Redemocratização do Chile representada nos cinemas remete à história brasileira. No próximo domingo ocorre a entrega do Oscar 2013, tão esperada pela mídia. Desta vez, apesar de não termos nenhum representante brasileiro indicado para concorrer a Melhor Filme Estrangeiro, podemos dizer que, em parte, nossa história latina está representada na película chilena No, de Pablo Larraín, exibido em diversos cinemas do país. O filme reconstitui momentos do final da ditadura Pinochet e da campanha do histórico plebiscito de 1988, peça fundamental no processo de abertura do duro governo militar e redemocratização do Chile. Mas, longe de enaltecer as qualidades cinematográficas do filme ou elaborar mais uma sinopse, a intenção aqui é apenas destacar algumas pontuais semelhanças e diferenças existentes nos processos de redemocratização do Chile e Brasil, a partir de aspectos abordados na película.

O trama se passa no Chile e, como dito,  gira em torno da campanha para o plebiscito, em que o povo decidiu sobre o apoio (Si) ou rejeição (No) ao governo Pinochet. O plebiscito de 05 de outubro de 1988, fora antes uma tentativa de validação do regime arquitetada pelo próprio poder ditatorial, do que uma real abertura democrática. Tentativa esta que “saiu pela culatra” com a vitória do No e sua campanha “Chile, la alegría ya viene. Os 54,7% dos 7,2 milhões de votos do “não” consagraram um golpe magistral ao regime Pinochet e foram fundamentais para o fim da era ditatorial, com a eleição livre de Patricio Aylwin em dezembro de 1989.

No Brasil, o processo de redemocratização ocorreu de modo muito diverso a este. Apesar da inestimável importância e abrangência do movimento pelas Diretas Já, o primeiro presidente civil pós ditadura não foi eleito por voto direto, nem tampouco a população pode demonstrar sua insatisfação com o regime por meio de uma consulta pública. Muito pelo contrário, a redemocratização se deu na maneira como mais convinha ao regime e à manutenção da ordem e estrutura dominantes no país. O processo de abertura se deu quando os objetivos disciplinares do regime já haviam sido alcançados e cristalizados na população.

A “conquista democrática” no Brasil acabou sendo, em parte, ofuscada por uma série de últimas “cartadas de mestre” dos militares para eternizar seu legado na estrutura social e econômica do país. Não foi apenas uma medida, mas uma série de determinações finais do regime ditatorial que criaram um abismo praticamente intransponível que não permite limpar seus rastros. Dentre elas, o país tem que lidar até hoje com a interpretação distorcida da Lei da Anistia, que decretou o auto-perdão aos torturadores; os militares conseguiram a garantia de que o primeiro vice-presidente civil dessa nova etapa fosse um membro nascido no Arena, tornando até hoje José Sarney um dos homens mais poderosos da política brasileira; conseguiram a definitiva e constitucional militarização da segurança pública; sem falar na permanência quase intocada da estrutura degenerada implantada pelo regime nos âmbitos político, social, cultural, educacional, judicial e na saúde. De modo que a redemocratização foi muito mais suave com o que realmente deveria ter sido revisado após os 21 anos de ditadura civil-militar.

Outro aspecto significativo retratado no filme, desta vez aproxima de modo muito atual ambos os países. O modo como foi elaborada a campanha pelo No traz grandes semelhanças com a maneira como se faz política hoje no Brasil. Tal como afirmou um dos lideres do movimento de redemocratização do Chile, Heraldo Muñoz, para conseguirem a vitória, teriam de “jogar o jogo de Pinochet”, e assim o fizeram. Na película é enfatizado o caráter publicitário da campanha vitoriosa pelo No. O personagem publicitário René Saavedra, estrelado por Gael García Bernal, insiste que a campanha deveria ser leve, enfatizar a alegria, omitir os depoimentos das vítimas da ditadura e, principalmente, a campanha deveria ser tratada como um produto. Ao comparar com as campanhas políticas brasileiras, pautadas na força da coalisão e do marketing, não há muitas diferenças entre os países. Desde a fatídica eleição do Collor em 1989, os “marqueteiros” tornaram-se peças centrais na campanhas políticas vitoriosas. Por conta das eficientes campanhas de marketing, alianças políticas com opositores políticos históricos, como Paulo Maluf, garantem alguns minutos a mais na TV e tornam-se indispensáveis para a reeleição de FHC, em 1998, e para a ampla divulgação do até então semi-desconhecido candidato a prefeito Haddad, em 2012.

Há mais de duas décadas a política democrática no país tem sido feita a partir de alianças e concessões de favores. No contexto político, as alianças políticas são necessárias, uma vez que ninguém governa uma cidade, um Estado ou um país sozinho. A questão torna-se perigosa para a democracia quando a devolutiva do apoio recebido vem acima dos interesses e necessidades da população, abrindo margem para privilégios, favores, indicações inadequadas para cargos de confiança e outros tipos de corrupção.

No Brasil, apesar de cinco presidentes já terem sido empossados após os 21 anos de ditadura civil-militar, ainda há muito que caminhar na direção de construir uma democracia com real participação popular em um governo no qual o poder seja do povo e governe pelo povo. O que é visto hoje se aproxima em alguns momentos mais ao modelo aristocrático, em que as ações favorecem, prioritariamente, interesses diversos das classes dominantes e da elite empresarial do país, sobrepondo-se às necessidades da população como um todo.

Por fim, não podia deixar de ser destacado um triste e fundamental aspecto que quase passa despercebido no filme e aproxima Brasil e Chile em seus desdobramentos. Ao apresentar pela primeira vez a ideia da campanha publicitária pelo Voto No, um ex-perseguido político critica o que seria um “comercial de Coca-Cola” e ressalta como a campanha ocultaria e favoreceria o esquecimento da dor das vítimas do regime Pinochet. O caráter alegre da campanha de marketing determinou a exclusão do tema do sofrimento das vítimas em seus comerciais. Esse parece ser um dos primeiros sintomas de como o esquecimento é necessário para o funcionamento da máquina do capital. No Brasil, a intensidade do esquecimento forçado sobre a dor e atrocidades cometidas no regime ditatorial é algo com o qual a população convive até hoje. Caracterizado como uma exceção dentre os países do Cone Sul que foram governados por uma ditadura de direita, foram necessários 27 anos e uma série de interesses e pressões internacionais para que o Brasil, finalmente, instalasse pela primeira vez uma Comissão Nacional da Verdade. Apesar das dificuldades e críticas à maneira como foi estruturada, neste momento em que se aproxima o primeiro ano de sua instalação, seus trabalhos têm sido um importante instrumento contra o silenciamento institucionalizado de mais de 40 anos. Resgatar a memória das vítimas da ditadura e não permitir que a história recente do país e o sofrimento daqueles que lutaram pela liberdade e democracia caia no esquecimento, eis um dos principais papéis das Comissões da Verdade. Ainda resta muito a desvelar dos obscuros vapores da ditadura que ainda assolam silenciosamente a população e determinam o cotidiano da sociedade, sem que seja percebido. Não há democracia sem memória. É a partir do resgate da história recente do país que depende o futuro da democracia.

 * Luis Jardim é psicólogo e pesquisador sobre a ditadura e política brasileira.

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