A importância de incentivar a indústria criativa vai além de papel desenvolve-lá, dado o efeito multiplicador que as atividades ligadas aos setores criativos possuem. Logo o crédito para fomento tem caráter signficativo no sentido de direcionar e regular essas atividades.

No 25º Fórum de Debates Brasilianas.org, sobre os desafios das Indústrias criativas, o analista de desenvolvimento da Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia) e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Paulo Rodrigues Matta, falou sobre a importância de investimentos e das linhas de crédito voltadas à economia criativa.

Para ele, é possível compreender as atividades criativas e focar as políticas em núcleo que se irradia para outras atividades, assim como exemplificou Andréa Fernandes, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O pesquisador da UFBA considera como uma característica importante das cadeias produtivas da cultura sua lógica ramificada, menos linear. Logo, é importante que a perspectiva sobre a economia criativa seja ampliada, para permitir a inserção da informalidade. “Numa visão mais tradicional de indústria, é mais difícil enxergar a informalidade”, pontua.

Os recursos para os programas de fomento baianos vem do Fundese, o Fundo de Desenvolvimento Social e Econômico do governo estadual, o que permite a criação de linhas de financiamento competitivas e até mesmo produtos mais específicos. Outras fontes são repasses de verbas do BNDES, do Banco do Nordeste e também recursos próprios.

Em 2006, foi criado um Departamento de Economia da Cultura no BNDES, o que é considerado importante porque o banco estatal tem o papel de ditar a lógica de atuação dos outros agentes do sistema de fomento, como Banco do Nordeste e Desenbahia. Com a criação deste departamento, surge uma situação favorável ao fomento para os setores criativos.

A criação da Secretaria de Cultura do governo da Bahia, antes vinculada à pasta de Turismo, permite que a Desenbahia possa manter uma parceria mais estreita com o órgão, criando o CrediBahia Cultural, um programa de microcrédito. Segundo Matta se observa que no interior, mesmo sem o selo da cultura, os picos de financiamento do programa acontecem justamente no São João e próximo das festas tradicionais.

CrédiFácil Cultural

Em 2008 e 2009, o Conselho da Fundese criou a chancela de um programa de fomento para o setor cultural. Disso resultou um convênio entre a Desenbahia e a Secult para a criação do programa de financiamento chamado CrediFácil Cultura, focado em micro e pequenas empresas, com taxas diferenciadas de investimento, que estão entre as mais baratas que as praticadas pela agência.

O grande desafio, agora, é estimular a demanda para que surjam projetos. “Os próprios agentes produtivos, como empresário do design e da arquitetura, ainda não se veem como economia criativa”.

Por este motivo, em 2011 a Desenbahia organizou oficinas para estimular o desenvolvimento da cultura do crédito nos setores da economia criativa. Mesmo assim, o pesquisador da UFBA ainda diz que não houve uma reação na demanda. “Foi mais um efeito de orientação, sem um efeito prático de tomada de financiamento”.

O foco da agência é o fortalecimento e profissionalização do setor cultural e da economia criativa. Isto facilita a aproximação com outras secretarias estaduais, agentes do governo federal, com o Sebrae, que, juntamente com a Secretaria de Cultura, está criando o Qualicultura, um programa de capacitação, que irá oferecer um trabalho de gestão e economia.

Matta disse que a nova Lei Orgânica de Cultura na Bahia permitiu um suporte para que a agência baiana pudesse trabalhar com o fomento da economia criativa, incluindo a gastronomia, o design, entre outros. Para ele, “é fundamental termos uma base normativa ampla, mesmo que depois ela seja afunilada. Não se pode perder de vista que você tem um efeito multiplicador em outros setores”.

Para o analista da Desenbahia, um ponto positivo no trabalho de fomento à economia criativa é o estímulo a eficiência na administração pública, porque resulta na articulação entre os diferentes órgãos. “Para ser bem feito, na medida em que os programas evoluem, é necessário que exista diálogo entre os diferentes ministérios e secretarias”.

Ao final, Matta concluiu que a economia criativa precisa ser melhor reconhecida pelas instituições e pelos agentes produtivos. “É preciso colocar a economia criativa na vitrine e delimitá-la, dar um elemento palpável e concreto para se poder trabalhar”. Ele afirmou que ainda existem dificuldades no acesso ao crédito, e que é necessário um maior diálogo com os munícipios e cita o exemplo de Salvador, que não tem uma secretaria voltada para a cultura.

Identidade brasileira no design de móveis

No mesmo painel, Jéthero Miranda, coordenador do curso de Design de Interiores do Centro Universitário Belas Artes, falou sobre o design moveleiro e o a identididade brasileira inserida neste contexto. Para ele, a cultura é fundamental para a criação, e é também um jeito de exercer nossa humanidade.

Através da complexidade de composição e de utilização de seus materiais, o design também se torna um veículo de comunicação para as manifestações culturais de um país e de seu povo.

Além disso, Jéthero pontuou que o design é uma área que movimenta muito dinheiro, com empresas brasileiras exportando e até mesmo saindo do país e montando lojas nos Estados Unidos. “O móvel é fabricado em Sorocaba e vendido em Washington. Estas empresas estão vendendo o design brasileiro, o jeito brasileiro de pensar”, conclui.

A respeito da identidade brasileira, o professor da Belas Artes disse: “nós somos muito grandes, e temos que ter noção dessa grandeza”. Citando Jurandir Freire Costa, Miranda acredita que, “se não valorizarmos nossos aspectos culturais, estaremos nos destruindo”. Ele dá o exemplo de um hotel na Bahia que utiliza, como decoração de seu interior, peças do artesanato local. “Ele é o mais frequentado da rede, porque é diferente, não é pasteurizado. As pessoas vem para o Brasil para ver o Brasil”.

Durante sua fala, Miranda fez um apanhado histórico do design de móveis brasileiro. Ele considera como o primeiro objeto de design genuinamente nacional a Poltrona Mole de Sérgio Rodrigues, tanto pelos materiais com que foi fabricada quanto pela maneira que pode ser ajustada e utilizada. Outros exemplos citados são Joaquin Terreiro e suas cadeiras de jacarandá, os sofás dos Irmãos Campana, e a experiência da Unilabor, de Geraldo de Barros, uma fábrica gerida pelos próprios operários e que durou de 1954 a 1967.

Para Matta, uma das barreiras para o crescimento desta indústria criativa é que as pequenas e médias empresas não tem tradição em contratação de design. Com a concorrência dos produtos chineses e os altos custos dos direitos autorais, torna-se quase inviável para estas empresas investirem em designs.

Por último, o coordenador da Belas Artes cita André Marques, Carlos Motta e Fernando Jaeaguer como exemplos de profissionais que tem empresa própria ou que trabalham sozinhos e que conseguiram sobreviver no ramo, fazendo produtos de qualidade e vendendo para outros países.

Ouça aqui as palestras e veja abaixo as apresentações de João Paulo Rodrigues Matta e de Jéthero Miranda no 25º Fórum de Debates Brasilianas.org:

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