O acerto póstumo da demissão de Ana Kucinski

Por alfeu

Da Rede Brasil Atual

Movimentos querem reverter demissão de professora da USP morta pela ditadura

Ana Rosa Kucinski foi demitida por abandono de funções em 1975, mas ela havia sido sequestrada, torturada e assassinada um ano antes pelos agentes de repressão

Por: Estevan Muniz, da Rede Brasil Atual

Movimentos querem reverter demissão de professora da USP morta pela ditadura

Ela foi sequestrada junto com seu marido no momento em que celebravam quatro anos de casamento (Foto: www.desaparecidospoliticos.org.br)

São Paulo – O Fórum Aberto pela Democratização da USP deseja que a universidade anule a demissão por “abandono de função” de Ana Rosa Kucinski Silva, sequestrada e assassinada em 1974 pelos órgãos de repressão da ditadura (1964-85). Ana Rosa era professora do Instituto de Química (IQ) da Universidade de São Paulo e integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN), uma organização de guerrilha urbana que lutava contra o regime. Em 1975, a congregação do instituto em que ela lecionava a demitiu, ignorando seu desaparecimento forçado. 

O fórum, que reúne a Associação de Docentes da USP (Adusp), o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) e 26 entidades estudantis e associações, vai realizar uma manifestação na segunda-feira (13) em frente ao instituto exigindo uma revisão do caso de Ana Rosa.

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A professora da Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da USP Elisabetta Santoro, vice-presidenta da Adusp, afirmou que a demissão simboliza como a universidade age em relação ao seu histórico com a ditadura. “É emblemático. Até hoje, a universidade não reverteu uma atitude que foi baseada em mentira”, disse ela. Para Elisabetta, a manifestação busca informar os atuais estudantes que não conhecem o passado da instituição sobre o envolvimento dela com a ditadura. 

“Queremos fazer jus à memória e à verdade, precisamos saber o que de fato ocorreu e avaliar a postura da universidade, que condescendeu com a repressão. Se revermos suas atitudes desse período, podemos fazer luz ao passado, avaliar nosso presente e planejar nosso futuro”. Ela ainda comentou que a manifestação deseja que o IQ seja batizado com o nome de Ana Rosa.

Ana Rosa foi sequestrada com seu marido, o físico e também guerrilheiro Wilson Silva, em 22 de maio. Segundo relata o professor e jornalista Bernardo Kucinski, irmão dela, eles foram raptados no momento em que celebravam quatro anos de casamento. 

Graduada em química e doutora em filosofia, ela era uma das mais jovens professoras do IQ e desapareceu aos 32 anos. Ela e o marido teriam sido raptados pelo delegado do Departamento de Órdem Política e Social (Dops) Sérgio Pastranhos Fleury, passado um dia presos em São Paulo e então transferidos para a chamada “Casa da Morte” em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde, após serem torturados, teriam sido assassinados pouco dias depois, de acordo com um depoimento feito pelo ex-cabo do Exército José Rodrigues Gonçalves à jornalista Mônica Bergamo, para uma reportagem da revista Vejaem 1993.

A reportagem de Mônica nunca foi publicada, mas Bernardo obteve dela uma cópia do material, segundo relatou àRede Brasil Atual em maio deste ano, quando comentou a confissão do ex-delegado Cláudio Guerra, publicada no livro Memórias de uma guerra suja, dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros. Guerra afirmou que o corpo de Ana Rosa foi incinerado na Usina Cambahyba, no Rio de Janeiro.

Em 1995, a Lei 9.140 incluiu o nome de Ana Rosa na lista oficial das 136 pessoas que se encontravam desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, e detidas por agentes públicos. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), instituída pela mesma lei, declarou que Ana Rosa foi vítima do Estado brasileiro. No entanto, até agora a USP não tomou qualquer medida para reverter a demissão por justa causa de Ana Rosa.

O Fórum Aberto pela Democratização da USP procura instaurar uma Comissão da Verdade na universidade para investigar a relação da instituição com a Ditadura. “Há ainda coisas na USP que são heranças de um passado submerso, enterrado por muitos”, comentou Elisabetta.


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10 comentários
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AlvaroTadeu

Para entender o que aconteceu com Ana Rosa, é necessário ler o livro escrito por seu irmão, Bernardo Kucinski.  "K", um livrinho de menos de 200 páginas, conta conta o martírio da jovem professora por querer um Brasil melhor. E relata também a covardia do Prof.Dr. Vicentini, então professor titular do IQ, cujo voto validou o "abandono de emprego" da professora sequestrada. Tive aulas um semestre com esse doutor, realmente uma pessoa de maus bofes. Por causa do riso de alguns estudantes numa experiência de laboratório, Vicentini atirou o equipamento de vidro longe e retirou-se da aula, numa autêntica pose de prima dona.

 
 
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Reinaldo 1

Que título infeliz para o post...

 
 
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josé maria de souza

O título poderia ser "O pedido de reversão da demissão ...".

É evidente que o post não defende o "acerto da demissão"

josé maria de souza

 
 
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leonidas

Esta ai um  caso claro de reparaçao a ser feita, se ja esta claramente comprovada que a moça foi sequestrada e posteriormente morta ( e ai pouco importa se ha ou nao detalhes de como isso se deu ) é um absurdo do tamanho do universo que a demissao por justa causa tenha se mantido.

 

leonidas

 
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ed.

"aí pouco importa"...

Talvez "importasse" mais se fosse a senhora progenitora ... de um amigo seu ... ou ...

Deixa pra lá, esquece ... pouco importa ...

 
 
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Marco St.

O título do post está bem ambíguo...

 

"Que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?" Bertolt Brecht

 
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ed.

Como manifestado por vários, também entendi diferente do conteudo do artigo.

Foi até esta curiosidade equivocada que me trouxe ao post.

Mas como o Nassif é também jornalista (hehe), embora não esteja errado ... vox populi ... 

Agora com relação ao tema: "abandono de emprego" é durezíssima, nénão?!

 
 
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Mario Siqueira

Deveria ser "A revisão da demissão..." e não "O acerto...".

 
 
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Gunter Zibell - SP

Esse "acerto" está mais no sentido de "conserto", mas concordo com vocês, não ficou bom no título, pois, à primeira vista, sem ler o texto, fica parecendo com "correção". A palavra acerto é naturalmente ambígua, pode se referir ao acerto já feito ou ao acerto por fazer...

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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kodaly

Tens razão, o título é bastante ambiguo, abri o post imaginando ler que a decisão de demiti-la foi correta.

Só não entendi, porque só agora, ou melhor até entendo, uma das minhas maiores decepções enquanto estava na universidade, 1986 a 1992, foi constatar a quantidade de pessoas reacionárias que impregnava os quadros de funcionários e docentes.

 
 

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