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Conversão de resíduos da indústria sucroalcooleira em gás corresponderia a 80% da energia produzida em Itaipu

Tecnologia patenteada no país converte resíduos de cana-de-açúcar em biogás e biometano. A nova rota de produção energética teria potencial para favorecer a entrada do setor sucroalcooleiro no grupo de fornecedores permanentes do Sistema Interligado Nacional de energia elétrica.

Há dez anos a empresa brasileira Geo Energética desenvolve processos para a produção de biogás e biometano (que corresponde ao gás natural) a partir da palha e vinhaça que sobram como resíduos das usinas de cana-de-açúcar. Desde abril de 2012 a firma possui uma planta comercial em Tamboará, município da região do Paranavaí (PR), com capacidade para produzir 4 MW/h de energia elétrica, o suficiente para atender o consumo de dez mil habitantes.

O projeto custou R$ 30 milhões e foi possível graças a uma parceria feita com a Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana (Coopcana), além do financiamento de R$ 18 milhões da linha de inovação do BNDES, explica Alessandro Gardemann, um dos diretores do Geo Energética.

Segundo ele a tecnologia pode ser aplicada em outros setores da agroindústria. Ocorre que só o setor sucroalcooleiro produz 20 milhões de toneladas de resíduos sólidos todos os anos. O aproveitamento desse subproduto na geração de biogás poderia fornecer até 80% da energia elétrica produzida pela usina de Itaipu, calcula.

A Coopcana, formada por 127 associados, produz 3,5 milhões toneladas de cana-de-açúcar por ano, convertidos em 190 milhões de litros de etanol e 130 mil toneladas de açúcar do tipo exportação. O presidente do grupo, Elias Fernando Vizzotto, confirma terem grandes expectativas com relação à proposta da Geo Energética, por apresentar mais uma possibilidade de uso econômico dos subprodutos do setor.

Até o final de 2013 a Geo Energética pretende ampliar para 16 MW/hora a capacidade de geração na planta de Tamboará, que teria como diferencial competitivo a patente de uma estrutura flex de produção de biogás e biometano, este último, podendo substituir o abastecimento de óleo diesel de tratores, colheitadeiras, caminhões e ônibus.

Vizzotto destaca que já discutem a possibilidade de parcerias com as empresas de veículos pesados Iveco e Scania, para o estudo de motores alimentados pelo biometano.

A produção do biogás ocorre de forma natural, pela ação de microrganismos que atuam na digestão de matéria orgânica. O produto é classificado como um biocombustível, por ser uma fonte de energia renovável, sendo o biometano obtido a partir da purificação do biogás.

Gardemann destaca que a geração dos dois gases não irá competir com a produção do etanol segunda geração (clique aqui), pois essa última tecnologia aproveita o bagaço da cana-de-açúcar, enquanto os estudos realizados pela empresa focam apenas na utilização da palha, vinhaça e ponteiros que são deixados para trás durante o corte mecânico da cana-de-açúcar.

Na visão empresarial de Vizzotto a produção de etanol 2G está longe de ser competitiva, portanto a tendência é que as propriedades canavieiras continuem queimando o bagaço em sistemas de caldeira, para a produção de energia elétrica. A Coopcana, por exemplo, dará início em março à operação de uma caldeira com capacidade de produção igual a 157,9 mil MW/safra. O empreendimento está sendo feito em parceria com a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), e já conta com energia vendida na BOVESP. "Através desse sistema iremos lançar na rede [elétrica] 30MW/hora, quantidade máxima autorizada pela ANEEL", completa Vizzotto. 

Além da geração de energia elétrica em caldeiras, e da nova rota comercial do biogás, a cooperativa mantém parceria com a indústria de químicos Raudi, desenvolvedora de um processo que transforma o CO2 produzido na indústria da cana durante a fermentação alcoólica em bicarbonato de sódio, importante insumo nas indústrias química e farmacêutica.

“Todos esses projetos ainda não geram grandes divisas, mas grandes notícias. A proposta do bicarbonato, por exemplo, nos propiciou contatos com a Petrobras e outras empresas estrangeiras”, analisa.


Planta industrial da Geo Energética, no município de Tamboara, noroeste do Paraná

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