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Levantamento se assemelha à estratégia de competição chinesa

A Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), iniciará o mapeamento das ‘100 tecnologias chaves’ para o desenvolvimento do país. A proposta se assemelha a um trabalho realizado pela China em 2006, para determinar cem tecnologias para apostar seus investimentos nas próximas décadas.

“O levantamento feito por chineses demorou dois anos e meio e motivou, inclusive, a visita de uma comissão norte-americana ao país asiático, afim de estudar qual será o impacto da estratégia chinesa sobre a competitividade norte-americana”, explicou João De Negri, diretor de Inovação da FINEP e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) licenciado, durante o 28º Fórum de Debates Brasilianas.org - A Política Industrial, realizado em São Paulo.

De Negri se diz otimista quanto ao desempenho econômico do Brasil nas próximas décadas. Ele participou da criação da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), em 2003, e vê no Plano Brasil Maior a continuidade do objetivo do governo federal em estabelecer os rumos para o desenvolvimento competitivo das empresas nacionais.

Durante sua exposição, no fórum de debates, abordou quatro pontos que caracterizam uma fase de oportunidades para a economia nacional. Mas alerta: “O Brasil é um país que, nos anos 1980 e 1990, optou por atalhos para chegar ao desenvolvimento. Agora, nós vamos ingressar numa fase onde os atalhos não são mais possíveis”.

Para pensar no médio e longo prazo

O primeiro ponto, “ou grande ideia”, diz respeito a maior seletividade por parte do governo federal em relação ao foco dos investimentos, priorizando situações com as quais o país pode avançar no domínio tecnológico, a exemplo da proposta de estabelecer as cem tecnologias mais importantes para se investir. O segundo ponto diz respeito ao desafio de melhorar os investimentos brasileiros sobre a indústria e o comércio, no geral, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, a média gira em torno de 16% a 17%, sendo que o ideal é alcançar 23%.

O investimento em relação ao PIB significa o quanto os setores público e privado tem separado para investir no aumento da capacidade de suas indústrias e serviços, seja em termos tecnológicos, na compra de novos materiais, seja na capacitação de mão de obra.

De Negri apontou que os investimentos devem priorizar não apenas as áreas econômicas já consolidadas no país, mas também a transformação da estrutura produtiva brasileira. “Isso alavancaria de forma efetiva o investimento geral na economia”, ponderou.

Como argumento a essa ideia, o economista destacou um estudo feito pelo IPEA com 14 mil empresas, durante dez anos, que avaliou indicadores de produção, emprego, tecnologia e comércio exterior de cada CNPJ.

“As firmas que, individualmente, transformaram sua base produtiva, investindo em conhecimento, tinham mais necessidade de reformular sua linha de produção”, aumentando em 16% o investimento em ativos fixos, seja na compra de máquinas e equipamentos, ou, até mesmo na construção de laboratórios, mesmo que simples. O estudo identificou, também, o aumento de 23% na taxa de remuneração dos trabalhadores das empresas mais inovadoras, em relação às empresas que não prezaram as pesquisas.

Diversificação: estamos em curso  

De Negri avalia que o Brasil está passando por um processo de transformação econômica distinto dos anos 1980 e 1990, quando “atalhos” favoreceram o crescimento do país, mesmo que baseado em poucos setores produtivos.

A terceira grande ideia é justamente a necessidade de diversificar a economia brasileira. E isso, segundo o representante da FINEP, já vem acontecendo em segmentos de maior intensidade de conhecimento. O país tem um número considerável de pequenas e médias empresas de base inovadora, mas fortemente dependentes de parques tecnológicos ou incubadoras.

Uma saída é continuar fortalecendo grandes empresas nacionais, que funcionam como peça central agregando pequenas e médias empresas nas cadeias produtivas, a exemplo da Petrobras, que exerce função importante na sobrevivência de CNPJs das áreas de engenharia e química.

“Se a [grande] empresa é estrangeira, seus fornecedores serão de outros países. Portanto, em determinados segmentos [o fato da grande empresa ser nacional] é a chave do ponto de vista do desenvolvimento”, pontuou.

A quarta ideia resulta do aquecimento do mercado interno brasileiro, decorrente do aumento real da massa salarial e queda no desemprego, como apresentado pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Alessandro Teixeria, durante o fórum de debates, entre maio de 2004 e maio de 2012.


Fonte: IBGE, com Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Em 2003, 38% da população brasileira se encontrava na classe C e 27%, na classe D. Cinco anos depois o percentual de indivíduos na classe C saltou para 49%, enquanto na classe D ocorreu leve diminuição para 24%. Já as classes A e B aumentaram de 7%, em 2003, para 11%, em 2008. A classe E, em cinco anos, passou de 28% para 16%.

“Dificilmente vocês vão achar qualquer país do mundo que tenha alterado sua pirâmide de classes sociais num período de menos de uma década, dessa forma. Isso posso falar tranquilamente”, afirmou Teixeira.

O quarto ponto, considerado por De Negri necessário para garantir o desempenho da economia brasileira, diz respeito a esse novo quadro social. Dele tem resultado “uma enorme oportunidade de negócios, em especial para segmentos de maior intensidade de conhecimento” o que exige um aumento da qualificação de pessoas em diversas áreas como química, física e engenharia afim de atender empresas de todos os portes.

João de Negri, Diretor da Finep. Foto: Pedro Napolitano

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