A capa do Diário de hoje é “Papai usa batina”

A greve dos professores da rede

Luciano Alvarenga

O redundante fracasso de mais uma greve dos professores de rede pública de ensino de São Paulo, que nem ao menos chegou ao conhecimento da população, recoloca e renova a discussão sobre a educação pública, os professores, sociedade, sindicatos e governo. Depois de 20 anos a frente do Estado mais rico do país, o fato é que o PSDB concretizou o mais importante e eficaz processo de destruição da educação pública que se tem notícia no Brasil. O fracasso de mais uma greve dos professores é uma evidência cristalina disso.

Os professores que antes possuíam uma unidade de grupo, de categoria, e que nos mais das vezes se sentiam parte da mesma luta em favor de melhorias na educação (diga-se que quase sempre salariais), foram fragmentados num sem número de categorias oficiais criadas pelo governo, a partir do regime de trabalho, para esfacelar o professorado. O resultado é que cada professor é uma realidade precária que na sua maioria não coincide com o colega da sala ao lado; mais, tornam-se quase estranhos uns aos outros dadas as condições favoráveis ou não de cada um. Desmotivados, mal pagos, em condições emocionais e materiais insalubres e agora atomizados, resta a solidão da impotência e o falte-afaste-se sempre que puder. Maquiavelismo aplicado na veia.

A APEOESP há décadas deixou de ser representativa de uma categoria que deveria encabeçar e dirigir no sentido de construir caminhos possíveis de luta e melhorias e, se converteu, como de resto todos os outros sindicatos, numa trincheira dos partidos de esquerda em sua luta pelo poder político. Greves, e não foram poucas, foram iniciadas ou terminadas à revelia da classe professoral, em prejuízo desta, muitas vezes, para atender demandas políticas partidárias que nada estavam em consonância com a realidade específica dos professores. Incapaz de criar fóruns de debates e de oxigenação da classe, de realmente organizar os professores em torno das agendas que se faziam necessárias ao longo dos anos, a APEOESP foi se convertendo num espaço privilegiado para ação de carreiristas, encastelamento de lideranças que a muito nada lideram, e se distanciando aceleradamente da realidade dos professores que deveria representar. Hoje é uma máscara disfarçando a realidade.

A escola pública, enquanto vetor de ascensão social e inclusão profissional, faliu. Mas enquanto instituição de controle e abafamento social funciona muito bem. O fato é que a escola pública se tornou o mais eficiente método de encarceramento juvenil existente na sociedade atual. Morta do ponto de vista pedagógico, ineficiente do ponto de vista da formação educacional, barata do ponto de vista econômico, a escola é na verdade um regime de encarceramento forçado, que obriga o jovem a nela se manter independentemente da sua qualidade e que desemboca num processo, não de alfabetização, mas de analfabetismo vitalício.

Sem dar meios reais de ascensão profissional, impossibilitando aos jovens qualquer outro mecanismo de inserção social, criminalizando a vida fora dos caixotes burocráticos de servidão educacional, e agora, cercando aquela parte dos jovens que caíram na delinquência por meio da tentativa de baixar a minoridade penal, o que teremos é o mais importante e funcional meio de aprisionamento jurídico-educacional juvenil do ocidente, perdendo apenas para os americanos, inventores do sistema. A resposta dos alunos é óbvia, o aumento sem precedentes na violência escolar traduzida numa infinidade de matizes: bullying, violência verbal, violência física, depressão, angústia, pânico, drogas, desinteresse, apatia, e tantas outras. É a manicomização indireta, mas não menos eficiente, de todos aqueles que estiverem no sistema de servidão educacional.

A sociedade civil, por sua vez, está sendo lançada à cidadania por meio do cartão de credito. Vai levar umas duas décadas pelo menos até perceber que ser pobre endividado não é qualitativamente melhor do que sê-lo sem dívida. Pulando do analfabetismo das letras ao analfabetismo digital a única coisa que mudou foi a incompreensão, por parte do povo, do que está acontecendo. Para os que conseguem, apesar de tudo, seguir adiante no sistema de analfabetismo vitalício, o governo, agora o federal, oferece cotas, bolsas e financiamento público de mensalidades em escolas privadas. O que se está criando é o maior contingente diplomado do ocidente sem condições de trabalho de que se tem noticia.

Com os professores lançados à luta como bestas feras pela sobrevivência profissional, individual e biográfica em condições, em muitos casos, abjetas; com os alunos, desreferencializados, conscientes, ainda que intuitivamente, de que tudo não passa de um grande engodo e que as portas estão fechadas; com um sindicato operando a todo vapor nas últimas batalhas para ocupar o palácio dos Bandeirantes com a bandeira do governo Federal; e o próprio governador apertando os parafusos para manter sua obra de destruição do sistema educacional, pouco resta senão assistir a um descalabro social e político de magnitude tectônica.

Depois de tudo isso é pouco provável que o que venha depois seja melhor. Luciano Alvarenga