O Brasil é um país em busca de um conceito, repensado continuamente. Isso ocorre quando a nação não se mostra como ideal pressuposto e muda de rumo. Quando o conteúdo foge ao nosso referencial idealizado nos voltamos, portanto, à questão nacional. Episódios em que a nação esteve em contexto de formação são comuns em nossa história, o que faz com que este debate persista no tempo. São exemplos a Independência (1822); a Lei Áurea (1888); a Primeira República (1889); Segunda República (1930); Primeira Democracia (1945); Início do Regime Militar (1964) e Redemocratização (1988). São estes diversos começos o que nos inspira a repensar o país, sempre com o propósito de equacionar problemas e enquadrar a nação em seu molde ideal.

A realização de um ideal, todavia, não é algo simples, uma vez que dilemas antecedem esta realização. No Brasil, como explicitou Octavio Ianni “[...] há sempre algo que se pode definir como uma inquietação sobre o que foi, o que tem sido e o que poderá ser o país; como se fosse uma nebulosa informe [...] em busca de articulação e direção.(IANNI P.67-68)”. Esta “nebulosa informe” representa um país em busca de um lugar no mundo; uma busca por aquilo que lhe confere sentido.

O pensamento social enfrenta o desafio das perguntas: “qual é o ideal deste povo?” ou, em termos mais objetivos, “o que este povo deseja ser e como pretende fazer isso?”, e procura explicações por meio do posicionamento não apenas de seus formuladores intelectuais e artistas, ou lideranças políticas, mas também a do homem comum, que constitui a sociedade civil. Compreender os mecanismos que implicam a autodeterminação nacional trata-se de uma atividade complexa que demanda reflexões a respeito das mais variadas problemáticas: econômica, social, territorial, cultural, racial, ambiental; subdividas entre temas como  desenvolvimento industrial, redistribuição de recursos, segurança pública, gênero, modelo de democracia, governabilidade, dentre outros.

Os dilemas a respeito da formação nacional provêm, afinal, de uma relação tensa, caracterizada pela simbiose entre o que é a nação enquanto sujeito constituído por tradicionalismos, e o que pretende ser enquanto sujeito moderno. Os elementos causadores da tensão são aqueles que reforçam a ideia de atraso, que supostamente emperram e retardam o desenvolvimento da nação.

Mas quais seriam os elementos causadores desta tensão? Em primeiro lugar, poderíamos dizer que eles só existem quando em relação a outros que julgamos mais positivos, ou modernos, talvez mais práticos (um valor de nosso tempo) e quiçá universalistas (em que sobressaiam aspectos racionais), ora desenvolvidos pela própria nação, ora apresentados por nações vistas como mais adiantadas em termos econômicos (países de capitalismo avançado), políticos (democracias consolidadas), culturais (que disponha de educação e em que impere a liberdade de expressão), além da disponibilidade tecnológica para diversos fins. Nestes termos, em segundo lugar, o caminho para se alcançar a modernidade se apresenta mais demorado e por vezes tortuoso quando elementos causadores do atraso entram em choque com aqueles apreciados como mais modernos. Mas por fazerem parte de um conjunto de tradições, e assim estarem muitas vezes naturalizados, alguns elementos acabam sendo transportados de uma época a outra, de modo que a nação, mesmo em novo formato, acaba por não promover rupturas totais com o passado, mas sim apresentar nova roupagem a antigos padrões de comportamento.

Na peregrinação rumo à modernidade, por um lado o Estado se apresenta como a alternativa messiânica, dada a supervalorização da crença de que é a instituição mais capacitada para organizar a sociedade em moldes modernos; por outro, a sociedade se apresenta atuante e influente em episódios em que a nação passa a ser reformulada, haja vista a participação dos indivíduos em movimentos que contribuíram com novos modelos de organização social e política do país. Como se vê, a formatação da nação, apesar de apresentar diferentes horizontes, não se realiza de maneira artificial ou puramente abstrata.   

As dificuldades impostas pelo atraso são sentidas de maneira distinta pelos segmentos sociais, sendo alguns mais sensíveis e vulneráveis a ele e outros menos, embora o impacto seja experimento por todos tanto na esfera privada quanto na pública – neste último caso, em sua acepção mais abrangente, na esfera política.  

Na política a tensão ocorre entre as demandas por modernidade e a manutenção de costumes tradicionais, sobretudo em momentos em que a construção de uma nova ordem é posta em evidência, o que abre espaço para atuação tanto das lideranças políticas quanto dos movimentos sociais, ora nacionalistas, ora subversivos quanto à ordem estabelecida. O que ocorre, aparentemente, é uma luta entre contrários excludentes, não havendo ponto de conciliação ou encontro – ou a tradição ou a modernidade. Mas não é só isso: na prática são realizados arranjos flexíveis, que não excluem por completo elementos tradicionais importantes (que provoquem ou não o atraso) e permitem a incorporação de elementos modernos, adotados com a intenção de aperfeiçoar a própria nação. Na prática, o resultado final consiste no cruzamento entre valores particulares e universais, havendo perdas e ganhos.  

 A formatação de uma nação moderna, em termos ideias, não se esgota em um momento preciso. Ao contrário, assume diferentes fisionomias conforme os problemas propostos pela circunstância. O dilema que perpassa a ideia de Brasil Moderno não se resume à escolha entre tradição e modernidade, concebidas como elementos separados, distintos e impenetráveis, como se a escolha de um elemento excluísse o outro. A nação moderna é, na verdade, circunstancial, e apenas em determinados aspectos. Refletir a relação tradição e modernidade é como pensar a relação tempo e espaço. Todas as explicações que definem o que é o tempo sempre recorrem ou fazem referência ao espaço, e é por isso que quando nos referimos a modernidade sempre fazemos referência a certas nações “ditas modernas”, o que quer dizer que o tempo moderno só existe como convivência humana dentro da nação – fora dela o termo é mera abstração. A experiência de ser moderno só pode se realizar nas potencialidades do ser nacional.     

A nação ideal continua a ser a base das contradições e controvérsias fundamentais dos países da América Latina e do mundo. Em épocas de conjuntura crítica – política e econômica – em que se aprofunda o vaco de poder, abre-se o leque de possibilidades para países em posição de coadjuvante se destacar, despontar entre as nações e se tornar referência do que é moderno. Mas a liderança global, antes de ser uma benção, é um desafio que só é vencido quando se compreende o potencial que existe para resolver, sobretudo, as divergências internas.

Nação é, afinal, uma configuração histórica que sintetiza forças sociais, compromissos políticos, produção cultural e multiplicidades étnicas.  Possui território, bandeira, moeda, heróis e santos. Mas estes elementos só adquirem sentido dentro da correlação de forças, do universal e do particular que configuram a nação. A nação se concebe antes como processo do que como dado estático. É antes uma projeção do que algo pronto; uma forma em movimento cujo trajeto não está nos manuais.

Mas nenhum país é só historia; é também imaginação que se consubstancia no Estado e na sociedade civil. A nação é plástica e pode ser fabulada pelo filósofo, escritor, jornalista, romancista, cartógrafo, político, homens de ação e por qualquer outro indivíduo que se ponha a pensá-la em termos modernos. Por isso o país é simbolizado, sintetizado e representado por diversas figuras. Nesta interação, produtor e produto que “na singular dialética das relações criador e criatura, aos poucos, fica imperceptível a linha que separa o real do imaginário, a figura e a figuração, a pessoa e o personagem, o dito e o mito”. [IANNI p.30-31]. As construções simbólicas, portanto, fazem parte de um ideal que a nação opta perseguir.

O progresso é um desafio que a sociedade assume ganhando diversas fisionomias de acordo com as lutas, controvérsias e indagações envolvidas na mudança. A relação entre tradicionalismo e modernidade se faz entre encontros e desencontros, caminho tortuoso e mágico daqueles que se aventuram no labirinto da questão. Reforçamos, por conseguinte, que nação e a modernidade são elementos irredutíveis. Mais uma vez, conforme explica Octavio Ianni, “A gênese de cada sociedade nacional compreende tanto a luta contra metrópole como as divergências internas, além dos conflitos com vizinhos.” [IANNI, p.8]. O autor demonstra que na gênese de cada nação estão incluídas as questões regionais, de fronteira e de autonomia nacional ou autodeterminação, que não são exclusivas de determinado país, posto que o problema de determinado país não pode deixar de ser pertinente ao seu país vizinho. A meditação sobre o lugar da nação no mundo se coloca na história desde seu início. Não se pode meditar sobre a nação sem estabelecer mediação com o lugar que ela ocupa no mundo. As revoluções e as guerras sintetizam bem tal dilema.

 A nação não surge pronta: ela se faz na contínua correlação de forças do local e do global, que ao longo da história faz com que o país renasça, retome e esqueça certas tradições, configure uma fisionomia e projete algum futuro.

O problema de ter como referência nações estrangeiras como ideal de modernidade nacional é o fato de que esta referência pode sucumbir no tempo, conforme ocorre atualmente com as pertencentes a países da União Europeia, que outrora serviram de modelo para o Brasil. Outro ponto é que a nação brasileira se apresenta hoje como construtora de um país que serve de exemplo para outros – o Brasil é reflexo de uma nação que progrediu em forma e conteúdo. E tal afirmação não se dilui com os problemas nacionais intrínsecos ao Brasil, como a corrupção por exemplo. O fato é que a nação vai se formando de modo contraditório, e no vai e vem da modernidade.

Quando se busca o Brasil Moderno, não se busca o Brasil construído com base na cópia, mas o Brasil capaz de ter um projeto motivador. Projeto que guarda a capacidade de um povo ultrapassar a si mesmo, de se superar – o que está relacionado à liberdade humana que, em determinadas circunstâncias, o projeto pode motivar atitudes que superem os fatores condicionantes da própria circunstância. Por isso, o Brasil contemporâneo tem o condão de possibilitar a reflexão a respeito de que maneira o país realizou e pretende continuar realizando a sua modernidade, apesar da existência de elementos tradicionais que configurem o atraso. Mas é, no entanto, este nosso jeito de ser moderno que traz a nossa originalidade ou excepcionalismo que a modernidade exige.

Quando retomamos o passado para indagar o destino da nação, não fazemos de maneira nostálgica. Porque não são poucas as vezes que temos que dar um passo atrás para dar dois à frente. E assim, a nação brasileira segue em formação.

Bibliografia
IANNI, Octavio.  Pensamento Social no Brasil. Bauru, SP: EDUSC, 2004.
ANDERSON, Benedict Comunidades imaginadas São Paulo: Companhia das Letras, 2008.





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1 comentário
imagem de Anônimo

Senhores,

O texto não é de minha autoria! Ele foi produzido pelo coletivo de pesquisadores do Grupo de Estudos sobre o Brasil Moderno, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Eu apenas o remeti.

Solicito, portanto, a retificação.

Obrigado.

Rogério Baptistini.

 

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