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A relação estabelecida entre Wellington Menezes de Oliveira - autor dos disparos que mataram 12 crianças em Realengo, no Rio de Janeiro, na última quinta-feira - o armamento civil e os transtornos mentais está equivocada. Esta conexão, estampada na cobertura da mídia e sustentada no congelamento de imagens de familiares chorando, reconstituições do crime e depoimentos de crianças assustadas, na verdade demonstra a necessidade de se buscar respostas para a tragédia. Mas para a psicanalista Roberta Ecleide de Oliveira, do Núcleo de Estudos Em Psicanálise e Educação, os diagnósticos “póstumos” do ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira são simplistas e incapazes de solucionar tantas dúvidas sobre seu comportamento.

Desde o acontecimento, várias explicações levantadas por especialistas tentam encontrar causas objetivas para a ação de Wellington Menezes. Fala-se do problema do armamento civil e da necessidade de reforço da segurança em escolas. Outros apontam que não se trata de um problema de segurança pública, mas de saúde, argumentando que se deve dar mais atenção para a assistência a pessoas com problemas mentais.

“Quando acontece uma coisa dessas, vira uma comoção, e dá a impressão de que todo mundo está levando arma para a escola, ninguém mais pode ser esquisito e calado, ninguém mais pode ser diferente”, disse Roberta de Oliveira. Segundo a psicanalista, as explicações simplistas são perigosas e fazem com que o pânico e a desconfiança se generalizem.

Como temos necessidade da segurança, são criadas respostas, relacionando a mãe com problemas mentais, o bullying, e a relação que Wellington tinha com a cultura islâmica. “Mas a resposta é: não sabemos. Mas, na mídia, alguém que diz que não sabe, não favorece a audiência”, declarou Roberta.

“O que se pode fazer, em termos de saúde mental no Brasil, está sendo feito”, afirma a especialista, ao enfatizar que se deve tomar cuidado com compreensões rápidas de situações históricas. “No Brasil, a reforma psiquiátrica chegou depois do período ditatorial. Até sair a lei, a luta antimanicomial e a abertura para falar sobre isso, tem outro tempo”, completou, ao elogiar o Programa de Volta para Casa e os Centros de Atenção Psicossocial, ambos do governo federal.

Apesar da impossibilidade de se diagnosticar Wellington Menezes de esquizofrênico, Roberta concorda que haja uma exclusão permanente desta patologia. “Nossa sociedade capitalista não vê a loucura como produtiva, por isso é marginalizada”. Porém, a psicanalista reconhece que a doença mental não é mais tratada de maneira médica e disciplinar.

Segundo Roberta, algumas questões maiores devem ser levadas em conta. Para ela, uma sociedade eminentemente individualista, que deixa isolados cada um de seus membros, que só podem virar humanos em grupo, incita a barbárie. Trata-se da lógica baseada no bem-estar pessoal. Qualquer mal-estar que ela tiver, tem alguma coisa errada. E, como diz a psicanálise, o mal-estar faz parte do jogo.

“O ser humano não pode ficar sozinho. O ser humano sozinho, sem estar acolhido e sem fazer parte de nenhum grupo, adoece. Não podemos confundir essa questão com outras, como o armamento. Desarmar não vai fazer com que esse jovem tenha esses problemas maiores resolvidos”, conclui.

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