Segundo a poetisa e tradutora Alba Lucis “um mesmo rio deixa correr por debaixo de si muitos outros”. Nesse sentido, o que vemos em termos de temperatura da água, sua velocidade e cor podem não ser, e na maioria das vezes não é, o que se sucede muitos níveis abaixo, onde a água pode estar mais fria, mais escura e numa velocidade diferente. Assim também é a descrição da realidade, das disputas, das coisas, da vida, enfim. As coisas podem não ser o que parecem, quase sempre não são.

Qual é o rio que realmente corre por debaixo desse Brasil que ora vivemos? Existem muitos brasis em disputa por hegemonia. O Brasil conservador, o Brasil liberal, o Brasil de esquerda e o Brasil de direita, o Brasil religioso e o Brasil ateu, o Brasil tradicional e o Brasil pós-tradicional, o Brasil da capital (Rio de Janeiro e São Paulo) e o Brasil do interior, o Brasil das grandes mídias e o Brasil das redes sociais, o Brasil católico e o evangélico. Estes modelos convergem, se mesclam, divergem se contradizem, se complementam, se negam, se afirmam. Dificilmente um deles conseguirá se firmar integralmente sem a coparticipação de outros, ou, outros.

Estamos assistindo estes brasis em plena disputa na mídia, no palco político, na internet, nas igrejas, nas discussões em casa, em todo lugar. O debate deixou de ser uma prerrogativa de acadêmicos e colunistas de jornais e ganhou todas as redes, virtuais ou analógicas. Feliciano é o atraso ou outro lado da vanguarda? Ele representa o passado ou um novo presente? Não são questões fáceis, são brasis em busca de afirmação. É o atraso e o moderno se abraçando e se contorcendo nos confundindo sobre quem é quem.

Anos atrás a ex-prefeita de São Paulo, Marta (não mais Suplicy), disse que era necessário acabar com a família tradicional. Não disse nada além disso, nem ao menos pelo o quê deveria ela, a família tradicional, ser substituída. Mas com essa fala apontou aquilo que deveria, na opinião dela, mudar. Segundo informações, não confirmadas, o Brasil teria cerca de 10% de gays. No Canadá, EUA e Inglaterra esse número não passa de 3%. Mas ainda que seja 10% vale a pena discutir à luz dos brasis em disputa.

Observando a teledramaturgia global, e os telejornais em geral, nota-se um grande assento na temática gay, especialmente no que trata de preconceito e violência. O mesmo não acontece quando observamos as propagandas e publicidade dos intervalos comerciais da TV. Neste caso, nota-se uma clara intenção em não dar nenhum tom homossexual ou algo que possa ser entendido com tal. Essa postura das empresas e corporações privadas revela uma política de marketing que está mais preocupada com aquilo que a sociedade é do que com aquilo que ela poderia ser, como ficou entendido, pelo avesso, no comentário da ex-prefeita de São Paulo. Por que a empresa TV tem uma postura assumidamente pró-gay e as empresas que nela anunciam não, é parte do que falaremos a seguir.

Evidentemente que a vida e a cultura em que o gay está inserido, ou procura se inserir, estão naturalmente mais voltadas a uma experimentação social mais liberal e cosmopolita em termos de comportamento, não necessariamente liberal em termos políticos. Nesse sentido, um gay pode ser liberal culturalmente, mas conservador politicamente. A afiliação em massa dos gays nos partidos de extrema direita, na Inglaterra, depois das convulsões sociais neste país em 2011 é uma prova disso.

Nenhum grupo social seja hetero, monogâmico, étnico, religioso, ateu, indígena, rural ou outro qualquer tem tanta mídia gratuita no Brasil como os gays têm. Das novelas, especialmente globais, passando por uma quantidade avassaladora de reportagens de teor jornalístico, nunca um grupo social foi tão retratado como são os gays na grande mídia nacional. Isso é tão verdadeiro que dificilmente qualquer assunto que resvale algum interesse desse grupo passa sem uma imensa repercussão midiática, ainda que eles representem, segundo dados não confirmados, 10% da população (de acordo com a média dos outros países que é de 3%, é bem provável que aqui seja menos). O que está em questão evidentemente não é a transformação do mundo numa colônia gay, mas certamente trata-se de ser hegemônico do ponto de vista cultural. Mas ao contrário do que se pode pensar, essa hegemonia não significa hegemonia da cultura gay, que na verdade é muito circunscrita, quase toda ela reduzida a temática sexual e familiar.

O gay é apenas um estratagema, um vetor. Isso é fácil de notar quando observamos que na França, recentemente, uma parcela significativa dos gays marcharam ao lado dos católicos, religiosos e conservadores de todos os matizes contra o casamento e adoção gay. Qual é o pano de fundo? Os gays que marcharam com os religiosos são contra a família e a favor de uma cultura cosmopolita sem tradição. Em uma palavra, estes gays entendem que casais homossexuais são conservadores e tradicionalistas ao adotarem procedimentos e comportamentos dos heterossexuais ao defenderem tanto o casamento como a adoção pelos gays.  Marchar junto foi uma aliança tática importante tanto aos conservadores como aos gays fiéis ao legado de 68. Em uma linha, os gays lá, pelo menos uma parte deles, estão mais preocupados em manter o corte cultural fronteiriço, de vanguarda do que ter direitos tradicionais dos casais heterossexuais, que para eles é retrocesso.

Voltando ao caso do Brasil fica claro ao observador mais atento que o gay é apenas o vetor de outra cultura que se quer instalar no Brasil, e que faça frente e enfraqueça a cultura tradicional, toda ela religiosa, conservadora e interiorana. A demanda dos gays, aqui, por casamento e adoção, se liga mais a cultura tradicional familiar brasileira do que a cultura cosmopolita, de vanguarda que é essa sim, a que se pretende instalar o mais rápido possível entre nós e, que certamente é aquela que se tenta vender nos programas de TV Brasil afora. Nesse sentido, os gays são um vetor dessa cultura, mas não necessariamente o tempo todo, nem sempre.

Mas a disputa por hegemonia não é apenas entre evangélicos versus homossexuais. Os evangélicos não se afirmam apenas em relação aos gays, mas fazem uma luta de trincheira todos os dias contra os católicos e religiosos de todos os tipos. Suas espadas desembainhadas contra as religiosidades negras da Bahia, ainda que tenham assimilado todo o universo semântico e totêmico destas religiões, é uma evidência de que os evangélicos lutam em várias frentes. Assim como do ponto de vista político o PT representa a emergência de uma nova elite, sustentada por uma política que, ainda que conservadora, significou e tem significado um novo papel ao pessoal do andar de baixo, e essa mudança atinge e enfraquece em grande medida os representantes do poder que se sustentavam a partir de uma outra estratégia; assim, também, esse grande e forte embate entre uma cultura gay que se faz emergir - mais por força e iniciativa de grandes grupos de poder do que dos gays propriamente dito - e o os evangélicos, representa dois brasis em disputa. Católicos, gays e evangélicos são apenas uns entre outros grupos em luta pelo máximo de poder e hegemonia neste inicio de século.

Enfim, a disputa não é entre evangélicos e gays. É entre um Brasil profundo, religioso, conservador e interiorano e outro que quer ocupar seu espaço, cosmopolita, desenraizado, que se individualiza e se desprende de qualquer tradição. Mas é também entre uma cultura religiosa tradicional, católica, e outra que quer ocupar seu lugar, evangélica. À medida que o país se desdobra tentando superar seu atraso social histórico, à medida que amplia a participação subalterna dos pobres via programas sociais de todos os tipos, uma nova e moderna orquestração cultural e comportamental, ligada aos centros culturais do mundo avançado, tenta se impor e prevalecer em contraposição àquele Brasil religioso e interiorano em mudança.

Olhar o Brasil pelo embate barulhento entre aqueles dois grupos, gays e evangélicos, é ver apenas a lâmina de água que corre superficialmente, perdendo de vista o rio profundo que se desloca e muda tudo. Luciano Alvarenga