A tristeza profunda infundada, a marginalizaçăo da sociedade, a insustentável alegria alheia e a inadaptaçăo ao mundo existencial săo sentimentos que dominam uma pessoa que está passando por um processo de desordem emocional, como o caso de quem é acometido pela depressăo. Patologia reconhecida pela Organizaçăo Mundial de Saúde, a depressăo é responsável, na maioria das vezes, por sentimentos que se sobrepőem aos esforços feitos no sentido de superar tais situaçőes, gerando danos irreversíveis à pessoa afetada, dada a impotência que lhe é imputada.. O sentimento de quem vive esta situaçăo é de perda absoluta, năo vislumbrando uma luz no fim do túnel, uma luta inglória sem possibilidade de defesa, impotência ou eventual compreensăo junto aqueles que o cercam, tudo isto somado aos vazios que já nos assolam diante de tantas injustiças sociais, de má distribuiçăo de riqueza, do abandono de nossas crianças, brutalidade e egocentrismo que rege este mundo de meu Deus. Por mais que a ciência evolua e disponibilize medicaçőes avançadas, que realmente consigam dar o famoso up-grade nos neuro-transmissores cerebrais, nem sempre é possível nivelá-los a brutalidade externa. A imagem dos deprês é denegrida por aqueles que se intitulam portadores do alto astral, que ousam traçar o perfil psicológico dos portadores da desordem emocional, como se os deprimidos năo fossem seres dignos, aptos e talentosos para desenvolverem função produtiva na sociedade. A última década do século XX foi dedicada às pesquisas do cérebro, à inteligência, às emoçőes, às mazelas e às incertezas dos buracos negros desconhecidos pela ciência e que tanto assombram os indivíduos. Este processo năo é de forma alguma, privilégio de um ou de outrem, mas sim, săo limitaçőes e dificuldades provenientes da doença inerentes a qualquer um de nós seres humanos, sem piedade de credo ou cor, hierarquia social ou riqueza material. Doenças, falhas, pontos fracos e possibilidades de melhorias fazem parte da existência humana. Como a alegria e a felicidade também. Temperamentos a parte e considerados os diferentes perfis de personalidade, ninguém está livre de vivenciar este ou qualquer outro episódio, seja negativo ou quisera positivo, que nos impinja a depressăo. Que a depressăo ou distimia, como alguns profissionais da saúde costumam diagnosticar em casos mais leves, é impeditiva, limitadora, arrebatadora, coloca a pessoa na escuridăo, na solidăo e a emudece, năo há dúvida. Mas em nenhum momento, consideramos que săo seres humanos inferiores e intelectualmente menos providos do que os alegres, felizes e militantes ativos da vida. Muitos de nós conseguimos manter em nossa trajetória de juventude e até durante a maturidade, o ânimo e estímulo suficientes para o alcance sistemático de anseios e sonhos. Nos últimos tempos percebe-se uma popularizaçăo do tema depressăo, engatado no vácuo do famoso e difamado estresse, aquele mal estar de executivos - (sim, porque executivo năo tem depressăo, fica estressado) - estampado em artigos rotineiros de revistas, jornais e em debates de televisăo, pulverizando e confundindo a doença com a ausência de religiosidade, falta de caráter, falta do que fazer, baixo astral, fricote, ataque de histerismo. Alguns chegam atribuir à frescura de mulher. Há uma linha tênue entre informaçőes fidedignas, de base científica, literatura fundamentada sobre o comportamento humano e sua psiquê, visăo holística, gestăo organizacional, e o equívoco do charlatanismo de alguns tidos consultores a até religiosos, que confundem problemas emocionais, doença mental com ausência de força de vontade ou produtividade. Esperamos que fruto deste processo polêmico e ainda conturbado, que săo as doenças da mente, surja a comunhăo entre o avanço da ciência através de pesquisas cerebrais e comportamentais, atrelada à liberdade de expressăo, o poder e a facilidade de comunicaçăo que dispomos no mundo moderno, para que juntos, possamos disseminar informaçőes que venham ao encontro e beneficiem a todos nós necessitados. Já caminhamos para isto, mesmo que ainda timidamente. Em literaturas especializadas, tanto da área médica como em conteúdos técnicos de gestăo de empresas, depoimentos de casos reais, visőes estratégicas de estudiosos do comportamento humano, especialmente perante às organizaçőes economicamente produtivas, começam a refletir a importância do ativo intangível, do maior bem que uma organizaçăo dispőe, do maior bem capital, o intelectual, o ser humano, pessoas. Descortinam-se investimentos dispensados aos talentos individuais dos recursos humanos, tentando habilmente diagnosticar as tendências de aptidőes profissionais dentro das organizaçőes. Através da competência e respeito, sabe-se também, mensurar as limitaçőes. Quando me refiro a limitaçőes, incluo aí também os empregadores, os detentores do poder, pois săo os mais indóceis aos processos culturais de transformaçőes. As pessoas, de maneira geral, săo muito cheias de pruridos para tratar deste tipo de assunto. Nossa sociedade e cultura năo nos permitem discorrer sobre o tema. A hipocrisia de nossas atitudes fala mais alta e nossas vaidades nos emburrecem. É mais cômodo aceitarmos que estamos bem. Refletirmos sobre nós mesmos, exige muito de nossas amarras internas, e irá nos fazer sofrer. Poucos percebem que o resultado é sempre o caminho do crescimento, pois aprendemos a nos superar. Mas, para tanto, é preciso que nos libertemos em grupo e com o grupo o qual pertencemos, nossa tribo, porque senăo vamos parecer uma minoria enlouquecida e revoltada, seremos execrados. Os profissionais das gestőes modernas săo indivíduos que geram lucros năo só para a empresa, mas para si próprios, năo só importando o retorno material de benefícios imediatos, mas acima de tudo, o afetivo, pois sua relaçăo diária na produçăo de trabalho torna-se prazerosa e fiel ao ambiente em que atua. Como resultado deste processo, percebe-se claramente muito mais gente feliz em relaçăo as suas vidas pessoais, afetivas, familiares e amigos, mais abertas e disponíveis para o novo, o inusitado, à capacitaçăo e produçăo em seus ambientes de trabalho. Quando o caminho dá-se ao inverso, muitos profissionais, salvo raras exceçőes, passam suas vidas se sentindo psicologicamente aterrorizados em seus ambientes de trabalho, subservientes às hierarquias, portando-se como seres monitorados e manipulados. Óbvio que săo pessoas que já carregam esse perfil comportamental de suas origens. Comportam-se da mesma forma em relaçăo aos seus pares, família e amigos. Quando solicitados a opinar, eleger, decidir diante de um desafio, recuam, acuados diante inusitado, pois năo exercitam o hábito de verbalizar seus sentimentos. Para a empresa, é mais barato e cômodo mantê-los assim, năo incomodam, mas, também, em momento algum agregam valor à organizaçăo. Geralmente săo considerados bons funcionários, pois cumprem horários e normas. Săo aqueles famosos disciplinados. Năo raro expressam emoçőes, quiçá pensam, já que correm o risco de externar algum conhecimento. Sabedor que năo sabe tudo, seduzido pelo descortinar do conhecimento, o novo modelo de profissional, hoje, agrega pessoas com perfis ansiosos, pois têm a necessidade de entender e conhecer o que se passa ao redor. Năo se satisfazem com o pouco que lhes cerca, muito menos com o que simplesmente lhes é despejado. Acima dos interesses capitalistas em que vivemos, que nos săo básicos à subsistência e que até apreciamos muito, pois fomos criados almejando o conforto, dinheiro, conhecimento, somos vaidosos e ambiciosos, faz-se imperativo prevalecer a serenidade da alma e do espírito, a fidelidade de sentimentos, coerência de posturas e reflexão ética.. A partir do momento que a vaidade egoísta pessoal se sobrepőe à essência das relaçőes interpessoais, é sinal de que o processo é falso. O profissional de nossos tempos năo se intimida em externar sua criatividade. Chavőes do tipo "obedece quem tem juízo, ser dissimulado, engolir sapo, manter o emprego", săo subordinaçőes já năo mais admissíveis e aceitáveis nos mercados de trabalho competitivos globais. Os sobreviventes das emoçőes depressivas, obviamente quando năo sucumbem ao desafio do enfrentamento da doença, além de continuarem vivos, amadurecem, pois tiveram a humildade de admitir sua limitaçăo patológica e impotência diante da questăo. Buscam auxílio externo profissional. Permitem-se a readaptaçőes e a transformações que a vida lhes impőe. O mesmo processo deveria servir de exemplo aos dirigentes empresariais, aprendendo a saber recuar em tempo hábil. Pobres e tristes săo aqueles que se negam a admitir quaisquer possibilidades de falha em suas atitudes, năo corrigem rotas de comportamentos e se negam a aprender a pedir perdăo. Săo seres estáticos, imutáveis, emperrados em suas heranças de uma sociedade machista e tendenciosamente acobertadora dos deslizes masculinos e imperativos, amparados em seus paletós e cargos superiores (desculpe, năo resisto ao pensamento feminista). Mas, e quando os cargos forem embora, o sentimento que fica é que nem os amigos sobrarăo, porque nunca os tiveram.