notável entre a multinacional avançada e a empresa familiar. Já nesta época mostrando um abismo de gestão, uma pagando melhor buscando evoluir os quadros dirigentes, com as intenções normais de competência hegemônica e monopolistas, e a familiar, enredada em conflitos internos, desperdícios e mordomias uma coisa realimentando outra. Não precisa ser dito que se fizéssemos um inventário das empresas familiares, ainda que de grande porte, pouco sobraria. As que sobraram fizeram-no à custa de fusões com multinacionais. Nada contra, se este sacrifício fosse compensado em divisão de renda, mas ocorreu exatamente o oposto; a concentração de renda neste período elevou o índice GINI aos patamares mais altos e que agora, recalcitrante, custa a baixar.

 

                    Pela percepção, ainda que atenuada pela experiência neófita, do comportamento gerencial e pelas tentativas de nacionalizar a tecnologia, contrapartida da geração e fortalecimento de empresas estatais (Embraer, Telebrás e subsidiárias estaduais, Eletrobrás e subsidiárias geradoras e distribuidoras, Itaipu e Tucuruí em destaque, Embrapa, Embratel, algumas produtoras de componentes eletrônicos e fibra-ótica, pude testemunhar também, na área de informática, evolução significativa. Na área de eletrônicos domésticos (TV e som) o salto foi exponencial. Pude participar aí de algumas experiências significativas. Mas, paralela à esta evolução, reduzia-se o mercado interno pelo achatamento salarial e a simultaneidade dos efeitos na nossa economia do Milagre Japonês. A esta altura o nosso Milagre definhou e passamos a importar de tudo que era eletrônicos doméstico/industriais e mesmo na área de informática e telecomunicação. Praticamente não sobrou nada; gostaria de lembrar nomes, que povoaram nossos comerciais de TV,  que darão até saudades:

 

Televisões Emerson, Canarinho, ABC, Zenith, Cibeal, Jóia, Colorado e eletrodomésticos brancos, Climax, Lustrene, Coldspot, Frigidaire, Gelomatic, Hotpoint, Maveroy, …. Desculpem-me a memória “retrô”.

 

                Mas o que ocorreu então? Simplesmente deixamos o estado à revelia e presa fácil de interesses externos. Junto com as empresas brasileiras foi-se o Estado. Escusado dizer que a corrupção e impunidade encontraram aí terreno fértil para florescer; estamos pagando o preço até hoje. Ainda tenho que ouvir que o atraso se deve unicamente à nossa origem lusitana, quando ainda me lembro nos 70 do escândalo Lockheed derrubando primeiro ministro no Japão e até reis na Europa. Nada mais do que isso. Estarei simplificando? Não, não adianta ficar regredindo aos tempos pretéritos à República. Basta que se retroaja meio século para poder ver as causas imediatas desta amoral concentração de renda, a esta concentração urbana desumana contaminada nas favelas, ao pobre estado de saúde da população … e demais mazelas. Simplesmente o Estado parou de funcionar, pois foi volitivamente esvaziado. Não foi nada espontâneo, cibernético ou casual. Foi parte de um movimento em direção à América Latina e outras nações. Mas no nosso caso, facilmente perceptível. Eu mesmo neófito, sem qualquer sofisticação ou preparo acadêmico o percebia. Somente fui saber que se tratava do parto neoliberal à posteriori, quando a doença já estava inexoravelmente instalada.

 

             Diante então do esgotamento do hospedeiro, estes, os Estados vítimas da infeção neoliberal, só poderá haver uma saída, ou seja: recuperar o Estado. E esta recuperação terá de ser paralela à recuperação e mesmo à criação da indústria manufatureira, desde a criação, o projeto e fabricação. Para tanto há de se proteger ( é este o nome mesmo ) a indústria brasileira. A proteção se justifica e se obriga dado ao cenário competitivo, nem sempre praticando o que a letra dos acordos internacionais prescrevem.

 

             Mas recuperar o tempo perdido passa pela formação de quadros, pela recuperação da educação, mas não nos enganemos é dever do Estado prestigiar aqui e agora as empresas que já mostram sinais de responsável inovação, empregabilidade e responsabilidade social. Se o Estado não praticar em suas encomendas e não praticar na sua condução a preferência pelo nacional, voltará a ser aquele Estado desmoralizado, infestado de “barnabés” alcoviteiros dos interesses mais alienígenas possíveis. As empresas estão aí, nossos jovens estão aptos e esperando oportunidades, basta agora justificar um mínimo de esperteza.

 

            Meu testemunho é que cheguei, em tempos pretéritos, a ter chance de aprender e praticar. Porque iria agora negar a mesma chance aos jovens que hoje chegam ao mercado de trabalho? É neles que estou pensando, mais do que em qualquer teoria ou discurso empolado. O Estado e seus gestores tem agora a consciência no que deu a irresponsabilidade e a hipocrisia neoliberal ( neo-boba como dizia um muito antigo presidente ). Não dá mais para sofismar, temos que criar as condições para que sejamos lembrados como a geração que deu certo. Caso contrário, nossos filhos poderão lembrar dos planos econômicos do passado. Temos de dar certo.

 

 

 

1 comentário
imagem de Anônimo

Para completar, segue um artigo que eu postei sobre o setor das telecomunicações no Brasil:

http://www.ddi-ddd.com.br/blog/qual-e-o-setor-mais-promissor-do-brasil/

Parabens pela qualidade dos artigos.